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O herege

O escultor senta-se de perna cruzada. Ao colo dorme um toro de madeira que as mãos calejadas acariciam enquanto a mente navega os mares da antiguidade, tentando pescar um dos monstros que vivem nos oceanos para lhe prender a alma no material fibroso. As crianças da aldeia passam pela figura quieta olhando o lenhoso ovo de espírito. Sabem que nele irá nascer um deus. Diferente dos ovos dos quais saem animais, sozinhos e viventes, desses ovos o parto requer ajuda profissional, posto que deles saem apenas coisas mortas, inertes. Os espíritos animam-se apenas nas ideias das gentes. Uma faísca interior convida uma divindade. Em desatenção se pode imaginar que algo de fora do mundo ocasiona tal inspiração. Mas a cuidada observação verifica que assim não é. Fosse, e cresceriam por todo o lado os ícones de todos os santos, todos os deuses, todos os demónios, quando na realidade só tendem a ganhar corpo aqueles que a quem as comunidades rogam comparência. Nunca chegou uma sereia atrasada a um...

Mariano

Acontecia sempre assim com Mariano, quando sentia o conforto da certitude pousar sobre o peito, vestiam máscaras de estranhação os que dele se abeiravam. O moço deparava-se com uma situação que muitos concordavam apenas em ser complicada, embora discordassem em tudo o resto. Para Mariano a obviedade era palpável, daí ter imediatamente reagido com um «Aha!» assim que a viu. Depois deu dois passos em frente que os amigos julgaram ser fruto da insanidade temporária que o compincha parecia gozar sem proveito. Dizia-se que sofria do mesmo mal que o avô. Suspeitava-se que fosse problema de genética, daqueles que fazem como os jogadores de cobras e escadotes, saltando por vezes uma geração para assim chegar mais rápido ao futuro. Também o velho Marcelino tinha tido esse problema, embora o seu fosse mais simples de compreender, fosse porque o velho vivera noutros tempos, fosse porque os que o estranhavam viviam noutros tempos. O velho recusara toda a vida o que chamava a modernice dos relógi...

Purga

Ermelinda passava mal há alguns dias, porque decidindo ser repasto do ninguém guerreava com o que habitava dentro de si. Sabem os científicos não haver forte psicologia capaz de elevar o órgão pensante à cabine de comando do corpo, destronando a milionar orquestração que sobre ele impõe o intestino. Ermelinda suava agora esse conhecer, desliquidando pela frente e por trás, castigo do jardim sensorial que por desplante enfrentara. Apenas dois dias, dissera o médico ao contar a partir da bula. Apenas dois dias, e mostrava a ela dois dedinhos de uma mão separados dos outros, como se sinalizasse vitória. Fora o suficiente para a convencer, já que tudo aquilo era tido por pouco higiénico, o tipo de doença que afeta sobremaneira a figura pública. Dois dias. Chovia a potes, tempestades de espírito. Ermelinda passeava para casa num passeio sem cor. Vinha com o olho cheio de cinzento, a esperança noutro lado qualquer, reclamando em protesto. Mas não ia desistir. Chegando a casa faria como o d...

Boa vontade

"Olhai boa gente, olhai para este delicado lenço que me tapa o rosto. Olhai para ele e vede a minha pureza, a minha nobre castidade, a alvura da minha sensível alma. Olhai também para estas limadas unhas que tenho, tão formosamente suaves as suas arestas que as podeis usar para afagar a pele do recém-nascido mais macio. Reparai no ícone que trago comigo, este luxurioso símbolo de virtude que atesta na sua inação a minha franca e inocente formosura mental. Folgo em poder aqui estar, em vos poder agraciar com as minhas doces palavras, no poder partilhar convosco a ternura da minha vontade, a beleza do meu caráter. Acalento o meu coração por me saber também entre vós e os vossos pristinos chapéus, que demonstram a vossa simples modéstia, o vossa observância pela castidade. Enriqueço na vossa nobre presença, congratulando os vossos sapatos bem engraxados, livres de impurezas e dejetos, límpidos como uma água beatificante. E nos símbolos que trazeis, irmãos em espírito do meu ícone, ...

Terra Vista

– Espartanarque! Terra à vista meu compitão! – Vixemarinha! Em chegando a terra lavas-me essa boca com sabão, marujo – respondeu o homem com a jiboia tatuada no rabo - Boa nova essa, mesmo assim. Já vinha a calhar poupar o estômago desta remação. A companhia fazia já sete semanas em mar e muitos apreciavam a ideia de fugeminar dali para fora, porque entendiam ter sido enganados. Tinham apresentado currículo para ir piratar para alto mar, boas comissões dizia o anúncio, horas maleáveis e bom espírito de equipa. A comissão não era má e a rapaziada até se entendia. O problema vivia mesmo no logro do alto mar, figura que encantara muitos dos que nunca antes haviam navegado e que por isso mesmo obstinavam em comparar a experiência de bordo com o romantismo que anteciparam na imaginação. Frustravam-se, portanto, porque o mar era alto apenas por poucos instantes, e enervavam-se, também, porque ao mar alto se intercalava um mar mais baixo, numa espécie de permanentes convulsões brincalhona...

O empreiteiro

O velho empreiteiro já não sabia o que fazer. Estava gasto. Gasto nas mãos. Gasto nos pêlos. Gasto sobretudo das ideias. Onde não se gastara era no entendimento. Mantinha firme a convicção no serviço bem feito, no cliente satisfeito. Por isso mesmo tentava sempre humanizar os seus contratos. Conhecer as pessoas com quem lidava. Partilhar com eles dois dedos de conversa. Perceber como imaginavam habitar o lar que ele obrava. Mas isso era cada vez mais difícil. Já passavam os dias em que o contactavam pessoas com a sua simplicidade. Famílias que lhe contavam ficções palpáveis. Um menino a brincar naquele canto, uma rapariga a estudar à secretária iluminada pelo sol da tarde. Este quarto mais luminoso, com cores alvas. Aquele mais aconchegador, com pastéis. Uma cozinha com cheiro de bolo de maçã aos sábados à tarde. Pessoas simples. Mas esses cada vez menos tinham bolso para o acomodar. Agora eram sobretudo os empossados que o chamavam. Gente de outra casta. Doutoras e empresários que...

Colecionadores

 Mnemósine tomava um chá sobre uma nuvem radiosa. Estava uma manhã ou tarde soalheira, como o são todas as que se passam por cima das nuvens. O dia era calmo e belo, apesar da companhia. Mas a deusa tentava não se apoquentar. Descobrira há muito que a eternidade custa menos a passar aceitando o que se não pode mudar. Com ela beberricava Anansi, o traquina octópode que fizera fama a endiabrar os deuses. Em tempos Anansi fora um robin dos bosques, retirando em má-fé as riquezas narrativas dos deuses e ofertando-as aos mortais. Fora também um napoleão, espoliando os arquivos divinos e levando consigo as mais belas histórias, acabando por deixá-las em palácios cheios de povo. Não se arrependia de nada. Tinha, aliás, muito orgulho nas suas trapaças. Não o fizera com moral ou sentimento, mas com brincadeira no lugar da cabeça e folia no lugar do coração. Enquanto chupava prazeroso o líquido escuro e amargo, mostrava à companheira algumas das brilhantes jóias que por suas artes adquirir...

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