Terra Vista

– Espartanarque! Terra à vista meu compitão!

– Vixemarinha! Em chegando a terra lavas-me essa boca com sabão, marujo – respondeu o homem com a jiboia tatuada no rabo - Boa nova essa, mesmo assim. Já vinha a calhar poupar o estômago desta remação.

A companhia fazia já sete semanas em mar e muitos apreciavam a ideia de fugeminar dali para fora, porque entendiam ter sido enganados. Tinham apresentado currículo para ir piratar para alto mar, boas comissões dizia o anúncio, horas maleáveis e bom espírito de equipa. A comissão não era má e a rapaziada até se entendia. O problema vivia mesmo no logro do alto mar, figura que encantara muitos dos que nunca antes haviam navegado e que por isso mesmo obstinavam em comparar a experiência de bordo com o romantismo que anteciparam na imaginação. Frustravam-se, portanto, porque o mar era alto apenas por poucos instantes, e enervavam-se, também, porque ao mar alto se intercalava um mar mais baixo, numa espécie de permanentes convulsões brincalhonas que tanto convidavam os estômagos para a paródia às horas das refeições que nenhum pôde encher o bucho durante todo esse tempo sem imediatamente por a comida na rua por mau comportamento.

A terra que se via prometia a tranquilidade de pelo menos algumas refeições, e a esperança de uma fuga safada. Talvez não. Parecia ser apenas uma daquelas ilhotas desertas onde costumam haver ninguéns ou raramente ter apenas um desgrenhado que se entretém a usar garrafas vazias como caixas de correio ou em ainda menor ocasião grupos de crianças fugidas da guerra que aprendem a inventar a violência e a opressão sozinhas. Mesmo assim não se deitava fora a oportunidade. Dormia-se uma noite em solo estável e talvez, com algum poder de embeiçamento, conseguissem convidar o capitão a fazer carreira de náufrago.

O primeiro barquinho saía do navio com quatro camandros. Ia aos devagarinhos porque o único remante já tinha os braços doridos e porque os outros precisavam de ir à coca por cautela. Acontecia muito naqueles tempos estarem os romances de mar pejados de tribos selvagens a espiar todas as pessoas que entravam nos seus domínios, e dava-se o caso que acabavam por atacar qualquer grupo assim que descobriam que se tratava de gente que sabia ler e escrever, dado não se tratarem de selvagens por nascimento e sim por convicção. O líder daquela cambada quis ter a honra de pisar a terra primeiro, e por ter sido ele a inaugurar-se no navio os outros fizeram-lhe a vontade. Cepliche, fez um pé a sair do bote e ceploche fez o outro. O pirata abanou as pernas um bocado e sentiu que a terra era da firmeza de um pudim de lama. 

– Ui!

– Que foi? – perguntou o imediato.

– Ponham as galochas, rapazes, 'tá molhadinho cá para baixo!

O imediato mirou com os olhos para os pés do chefe e achou que a imagem colorida convidava a agonia. O estômago concordou e levou alguns segundos para se conseguir recompor.

– Espartanarque! Faz pouca secura essa terra, né?

– Aljezur! Já disse que não quero más-criações dessas aqui! – respondeu o chefe enquanto se aprumava porque gostava de ter sempre bom aspeto, mesmo quando não tomava banho há que tempos – Semos piratas com decência, ora essa.

O marujo deu sete voltas da lama enquanto bafejava um cachimbo. Era um cachimbo de pirata, muito tosco e sujo e não daqueles bonitos de mogno que nem sequer são verdadeiramente cachimbos por serem magritados. Sentindo as botas bem cagadas, resolveu que teria ali um bom lugar para firmar a sua marca de corsário, ou seja, considerou ser sítio bom para dele se fazer um mapa. Fez sinal ao navio para mandar vir mais malta:

– Rasta-pata! Manda vir os topógrafos para dizerem aonde é que é.

No novo barquinho vinham dois homens com aspeto mais esquadrinhado. Um trazia um bloquinho e um ábaco, enquanto o outro vinha feliz com um nível e um tripé. Assim que enterraram as solas no lodo começaram a aprontar o equipamento. Era gente muito profissional, como se podia verificar por cada um trazer um fio de prumo no bolsinho direito. Depois de fazerem algumas medições, o que tinha o bloco foi capaz de compor uma bonita tabela, e imaginou logo que a podia copiar e pedir a um daqueles cartógrafos para fazer um bonito desenho a partir daquela numeração. Entretanto, o colega firmava quatro pontos com grandes toros. Enterrava-os à maneira dos topógrafos de então, que consistia em apontar para um sítio e dizer «Ali mesmo», para que um parvo qualquer segurasse sobre esse ponto um bocadão de madeira, esperando que o parceiro com a marreta não lhe acertasse nas unhas. Quando terminaram, o capitão satisfez-se.

– Co'esquerdo! Tu e tu – apontava os marcadores com um braço digital – peguem nessas pás e toca de cavar.

Os dois cavadores achavam pouca justiça naquilo tudo, mas tinham sido habituados pelas mães, pelos pais e pelas fomes, a comer e calar, fazendo apenas o que lhes mandavam sonhando em silêncio com vinganças pecaminosas. Cavavam há menos de quinze minutos quando o sol ardente lhes comia as peles das costas, fazendo ambos sentirem a pouca graça que deus lhes tinha dado fugir para se resguardar à sombra. Só o mais estúpido dos dois é que percebeu que isso fazia dele um desgraçado, o que lhe deu muito alento pois imaginou que a sua vida de privação fora abençoada até então. O outro preocupava-se em pensar em como tudo aquilo era inútil, e como tudo que é rico veste de pobre, para poupar da tarifa o cobre, e tudo o que é pobre faz que algo tem, só para parecer que é alguém, e que no fundo a vida era um balancé pelo que só lhe fazia bem cavar aquela lama.

Chapinhavam os dois em valas de lodo, as paredes a deslizarem para os fossos com a tenacidade do mel, quando os mosquitos começaram a incomodar. Todo o barulho que se fazia com as pás fizera-lhes irritação, sentimento que o mosquito raramente consome por ser a droga que mais vende, e por não ser bom comércio usar as drogas com que se altera o humor da clientela. Como paga pela sesta interrompida, decidiram os mosquitos fazer ali mesmo um lanche ajantarado, o que lhes correu muitíssimo bem, descobrindo ser o sangue humano bastante apetitoso.

O imediato chegava nessa altura, quando os cavadores se preocupavam mais em afugentar insetos que continuar a cavação, sendo já bastante visível a grande cruz aberta na ilhota de barro.

– Espartanarque, capitão! Duas grandes valas assim cruzadas?

– Atão mas não se vê já seu ordinário sem vergonha? É coisa muito própria de pirata ter em algum lado um tesouro enterrado.

– Mas capitão, não temos tesouro algum para fazer isso. Já foi todo funebrado.

– Ah! Meu analfabeto imbecil. Isto é aquilo que os bifes chamam de mesdireção!

Caro leitor, é absolutamente verídica toda esta narrativa, coisa que um céptico pode confirmar bastando para isso dirigir-se às câmaras mais bafientas da Torre do Tombo, edifício assim chamado por ser lugar onde muita gente se vê tropeçar. Tomaram-se aqui, claro, liberdades criativas, embora estas apenas se encontrem nas ordinarices professadas pelos marujos, uma vez que seria de mau tom reproduzir com fidelidade as que lhes saiam da boca. Afinal, vivendo nós no meio de tanta civilização, mais vale ter algum tento na língua, espartanarque!

Mensagens populares deste blogue

Liberdade

Mimosa

Boa vontade