Mimosa
Mimosa crescera pastando as ervas secas e pobres do planalto. Gozava de amplos campos pobres em pasto, e de boas companhias com quem partilhava a míngua. Lá de cima tinha uma incrível vista sobre a paisagem, tão bela que um viajante com pendor estético decerto sobre elas verteria boas aguarelas. Mas como acontece de forma regular com quem vive certa paisagem, não perdia Mimosa muito tempo a deixar que tais visões lhe aliviassem o peso do dia a dia. Como as suas comadres, absorvia-se no árduo trabalho de absorver a pouca nutrição que aquela palha lhe votava.
Certa vez que ruminava o seu repasto, comentou
a sua frustração com as vizinhas. Tanto tinham que mastigar que os seus
robustos dentes rápido se gastavam, enquanto a barriga permanecia murcha de
fome. A boca rangia coberta por uma calçada gasta, enquanto as paredes do
estômago se colavam entre si, por horror ao seu vazio. As outras concordaram, e
presto se puseram a sonhar com melhores dias.
Tempos mais tarde, surgiu no planalto um homem
aprumado, reto e fiel a valores antigos, que quis comprar a vacaria. Tinha para
ela sonhos de modernidade e progresso, que fariam benefícios que não podia
calcular. O seu dono não queria desfazer-se da anciana relação, não reconhecia
o homem que se imprimia no seu cartão de identidade, pois o espelho lhe
mostrava sempre um vaqueiro, nunca um cidadão. Mas as vacas não mais podiam com
ele. Avacalharam quanto puderam para correr com ele, fazendo que a cada hora
este mais estimasse o envelope ofertado e menos a sua história.
O novo dono começou por lhes dar bastante
ração, e a isto as vacas ficaram muito agradecidas. Tivemos sorte, dizia a
Mimosa, Temos agora os ventres cheios. Enquanto os bovinos aprendiam a
desprezar os seus antigos repastos, crentes nas promessas da científica
refeição, o empresário construiu um barracão para as resguardar da chuva e do
frio, e a isto as vacas se encheram de ternura. Um belo conforto, confirmava a
Mimosa, Podemos agora sonhar sem receio dos lobos. E à medida que o gado se
habituava a despir a ansiedade, o amo trouxe mais barracões, trazendo com estes
mais vacaria. As vacas suspiraram porque teriam menos espaço para si, mas
ficaram alegres quando souberam que estas vacas estavam em pastos fracos como
os seus. Sejam bem-vindas, recebia a Mimosa, Há fartura que chegue para todas
que a mereçam. O benemérito de todas oferecia-lhes vidas condignas.
Apenas três entre as vacas suspeitavam do novo
proprietário. Conversavam que aqueles preparos lhes lembravam os tempos em que
a liberdade era coisa vedada, e o leite e filhos coisas roubadas. Como poderia
ser, perguntava Mimosa, Se este amo nos enche os quatro estômagos e nos poupa
das geadas?
Pouco depois, o novo senhor trazia grandes
bois para um barracão, e usando puyas foi levando as vacas em grupos de seis
para debaixo desse telhado. Enquanto isto acontecia, prendia as restantes vacas
dentro dos armazéns, de onde só saiam para o que proviesse ao mestre. Em poucos
meses as vacas tornavam a esses dias escuros onde eram apenas escravas de um
senhor que lhes roubava a vida pouco a pouco, até ao dia em que a roubava de
uma vez só. Mimosa foi muito infeliz nesses anos em que perdeu quatro filhos, vários
litros de leite, e toda a liberdade.
Agora todas as vacas se queixavam das suas
agruras, e nenhuma tinha a satisfação de ter avisado as outras de antemão. O
seu sofrer era partilhado, como era partilhada a sua vontade de uma existência
melhor. Foi então que a vizinha da Mimosa disse, Tão bem seria volver uns anos
atrás, quando éramos livres neste planalto e roíamos a sua erva. Mimosa
concordou, e concordaram tantas outras, mas nem todas. Para muitas, os anos de
prisão ainda não tinham apagado a memória da fome. Fiquemos como estamos
amigas, dizia uma delas, Sempre a vida nos foi cruel, mas esta crueza não nos
faz sonhar com bifes. Ao ouvir isto, muitas vacas concordaram, e muitas outras
fizeram zanga. Uma grande algazarra então sucedeu, e deixou todas elas ainda
piores, já que até então puderam pelo menos contar com a amizade umas das
outras, e esta agora evaporava.
Com efeito, o antigo dono retornou um dia.
Tivera saudades de ser vaqueiro, e decidira recuperar o seu antigo negócio.
Quando o viram, metade das vacas enlouqueceu e felicidade, e a outra metade
endoideceu de azedume. Mas o antigo dono não se preocupou. Aprendera a não se
importunar com as sandices das vacas.