O empreiteiro

O velho empreiteiro já não sabia o que fazer. Estava gasto. Gasto nas mãos. Gasto nos pêlos. Gasto sobretudo das ideias. Onde não se gastara era no entendimento. Mantinha firme a convicção no serviço bem feito, no cliente satisfeito. Por isso mesmo tentava sempre humanizar os seus contratos. Conhecer as pessoas com quem lidava. Partilhar com eles dois dedos de conversa. Perceber como imaginavam habitar o lar que ele obrava. Mas isso era cada vez mais difícil.

Já passavam os dias em que o contactavam pessoas com a sua simplicidade. Famílias que lhe contavam ficções palpáveis. Um menino a brincar naquele canto, uma rapariga a estudar à secretária iluminada pelo sol da tarde. Este quarto mais luminoso, com cores alvas. Aquele mais aconchegador, com pastéis. Uma cozinha com cheiro de bolo de maçã aos sábados à tarde. Pessoas simples. Mas esses cada vez menos tinham bolso para o acomodar.

Agora eram sobretudo os empossados que o chamavam. Gente de outra casta. Doutoras e empresários que falavam em estilos de vida. Que queriam minimalismo. Ou preferiam uma moda alternativa. Interessados por uma ambiência rural chique. Gente abstrata. Que o queriam a ele, ele mesmo. Não uma empresa de arquitetos, ou um ateliê de interiores. Queriam o velho empreiteiro porque ele era mais genuíno, mas verdadeiro, e eram o tipo de gente que gostava de comprar genuinidade. Até por sair mais barata.

O velho empreiteiro ia coçando a cabeça enquanto os ouvia. Nem sempre era fácil. Aliás, os futuros próximos avizinhavam sempre maior confusão. E a cabeça cada vez mais comichava. As conversas já não o serviam. Pouco do que diziam ele entendia. E os truques que descobrira ao longo da vida eram desprezados. Um deles era o pequeno catálogo de cores que trazia quando os conhecia. Sempre lhe servira muito bem. Os clientes falavam a imaginar e ele ia colorindo a imaginação. Pegava no catálogo, abria o folho e apontava um pequeno quadradinho. Então dizia:

– Que tal esta? Ficaria muito bem no quarto da menina.

E os clientes cabeçavam que sim. E ele apontava referência no seu caderninho. Ou então diziam que não, e ele fazia um pouco mais de conversa, tentando descobrir melhor opção. Nos casos mais difíceis só acertava à quarta vez. Mas em geral vingava à primeira. Tinha sido um dom valoroso.

Com os novos, a cartilha não dava mais. Quando mostrava, não queriam saber. Afinal, uma parede não é um papel, como poderiam acordar o tom de um espaço em função de uma quadrícula? Também as cores que pretendiam eram cada vez menos tradicionais. Desejavam cores que a modéstia de outros tempos teria recusado. Casas de banho escuras como num bar suspeito. Salas de cores vivas como se a festa fosse mobília. E tudo sempre na abstração. Exigiam que ele os compreendesse quando eles não se compreendiam a si mesmos. Que traduzisse os seus anseios teóricos em realidades que pudessem vivenciar. Trazendo sempre no relógio ansioso uma dose de insatisfação.

O velho agora procurava ilustrar-se. Fora bibliotecar para aprender mais sobre a sua função. O brio a isso obrigava. Entendia que tudo no mundo muda. E que apenas podemos com ele mudar. Ou viver tristemente naufragados num tempo que ninguém mais vê. Conhecia bem quem era assim. Não haviam sinais de fumo que os poupassem.

Era o terceiro livro que devolvia à estante. Talvez procurasse no sítio errado. Talvez que os livros fossem velhos como ele. Desprovidos de digitalidade. Da viva inquietude dos conteúdos comentáveis e votáveis. Talvez sem isso escapassem as novas ideias. Precisavam de virtualidade para escorregar fora, como as gotas de água se esguiam pelos dedos das mãos, fugindo para os ralos dos lavatórios sem deixar rasto de si, abandonando apenas alguns órfãos molhados.

Agora queria instruir-se nos tons sanguíneos. Notava entre os novos clientes exigências que não compreendia. As voltas que dava à cabeça permitiam-lhe distinguir duas escolas. Um par de filosofias. Convicções em espelho. Mas não podia certezar. Tudo era muito novo, e ele muito velho. A certeza vivia com cada geração. Os que a antecipavam ou se atrasavam condenavam-se à confusão. Era sempre assim. Houvera um tempo em que a certeza fora da sua geração. Os mais velhos encolhiam-se em ultraje. Os mais novos questionavam em estupefação. Eventualmente cresceram e impuseram as suas certezas ao mundo, como a sua geração o tinha feito. Era sempre assim. Sabê-lo pouco ajudava.

Duas questões o assolavam. A primeira descobrira-a na opinião inquebrantável de alguns clientes, sobre a fundamental diferença entre o vermelho e o encarnado. Nunca antes conhecera este divórcio. No grosso bolo dos seus anos, encarnado e vermelho tinham sido inseparáveis. Duas caras da mesma moeda. Ou duas coroas. Uma coisa e ela mesma. A mesma palavra em dois sotaques. Nome e alcunha sem saber qual era qual.

Agora, parecia, já não era assim. Asseguravam-lhe até que nunca o fora. Que a confusão nascera da mesquinha vontade de pôr no seu lugar os encarnados. Fazer de conta que não existiam. Ensurdecer a sua voz. Garantiam que as diferenças estavam lá. Que eram bastante óbvias. Só não as via quem não as queria ver. Não era o caso do velho. Queria vê-las. Esforçava-se bastante até. Mas sem vitória. Seria cansaço? Burrice, talvez. Mas não lhe era fácil. Para os jovens sim, era simples. E também alguns mais velhos. Olhavam e diziam:

– Realmente, lá está! Que parvoíce termos andado este tempo todo a falar das duas como se fossem a mesma coisa.

O velho ainda não descobrira a diferença. No mês anterior, pintara as fachadas de três casas com uma das cores, e de uma quarta com a outra. Apesar da experiência, continuava sem perceber a diferença. Desconcertezado, dissera uma vez à cliente:

– Mas até uso do mesmo balde...

A mulher fizera um sorriso dos que carregam pena. Não criticou o velho. Ainda tentou explicar. Que o vermelho era coisa física, natural. O tipo de coisa que se mede em laboratório. Tem comprimento de onda e coisas dessas. O encarnado vivia na alma. Era cor para acalentar corações de claque. Cor para acabrunhar touro. Mas a ignorância tinha raízes fortes no velho. E os olhos já não eram jovens. Via a mesma coisa em coisas diferentes. O importante era não desistir de aprender.

Descobrira o sentimento da palavra perplexo com a outra dúvida que parira. Engravidara dela ao ser penetrado pela doutrina de alguns fregueses, sobre a estrutural hegemonia do vermelho. De princípio pensou tratar-se de coisa comunista, mas depois percebeu que não. Por largos anos havia sabido de vermelhos, roxos, laranjas, carmins, rosas. Uma altura até aprendera o fúchsia, que de facto tinha qualquer coisa de muito próprio. Eram todas parentes. Famílias da mesma tribo. Feitas dos mesmos átomos mas com eletricidade diferente. Cartas do mesmo naipe.

Sem dúvida parecia estar errado. Juravam-lhe que tudo era vermelho, e o resto era conversa. Que a diferença mais não era que apologia. Desculpa barata para isentar o vermelho da sua responsabilidade. História da carochinha para tornar alguns vermelhos mais palatáveis. Aceitáveis entre gente bem formada. Desculpando a sede de sangue que todos encerravam. Quando todas se deviam meter no mesmo saco. Era tão claro que só a má índole justificava tal distinção. O velho perguntava-se se tinha má índole. Podia dar-se o caso. Mas preferia não ter. Mesmo assim tudo lhe era demasiado difícil. Apenas para os jovens parecia claro. E também para alguns da sua criação. Assim se ouviam:

– No fundo já se sabia isto. Mas na altura também nos endrominaram a pensar que isto não era tudo igual.

O empreiteiro não conseguia ver uma só cor. Todas lhe pareciam diferentes. Agora pintava um quarto de rosa. Vermelho. Mas parecia-lhe rosa. Mesmo a outra casa, onde pintara uma parede de laranja era vermelho. Tudo vermelho. Seriam os olhos a pregar-lhe partidas? Confidenciara ao jovem psicólogo:

– Tinha na garagem os três baldes e juro que me pareciam todos diferentes...

O terapeuta não o censurara. Era seu ofício compreender. Inclusive, ensaiou uma explanação. Que se a cor tinha calor era vermelha. Sabia-se pelos efeitos que produzia no ser humano. Era vermelho se fazia sentir vida e lembrava verão. Quando incitava algum tipo de paixão. Capaz de colorir lábios e tingir o céu do início e do fim do dia. O velho tinha demasiado cartesianismo em si para compreender. E o entendimento era lento de filosofar. Via coisas diferentes na mesma coisa. Convinha era não desalentar a educação.

O velho esgotava o último livro da biblioteca. Na mente, os exercícios continuavam por resolver. Tentaria novamente na próxima folga. Talvez sucedesse. Talvez não. De qualquer forma podia nem importar. Afinal, também estes fariam as suas proles. E ao fim de uns anos estas deixariam de questionar o mundo e imporiam as suas crenças nele. Sempre fora assim. As grandes certezas não sobrevivem muitas gerações.

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