Boa vontade

"Olhai boa gente, olhai para este delicado lenço que me tapa o rosto. Olhai para ele e vede a minha pureza, a minha nobre castidade, a alvura da minha sensível alma. Olhai também para estas limadas unhas que tenho, tão formosamente suaves as suas arestas que as podeis usar para afagar a pele do recém-nascido mais macio. Reparai no ícone que trago comigo, este luxurioso símbolo de virtude que atesta na sua inação a minha franca e inocente formosura mental. Folgo em poder aqui estar, em vos poder agraciar com as minhas doces palavras, no poder partilhar convosco a ternura da minha vontade, a beleza do meu caráter.

Acalento o meu coração por me saber também entre vós e os vossos pristinos chapéus, que demonstram a vossa simples modéstia, o vossa observância pela castidade. Enriqueço na vossa nobre presença, congratulando os vossos sapatos bem engraxados, livres de impurezas e dejetos, límpidos como uma água beatificante. E nos símbolos que trazeis, irmãos em espírito do meu ícone, encontro o espaço que foi negado ao primeiro casal, esse lugar de prazeres inocentes e verdadeira comunhão. As vossas vozes com a minha coram num cântico que a todos nos eleva.”

 

Ouvia tudo isto uma parva barata. Procurava algum lixo para se satisfazer, mas tornava-se difícil encontrar algum no meio daquela merda toda cintilante. Via dessas coisas quase todos os dias. Gente que sofria da doença do Narciso e que, incapaz de saber quem é, se apaixonava pela face imbecil que via no espelho. A barata poderia ter alguma pena desta gente idiota não fosse ela uma barata. Mas em o sendo, ficava um pouco difícil, já que se tratava de uma reunião da Liga Protetora das Baratas, um grémio de humanos com falta de bom senso e muito amor próprio que achava que era melhor que todos os outros da sua nação, e que em vez de considerar que esse instinto se devia à sua parvoíce julgava resultar tal sentimento de uma especial virtude nascida da denúncia de maus tratos às baratas e da pronúncia pela melhoria dos níveis de vida das mesmas.

O facto é que nem todos desses anormais tinham baratas em casa, se as tinham era apenas por um acaso do qual se julgavam estrategas, e sempre num modelo de coabitação em nada dissemelhante ao que experimentavam os humanos que tinham baratas em casa sem deixar de as odiar. O resultado era que as baratas que viviam em casas hostis sofriam a ansiedade de ter que correr em ziguezague para não morrer, alimentando-se parcamente e sempre do mais miserável nojo que encontravam perdido debaixo dos frigoríficos, atrás dos fogões ou nos caixotes de lixo, enquanto as que habitavam nas casas desta patética gentalha que soava como se fosse sua aliada, sofriam a afronta de ter que correr em ziguezague para não se irritar, alimentando-se parcamente e sempre do mais miserável nojo que encontravam perdido debaixo dos frigoríficos, atrás dos fogões ou nos caixotes de lixo. Enfim, não deixavam de ser baratas, e o tipo de humanos nas suas cercanias pouco podia fazer para alterar isso. Para além de que os humanos não deixavam de o ser, e o tipo de ideias nas suas cabecinhas pouco podia fazer para alterar isso.

Assim corria a mortandade de baratas, virtualmente idêntica em todas as circunstâncias, embora as fatalidades ocorressem por natureza diversa. Nos domicílios antagónicos definhavam por assassínio, enquanto nos que se apresentavam como seguros tendiam a ultimar por negligência. Isto preocupava imenso os membros da sua espécie, para quem a vida desagradável e a morte prematura eram motivo de real preocupação, mas parecia afetar muito pouco os humanos, uns por considerarem ser próprio e honroso exterminar essa inocente espécie, os outros por estarem demasiado ocupados a darem palmadas nas costas uns dos outros para notarem que as solas dos sapatos não contavam menor número de carapaças esmagadas que as dos outros que tinham por pérfidos.

Certo dia uma barata na sua infeliz adolescência decidiu-se a desafiar essa gente toda. Dizia assim:

– Está na hora de acabar com esta merda toda! Uns são abertamente hostis, e os outros são uns fala-baratos que não só não ajudam como ainda empatam!

– Tem calma, ‘canina! – dizia uma barata mais velha – Não levantes ondas que não vale a pena.

– Mas não vês isto, velhadas? Não vês que esta gente que podia estar a ajudar-nos nos mata como os outros?

– Calma muleca – continuava a anciã – porque pensas tu que nos poderiam ajudar?

– Então não ouves o que eles dizem? Que são bonzinhos e nos respeitam? Mas depois pisam uma gaja na mesma, pá!

– Então dizem uma coisa e fazem outra?

– É isso – confirmou a baratinha.

– Parecem viver numa contradição.

– Acho que sim, daí ser importante apelar aos seus sentidos. Para serem mais aliados.

– E que ganham eles com isso?

– Mas então, se eles dizem que são os seus valores...

– E haverá custo para os viverem?

– Bem, há sempre um custo para mudar a forma como se faz....

– E ganham alguma coisa sem o fazer?

– Quase nada… talvez prestígio?

– E que custo têm para o ganhar?

Mas a baratinha já tinha perdido a paciência com a conversa. Acreditava nos humanos bonzinhos. Sentia muita bondade dentro deles. Não se ia deixar desesperar e ficar como aquelas baratas velhas e murchas que são cínicas com o mundo todo por terem passado demasiados meses a comer merda húmida, começando a imaginar conspirações em todo o lado. Ia acreditar que os humanos bonzinhos eram como a mulher de César, que só se preocupou em parecê-lo depois de o ser. Que não era gente para aumentar reputação e notoriedade à custa da miséria da sua espécie sem na realidade ter qualquer desejo de se empenhar na boa vida das pequenas criaturas. Estava a pensar nisso quando um sapatinho virtuoso, sem querer, a esborrachou.

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