O herege

O escultor senta-se de perna cruzada. Ao colo dorme um toro de madeira que as mãos calejadas acariciam enquanto a mente navega os mares da antiguidade, tentando pescar um dos monstros que vivem nos oceanos para lhe prender a alma no material fibroso. As crianças da aldeia passam pela figura quieta olhando o lenhoso ovo de espírito. Sabem que nele irá nascer um deus. Diferente dos ovos dos quais saem animais, sozinhos e viventes, desses ovos o parto requer ajuda profissional, posto que deles saem apenas coisas mortas, inertes. Os espíritos animam-se apenas nas ideias das gentes.

Uma faísca interior convida uma divindade. Em desatenção se pode imaginar que algo de fora do mundo ocasiona tal inspiração. Mas a cuidada observação verifica que assim não é. Fosse, e cresceriam por todo o lado os ícones de todos os santos, todos os deuses, todos os demónios, quando na realidade só tendem a ganhar corpo aqueles que a quem as comunidades rogam comparência. Nunca chegou uma sereia atrasada a um ritual no deserto. Sabem disto os fazentes de ícones, que primeiro escutam as preces que ocupam o ar onde vivem, descobrindo nelas as ansiedades que se lhes dirigem e as imaterialidades que devem incorporar. São isso as preces, sinais de fumo nos quais se pode ler o nome do suplicante e do suplicado.

Descoberta a audiência e o preferido programa, resta ao paciente artista congeminar as sombras que a sua produção deve lançar. Pondera quanto dela deve ser humana, quanto deve ser animal. Que feições deverão ser enormizadas para bem ajudar as gentes a lembrar onde reside o maior poder do poderoso não-ser. O que se deve diminuir ou apagar para que se não caia no erro de os pensar verdadeiros, reais, objetivos, existentes para lá dos movimentos da fé. Quais geometrias devem ser mantidas puras para conservar a sua essência inventada e quais devem ser vagarosamente talhadas dando lugar a formas que sugerem naturalidade.

Começa então o descasque, e termina apenas quando uma figura errante olha o trabalho do escultor e se deixa invadir pelo terror de ver um deus ser mutilado por mãos humanas. Está assim concluído o trabalho, quando a sua imagem faz acreditação, o espírito e a coisa são inseparáveis. A pequena divindade habita agora esse lugar, proibida de continuar a vagar o éter que fora seu lar. 

Há prisões que libertam. Convém serem desse tipo os ícones de fé. Despidos da função libertária, convertem-se nas donzelas ferrosas para o interior das quais os deuses vão para morrer. Mas enquanto forem chaves para a liberação não só servem como poleiro aos espíritos, permitindo-lhes esse simpático repouso de quando em vez, descansando o que quer que a sua anatomia tenha que possa cansar, como também fazem as vezes de banho termal para os crentes, deixando que um simples toque, como um pézinho a testar a temperatura da água, liberte da atenção toda a carne e deixando-lhe apenas sensação.

Coisa poderosa são os ícones. Um toque, um olhar, um beijo, e de repente a mente esquece a sua solidão, sentem as gentes estar na companhia de algo que não há, satisfeitas como os fumadores que enganam a fome enchendo a barriga de ar, felizes como os compradores que pagam com desconto, amealhando um custo que existe apenas na sugestão. Tem poder sem querer. Todo o querer é sugestão, ideia, imaginação. Daí ser tão interpretado. Haver nele tanta discordância. «Significa isto» ou «quis dizer aquilo». Muita confusão vem da imaginação do que o ícone quer quando todo esse querer é ilusão. O poder é real. Tão real como as palavras. «Cadeira». «Lápis». «Ornitorrinco». «Filipa». Nasce falso mas incorpora, tornando-se assim coisa material.

Aquelas duas mãos calejavam de aprisionar. Quantos arcos do sol teriam elas passado a contorcer madeiras, a roer os seus excessos, vergar as suas fibras, partir as suas integridades, decepar as suas membranas, roubar tudo menos um pedaço do seu osso, para nesse miserável resto de ser, poder viver um deus. Assim faziam as esculpidoras, as patas frontais dessa toupeira que escava túneis que ligam corações.

Senta-se toda a comunidade de volta do sacerdote a orar. E num canto abandonado de fé fica quem esculpe a totemizar âncoras para os espíritos. Escava um olho, uma mão, uma asa aberta, uma cauda comprida, dois cornos salientes, um umbigo protuberante. Tudo escava à procura desse ponto de encontro. Arqueólogo que busca vestígios do que nunca houve.

Faz como a ferrovia, o fazente de ícones. Sem si não pode haver aquele movimento. Mas é movimento que lhe recusa a participação. Impedido de conhecer a divindade dentro da casca que trabalha, é negada ao mais vital membro da congregação o sentimento de piedade e maravilha que a todos os outros encanta. Essa magia que nasce das suas mãos é-lhe roubada pela sabedoria de ser progenitor desses santos. Conhece a sua geração não podendo imaginar que tenham existido antes de si. É privilégio dos outros imaginar que as hostes de espectros foram cuspidas pelo cosmo. O escavador sente nos calos a sua parição.

Poderá que o sacerdote não creia as suas palavras, as suas canções. Mas talvez se deixe, como aos seus congregantes, embalar por tais transes. Talvez tenha um dia por outro uma crise de fé, obrigando-se a ritualizar sem convicção, performando a piedade sem emoção. Mas na sua sinceridade poderá sempre reencontrar a crença. O sacerdócio é veículo, canal. Torna presente o que é fora do tempo, dialogando vivamente.

Tudo isso se recusa ao fazedor de ícones. Abandonado na sua oficina, é obrigado a descobrir-se divino nas escolhas que faz, nas opções que toma. Aos que creem parecerá que a sua produção tem formas inevitáveis. Que as mãos encontram nos materiais os volumes da espiritualidade, apenas descarnando o excedente que os aprisiona. Podem assim pensar por lhes parecer haver nessas imagens tanta tradição, tanta semelhança. Aos não crentes pode também parecer que algumas formas são ingénuas, infantis, depictações condicionadas por ausência de competência. Tomara que fosse, e o escultor poderia sentar-se com a sua congregação. Ao invés essa pertença escapa-lhe por saber que todas as formas são deliberadas, estudadas e recortadas para melhor potenciar o encontro dos outros com o divino. Para cada diferente espírito um diferente anzol. A tridimensionalidade resultante surge sempre como óbvia ao congregante mas é sempre invenção nas mãos do seu gestante.

Assim fica na sua heresia, pensando no que faz, para quem o faz, e em função disso escolhendo, sendo livre na contemplação de toda a opção. É triste tragédia que esse, cujas mãos parem crenças, seja privado do verdadeiro espiritualismo. É bonita comédia que isso o torne mágico. Não mágico verdadeiro, de feitiços-fetiches, transmutações, abracadabrices. Essa é vocação do palrante sacerdote. É mágico falso, dos que sobem no palco e usam o engodo e a desatenção para elevar o espírito de quem está à sua volta. Bem sabemos que são poucos. As pessoas tendem a preferir os verdadeiros. Sabe-lhes melhor estar com quem alerta quando é hora de aplaudir, libertando-as do ónus de se preocupar. Assim vão proliferando os que conduzem rituais e engrossam a voz para dizer verdades, e mirram os que no escuro sujam as mãos para animar vontades. Oxalá nunca deixem de haver esses fazedores de sonhos de mágicas enganosas. São suas as mentiras mais bondosas que no mundo há.

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