Purga
Ermelinda passava mal há alguns dias, porque decidindo ser repasto do
ninguém guerreava com o que habitava dentro de si. Sabem os científicos não
haver forte psicologia capaz de elevar o órgão pensante à cabine de comando do
corpo, destronando a milionar orquestração que sobre ele impõe o intestino.
Ermelinda suava agora esse conhecer, desliquidando pela frente e por trás,
castigo do jardim sensorial que por desplante enfrentara. Apenas dois dias,
dissera o médico ao contar a partir da bula. Apenas dois dias, e mostrava a ela
dois dedinhos de uma mão separados dos outros, como se sinalizasse vitória.
Fora o suficiente para a convencer, já que tudo aquilo era tido por pouco
higiénico, o tipo de doença que afeta sobremaneira a figura pública. Dois dias.
Chovia a potes, tempestades de espírito. Ermelinda passeava para casa num
passeio sem cor. Vinha com o olho cheio de cinzento, a esperança noutro lado
qualquer, reclamando em protesto. Mas não ia desistir. Chegando a casa faria
como o doutor mandara. Por graças crescera assim, em lugar medicado. Por isso
não precisava esperança para querer vencer a doença. Habituara a melhorar por
ordem de médico. Era grande sorte, não deixar a decisão refém da emoção. Tão
mal estava que nem parou para um café. Fora vergonha. Vergonhara de alguém
saber. De olhar nela levando a xícara ao lábio e ver o movimento na pele
contorcida do nariz, descobrir o que viva nela. Dois dias.
A porta abriu quase que sozinha, ajudada apenas pela chave e uma gota de
vento. Deslizou de abrir fazendo queixume, como se cresse estar em audição para
atora de filminho de sustar. Os sapatos não quiseram entrar. Sempre dava
discussão entre eles e o aspirador. Ainda estavam chateados da última briga,
por isso eles agora ficavam para acá dessa linha que era deles. Ermelinda os
traiu e foi direta ao banheiro. Engoliu as cápsulas, deixando escorregar com
água sobre a língua, um pequenino toque em cima apenas para chatear a úvula.
Dois dias.
Ondina resistia.
A vida não fora fácil até aqui. Porquê imaginar que seria diferente a partir de
então? A separação da família fora precoce. Cedo se viu enrodilhada de outros
como ela, órfãos desalojados, abandonados. Alguns reclamavam justiça. Ondina
não reclamou justiça porque parecia que os que a reclamavam duravam menos tempo
que os outros. Findavam atempadamente. Sucesso pareciam ter os outros, que se
resignavam e faziam o possível numa situação indesejada. E ela copiava. No
princípio multidavam, imensidão de seres sozinhos, enfrentando o mundo cada um
de sua forma. A mortandade e a fome faziam neles união.
Descobrira depois
o alimento. Carne. Proteína. Saltou nele sem ponderar. Sem refletir. Sem
considerar. Foi nessa altura trabalhar com carnes, trabalho árduo e
desagradável, o que deixa as mãos sujas de inocência e a alma suja de crime.
Mas era trabalho e no mundo que conhecera apenas se dava valor a quem
trabalhava. Ou a quem não trabalhava por não precisar. Quem não trabalhava
precisando era gente-tapete, boa só mesmo para pisar. Só depois de encher muito
a boca de comer reparou que poucos tinham descoberto o mesmo ofício. Na
precipitação tinha esquecido a solidariedade. Tanto melhor, pois os solidários
passavam mais fome, menos fartura. E a fartura sabia-lhe melhor.
Um dia mudou. Fez
transferência para o processamento alimentar. Nem deu grande consciência disso.
A oportunidade surgiu e ela pegou. Talvez fosse melhor, desse mais-valia, fosse
menor em cansaço, quebrasse menos o espírito. Não ocorreu. O ambiente era mais
desagradável. Sentia mais no ar a repulsa e reprovação que a sociedade tinha
pela sua casta. O trabalho era pouco diferente, embora o patronato fosse
convencido que vivia em realidade diferente, que operava no ramo da
gastronomia, não da criação. Para ela fazia o mesmo. Os da sua laia faziam
concórdia. A paga custava mais ainda a sair. Sentia sempre rilhar algum
intestino, chafurdando que nem louca para poder ter um comer sóinho que fosse.
Apesar de tudo
era trabalho. Apesar de tudo era melhor que viver na rua, como fora daquela vez
quando ainda era tão frágil e isolada. Agora a solidão estava revestida de
força e sobrevivência. Ondina resistia.
Ermelinda suspirava. Comichava
um pouco menos. Mas um pouco ainda. Fazia grande esforço para pensar só no si.
Era a maneira única de fazer ser boa gente. Descobrira no estudo da economia.
Que todo o mundo explora alguém em algum momento. Que não dá para ser boa gente
pensando no mundo. Por isso espelhava-se. Concentrava no si, para fazer de
mocinha na sua história. Melhor que ser bandida na história de um alguém. Então
levava o dedo lá, onde fazia irritação. Onde melgava por dentro, em picada em
vez de zumbido. Levava o dedo lá e arrastava a ponta da unha como podia. Dois
dias.
Procurava na consola algum
entretenimento. Algo para ajudar a passar o tempo até o fármaco fazer a sua
mutilação, eliminar o que vivia nela fazendo assombro por subsistir do resto
dela. Coisa impensável, que alguém assim pense ter direito ao que pertence a
outro, deitando-se a corroer o que é alheio como se no roubo vivesse justiça. Evitava
pensar nisso. Daí procurar na consola. Tinha livro, mas não era melhor na
consolação. Só uma novelinha, um seriado qualquer. Fez programa do
escolhimento. Ali ficou, mais de hora, vendo e escolhendo. Sem decisão. Era
assim mesmo, a escolha era o que tinha comprado, não o que dela nascia.
Entretanto notou menos comichar. Dois dias.
Agora 'tava
preto. Não ficava fácil, não. Por todo o lado surgiam sobremesas. Se parava de
olhar, quando regressava a atenção lá estava mais uma oferta. Por sorte
fizera-se desconfiada, senão teria trocado o labor pelo prazer, como sucediam os
outros. Olhava em volta. Fora sempre assim. Quando a sua gente sonha, morre.
Ela ficava sobrevivendo, porque quando não podia escolher seguia na frente, e
podendo optar decidia a pior opção. Os outros terminavam. Via eles abocanhar a
guloseima, lamber o beiço de feliz, depois tremer e dançar como se neles
entrasse espírito mau, caindo no chão de onde eram lavados pela maré que
limpava o chão da fábrica a cada cinco minutos. Ela sempre resistia. Fazia ódio
à parte dela que tinha gosto de doce, de gelado, de bolinho, de justiça, de
felicidade.
Ondina resistia.
Nem isso a salvou. Uma sobremesa surgiu assim, encantada, revelada, como um
espírito santo aparindo onde não esperam ele. Uma paragem de autocarro ou algo
assim. O petisco fez-se do nada sobre ela, no contacto. Ela não tocou a coisa.
Foi a coisa que tocou ela. Nem comeu. Não precisou. Mal deu toque ficou em
estátua. Não como bichinho da prata quando é apanhado a passear no chão lajeado
por uma luz acendida. Não. Como perna desnudada que salpicando o mar leva afago
de alforreca gentil. Toda Ondina parou. Não mais serpenteou. Quando veio nova
maré foi arrastada em consciência para onde ia tudo o resto. Foi na merda, ela.
O café estava bom. E não
impressionava que ninguém olhasse, todo o nariz era escultura. Ermelinda
passara pelo mal, e depois o descarregara. Ao sair, puxou a água e num rodopio
funerou toda a irritância. Coisa bonita esse remoinho de água, que ao desabar a
realidade de uns dá emoção de higiene a outros. O normal restabelecera, e em
tão pouco tempo. Louvado doutor. E só levou dois dias.