Liberdade
O vento entrava apenas quando alguém abria uma janela. Antigamente era mais para alguém fumar um cigarro minimizando o incómodo. Por esses dias costumava ser por alguém se sentir enjoado ou porque um conjunto de traquinas mais jovens se desatava a peidar ao despique. Os bancos estavam gastos, e o pó tapava as pequeninas fendas que o tempo ia abrindo nos encaixes. Cada vez que passavam por uma estrada esburacada era a folia total, uma pequena diversão. Era assim todas as manhãs. A malta juntava-se, entrava nela até ela transbordar de gente, e ela seguia cheia de vida, cheia de conversas, cheia de cantigas, a carrinha chamada Liberdade.
A malta sempre variava, não havia clientela fixa. Também o motorista se revezava, não sendo de ninguém o dever de a guiar. Era direito de todos, e quando algum acordava com essa disposição, rápido corria para ela sabendo que se fosse o primeiro a chegar teria a honra de decidir as paragens desse dia. Não que o pudesse fazer sem precaução. Em toda a carrinha bem apinhada vive escondida a ameaça de motim. Mas como numa cerveja com pouca espuma, a insurreição era mais aroma que paira no ar que onda a ganhar balanço para a rebentação. Ademais a viagem era para a maioria da malta o verdadeiro prazer. O destino era interesse apenas dos que queriam conduzir. E assim ia toda aquela gente passeando, botando no depósito o combustível suficiente para ela continuar a galgar estrada, empurrando-a esta ou aquela vez porque a vaquinha não deu para mais, fazendo as descidas em ponto morto para poupar.
Diria um cínico ser isso uma piada de mau gosto, chamar Liberdade a uma coisa de quem todo o mundo é dono. Na verdade ninguém o era. Se fora, já há muito lhe perdera a propriedade. Publicara-se por usocapião. Não se sabia bem de onde proviera, mas contava-se que em certa altura a tomaram os militares. A específica razão já se perdera da memória, pelo que em vez dela se contavam ficções variadas sobre ela ter sido feita na França num tempo em que se cortavam cabeças à guilhotina, ou sobre ter sido colocada durante muitos anos num depósito escuro e bafiento por um maldisposto qualquer que só gostava de futebol, religião e música tristonha. Fosse qual fosse a conversa fiada, a certa altura ia sempre parar ao militares. Constava que a tinham dado uma lavadela a trouxe-mouxe e botado solda numas partes que andavam desconchavadas. Depois tinham-na deixado nas mãos de uns tipos da raça ideológica, porque acharam que uma peça naquele estado merecia qualquer coisa do género de um manifesto. Foi isso que então fizeram esses tais tipos. Juntaram-se, fumaram muitos cigarros e beberam muita cerveja, e ao fim de uns dias inspirados lá inventaram uma coisa ao género dos mandamentos do outro rapaz do monte, embora tenham sido muito mais honestos que ele uma vez que nunca fizeram de conta que as suas alucinações embebedadas lhes tinham caído no colo, enviadas por um fantasma qualquer.
Muita gente passou a fazer dela caravana, e diz-se que, nos primeiros tempos disto, havia grande esperança que viria a ser melhor. Uns quantos chegaram mesmo a chamar engenheiros, pedindo-lhes que dessem uma olhadela, perguntando o que se podia fazer, se se podiam instalar mais uns acentos, se dava para trocar por um motor mais potente. E muito melhorou ela, dizem os mais velhos que ainda se lembram que no princípio ela tinha ainda um leve cheiro a medo. Ficara acumulado nos estofos do tempo todo que passara fechada à chave na cave do outro. E mudaram-se os estofos para com eles sair o bafo. Trocaram-se os filtros, meteu-se nova embraiagem. Até a panela brilhava.
Mas o crescimento é coisa de crianças, e a partir de uma certa idade reduz em velocidade. Volta e meia já ia parar ao mecânico, esse doutor de máquinas engripadas. Nada de grave, ainda. Ele lá lhe fazia umas massagens, dava uma banhoca aos interiores, e voltava ela para os caminhos de cabra, onde se entupia de gente que só queria era ir passear. De qualquer modo decidiu-se jogar pelo seguro e mudar de combustível. Qualquer coisita melhor, mais fina. Depurada. Idealmente que viesse lá de fora. Era sempre melhor o que vinha lá de fora. Então passou-se para essa gasosa que vinha lá da Europa. Upa, upa! Tanta lomba que ela galgou com essa bebida energética que parecia não parar de correr. A malta toda adorou. Até aqueles que lhe torciam o nariz porque ela lhes cheirava mal apreciavam as voltas que com ela podiam dar. E os outros não faziam caso do desdém. Afinal, só um tolo acha que a gasolina cheira bem.
Segundo consta, foi uns tempos depois disso que começaram a aparecer os problemas. Era coisa já de maior seriedade. As idas ao mecânico já deixavam calote, e os engenheiros que a vinham apreciar já não se agachavam com as mãos assentes nas pernas e os futuros no olhar. Agora ficavam de pé, os braços cruzados, o sobrolho franzido, como quem diz não haver grande coisa a fazer. Nas passeatas ainda havia cantoria, mas as conversas cada vez soavam mais a discussões. O ar condicionado não funcionava e cada peido servia como um atentado a um arquiduque austríaco. Mas continuava a encher, nem que fosse por obrigação ou por falta de outra coisa com que preencher os dias. E apesar de tudo não parecia haver falta de motorista. Sempre aparecia quem tinha alguma ideia sobre onde ir naquele dia.
Agora tem dias que parece meio vazia. Cada vez mais gente prefere ficar a torrar na praia que ir dar um passeio com ela. Ou ficar em casa com a janela aberta para torrar ao sol em vez de ir nela arejar. Ou ficar parado na praça. A torrar também. Ficar. Estranho é que aparecem aqui e ali uns destes que querem ser dela motoristas. Não para nela irem a algum lado, mas apenas para poderem decidir que ela fique onde eles estão. Pobre Liberdade. Se algum deles conseguir acordar a horas, ficará novamente com os pneus inertes no solo, como ficou todos aqueles anos de solidão.
É meteorologia desalegre, quando tanto cresce por ela a indiferença. Quando tão pouca gente nela embarca, e tantos se recusam a entrar porque preferem estar sós a estarem mal-acompanhados. Esqueceram, talvez, que a qualidade da companhia se faz com ela estando. Ou quando lhe têm o ódio ambiental. Vendo nela a corrupção da vida que se deixa atrás pelo combustível que se vai queimando. Preferem lamentá-la que a adaptar a trabalhar com energias mais limpas.
Uma pena tanta malta com tanta vontade ser incapaz de sonhar esta desmazelada caravana como sonharam um dia aqueles militares e ideólogos quando tinham à sua frente não mais que uma carcomida caixa de metal. Uma pena que quando a olhem digam apenas «Já está gasta!» como se a declaração justificasse a sua abstenção. Está gasta, pois. Com quarenta e oito anos a passear gente só podemos esperar que esteja. O que lhe vale é ser como a energia solar. É recurso renovável, e só não nos aquece as casas se acharmos que não vale a pena continuar por ela a passear. Cada um de nós, e por cada um outro amigo também.