Mariano
Acontecia sempre assim com Mariano, quando sentia o conforto da certitude pousar sobre o peito, vestiam máscaras de estranhação os que dele se abeiravam. O moço deparava-se com uma situação que muitos concordavam apenas em ser complicada, embora discordassem em tudo o resto. Para Mariano a obviedade era palpável, daí ter imediatamente reagido com um «Aha!» assim que a viu. Depois deu dois passos em frente que os amigos julgaram ser fruto da insanidade temporária que o compincha parecia gozar sem proveito.
Dizia-se que
sofria do mesmo mal que o avô. Suspeitava-se que fosse problema de genética, daqueles
que fazem como os jogadores de cobras e escadotes, saltando por vezes uma
geração para assim chegar mais rápido ao futuro. Também o velho Marcelino tinha
tido esse problema, embora o seu fosse mais simples de compreender, fosse
porque o velho vivera noutros tempos, fosse porque os que o estranhavam viviam
noutros tempos. O velho recusara toda a vida o que chamava a modernice dos
relógios sem músculo, mantendo até ao fim a fidelidade para com os mecânicos
aparelhos cujas rodas bem oleadas registavam a passagem do tempo. O de pulso
tinha o pequeno defeito de atrasar, mas como se sabe nada é perfeito, e como se
emendam certas imperfeições com educação, outras com muletas, e outras ainda
com leis e prisões, Marcelino ajustava diariamente o retardado companheiro de
acordo com a melodia do relógio da igreja. Eram tempos diferentes, esses,
quando a fé cumpria importantes funções sociais como marcar o compasso do dia
em troca das esmolas que recebia aos domingos.
O problema do
velho Marcelino fora o seu bonito relógio de parede. Situara-o no fundo do
corredor, mesmo na frente da porta à rua. Por isso Marcelino apenas o
consultava ao entrar ou ao sair de casa, e somente quando os seus pensamentos
não ocupavam a totalidade da atenção, deixando espaço para registar o horário.
O relógio, mais velho que Marcelino velho quando Marcelino era garoto, estava
como os dentes do dono, muito partido. O maior proveito dos relógios analógicos
quanto aos seus suplantadores digitais é que mesmo estragado tem a vantagem de
se conservar preciso duas vezes ao dia. Foi esse mesmo o problema que fatalizou
o velho Marcelino que, habituado que estava a chegar a casa à mesma hora para o
seu jantar, por duas semanas confirmou sempre as nove e vinte quando reentrou.
E no dia em que agendou apanhar o autocarro das nove e trinta e cinco da manhã,
saiu de casa com a boa educação que um calmo quarto de hora permite dispensar,
assim cumprimentando todos os locais habitantes, afagando a nuca do gato da
frente, parando para admirar os infantis assobios dos recém-nascidos no ninho
das andorinhas. Com isto perdendo a consulta onde porventura lhe teria sido
diagnosticado o terrível problema que lhe veio a corroer a vitalidade nas duas
semanas seguintes, até não sobrar nele mais um batimento cardíaco.
Mariano trazia
nas células, bem embrulhada na hélice dos genes, a maleita desse avô. Era
apenas menos discernível porque o jovem não recusava modernices, e porque nele
a doença acontecia no espaço entre os ouvidos. Tinha a agulha da bússola
enferrujada sem o saber. Não tinha como percebê-lo pois que era muito raro
consultá-la sem primeiro garantir que estava virado para norte, o que lhe
permitia dizer alto e bom som «Estás a ver, olha lá para aqui» obrigando aos
seus interlocutores a reconhecerem-lhe a razão que lhe faltava ao invés de o
ajudarem a identificar o acidente. É o problema das bússolas cujo eixo da
agulha emperrou. Fossem usadas por nobres carvalhos ou lentos planaltos e o seu
erro pouco importaria. Mas nas mãos de humanos, espécie de mobilidade
estonteante, rodopiar constante, animal que encarna sem pudores o dinamismo
equilibrado que o senhor Berthollet julgava ser propriedade de químicos
reacionários, o erro sucede bastando para isso crer na orientação apontada pelo
instrumento, estando orientado em qualquer um dos trezentos e cinquenta e nove
graus que com o grau nortenho completam o bussolar círculo.
Acontecia essa
doença provocar fortes febres em todos que dela sofriam, embora nem todos quantos
dela padeciam sofressem da mesma estirpe. Assim como um vírus, ela dava-se em
variantes. Diziam os médicos de Mariano que a maleita em si tende a sobreviver
porque acontece ser bastante útil ao ser humano. Tem sobre o escrutínio e a
reflexão de cada circunstância a vantagem de economizar esse trabalho para
tomar uma posição e determinar um curso de ação. Os que dela não sofrem têm a
triste sina de perambular pelo mundo num pesadelo aritmético em que toda a
situação se revela um teste de matemática da sexta classe, uma coisa horrível,
pesarosa, angustiante, trabalhosa. Dela se conhecem na ciência algumas
variedades, como a que faz sucumbir os doentes à fixação seres invisíveis, fazendo
sintomas com muita oração, ou aquela que imprime na cabeça uma miragem de sociedade
em perfeição, e de que é sintoma uma forte azia ao engolir qualquer outra forma
de fazer civilidade, ou aqueloutra que em afoga em matemáticas para judiciar
verdades, deixando os doentes tristes de incompreensão, e por aí fora. A única
cura, por infortúnio, parece ser a aceitação de que cada caso se fez sem par,
aceitando que todas as trezentas e sessenta perspetivas sobre ele contêm o
mesmo valor de precisão e a mesma dose de imprecisão, sendo por isso desejável
a todas conhecer para melhor poder imaginar a totalidade da criatura.
Assim faziam os amigos
de Mariano, juntando-se ao final da tarde no café, dispondo-se em roda à volta
de uma mesa e colocando no centro desta o assunto sobre o qual discutiam. Se
decidiam debater as finanças, então punham sobre a mesa uma moeda de pé. Mal um
descrevia uma cara achatada e os que o ladeavam concordavam com ele apesar de
considerarem que essa cara relevava de um baixíssimo cilindro, logo o
companheiro à frente do primeiro recusava tal descrição dizendo na realidade
tratar-se de uma coroa bidimensional, posição que tinha a parcial concordância
daqueles perto de si, embora também esses afirmassem tratar-se o objeto de um
fino cilindro. A meio caminho de cada um desses dois, fosse por que lado fosse,
houvera quem dissesse tratar-se apenas de um fino retângulo estriado, e mesmo
os próximos desses discordavam disso. Com muita boa vontade e negociação, lá se
esforçavam os camaradas por imaginar o que os outros diziam ver compondo nas
suas mentes imagens mais ricas que a realidade que observavam.
Nada disto fazia
Mariano. Muito afetado pela sua doença, obrigava-se sempre a rodar três vezes
sobre si e procurar o norte antes de apontar com muita genica dizendo «É para
ali!» com a robustez e virilidade de quem está à beira da histeria se alguém
discordar. A doença impedia-lhe, coitado, de imaginar as possibilidades que os
amigos proferiam sobre quais fossem os assuntos de que tratavam. Tão trágica
era a sua situação, que de todos era o único que numa mesma tarde se levantava
do seu assento e rodava o grupo, o que em condições normais lhe conferiria
maior vantagem para compreender a complexidade do que tinha pela frente.
Problema era que ao rodar a mesa fazia-o com a cara sempre voltada para um
sentido fixo, forçando as pernas a dar grandes encontrões enquanto se movia.
Por isso os
amigos o evitavam quando se reuniam, preferindo a sua companhia apenas quando
lhes interessava marchar. Era aí a única situação em que a incapacidade de
Mariano se revelava de extrema utilidade. Sempre treinado a norte, se
porventura se quisesse organizar uma marcha nessa direção, podia-se contar com
ele para marcar o passo e manter a direção alinhada, evitando distrações. Isto,
claro, porque nunca tinham ido tão longe que passassem o polo magnético. Se o
fizessem, seria previsível que continuando marcha o amigo reclamasse para
voltarem para trás. Afinal, nem sempre é para a frente, o caminho.