Colecionadores
Mnemósine tomava um chá sobre uma nuvem radiosa. Estava uma manhã ou tarde soalheira, como o são todas as que se passam por cima das nuvens. O dia era calmo e belo, apesar da companhia. Mas a deusa tentava não se apoquentar. Descobrira há muito que a eternidade custa menos a passar aceitando o que se não pode mudar. Com ela beberricava Anansi, o traquina octópode que fizera fama a endiabrar os deuses.
Em tempos Anansi
fora um robin dos bosques, retirando em má-fé as riquezas narrativas dos deuses
e ofertando-as aos mortais. Fora também um napoleão, espoliando os arquivos
divinos e levando consigo as mais belas histórias, acabando por deixá-las em
palácios cheios de povo. Não se arrependia de nada. Tinha, aliás, muito orgulho
nas suas trapaças. Não o fizera com moral ou sentimento, mas com brincadeira no
lugar da cabeça e folia no lugar do coração. Enquanto chupava prazeroso o
líquido escuro e amargo, mostrava à companheira algumas das brilhantes jóias
que por suas artes adquirira.
– Acho uma
completa falta de respeito – disse a deusa ao divertido parvalhão – essas
coisas pertencem a quem as originou.
Não se continha,
a pacata Mnemósine. Já lhe bastava saber que os mortais faziam templos dignos
do heroico aracnídeo, recheados de coisas roubadas em nome das suas filhas.
Tornava-se por demais pesaroso ver o insolente semideus vangloriar-se de
semelhantes pilhagens. Decidida a emitir sobre ele um juízo, procurou em si um
que também salvasse a memória da sua descendência. Não encontrou.
– Tudo isso se
devia devolver a quem um dia pertenceu.
O homem aranha
sorriu. Não fazia as suas diabruras apenas para seu prazer. Convinha-lhe também
desagradar a autoridade. Era sua natureza ser inconveniente. Por isso lhe
respondeu:
– Dizes isso por
teres inveja. Todas as tuas histórias rimam com memórias.
A deusa
enrubesceu. Ficara acabrunhada. Sempre existira na convicção de que a ficção
vive no relato. Que todo o conto é reprodução de lembrança. Era autora por ser
protagonista do que contava, encontrando a narrativa não no lugar onde guardava
a matemática ou a geografia, mas naquele onde guardava aquela manhã de
quarta-feira e uma chuva outonal. Se lhe convinha ouvir uma história de outro,
procurava-o então e solicitava essa partilha. Não se permitira ser dona do
passado de outros. Mesmo as suas filhas, que tanta arte inspiravam, viviam essa
religião. Davam aos homens cuja sede saciavam, os propósitos para revelar da
sua criação, sendo elas pouco mais que veículos, etéreos motivos que permitiam
conceber o que delas nunca seria.
– Não admito essa
desvalorização – vincou a deusa – Terás as tuas próprias memórias para
partilhar. Se a dos outros tanto te apraz, podias deliciar-te a ouvi-las pela
voz deles.
Anansi não
arrependia. Deixara de o fazer ao nascer monstruoso. A honra que enfrentava desflorava
nele apenas escárnio. Fora sempre feliz ao pilhar. E mais feliz ainda em o partilhar.
No seu saco trazia um museu universal, histórias de todos os cantos do cosmo, e
abria as suas portas a todos quantos as quisessem ver. O comunismo do passado
era a sua seita.
– Não roubei com
discriminação. Tirei dos que tudo tinham e dos que não tinham nada. E nunca fui
invejoso com o que saqueei. Queres ouvir mais uma estória?
A deusa sabia que
nada podia fazer. Não era a primeira vez que arguiam, e o retorcido aranhoso
não dera alguma vez mostras de arrependimento.
– Não obrigado.
Acho que o roubo destrói o prazer desse artefacto.
– Pois eu acho
que esse roubo pode salvar – a voz não vinha do interlocutor, mas de alguém que
acabara de chegar.
Xerezade tinha no
peito o crime de Anansi. Fora também ladra, embora ninguém a pudesse
recriminar. Tinha roubado passados que lhe não pertenciam para se salvar, para
adiar a sua destruição, para que cada noite se prolongasse num dia. Não era por
isso menos rapace. Bem sabia que essas histórias que furtava para si
desfalcavam quem as vivera, mas descobrira-se delas tão gulosa como o seu
captor. O remédio que lhe aliviara a pena tornara-se vício. Precisava de mais.
Assim espoliou do património de heróis, ladrões, génios, e tantos mais quantos
encontrou. Roubava histórias do deserto, do mar, da floresta. Sem vergonha
roubava-as, ainda para mais aos homens. Aos fracos. Aos que pouco tinham de seu
para além do seu passado. Xerezade os despia delas, usando-as como armadura
durante a noite.
– Oh, minha
filha. Mas fizeste-o sem procurar o seu mal – compreendeu a deusa.
– Sim – anuiu
Xerazade – para satisfazer os meus dois algozes. Primeiro o que tinha no leito,
depois o que nascera no peito.
– É normal que a
ideia te revolte, quando tratas a parte de ti que teve prazer nesse roubo como
tratas o teu carrasco – gozou o africano.
– Admito que acho
bela a coleção que compilei. Admito também que agora ela é minha. Aqueles que
rapinei já cá não moram, e os que em nome deles reclamam devolução têm a estas
canções tanto direito como eu...
– Ainda assim,
querida, acho que as devias devolver – Mnemósine apelava à bondade que sentia
no coração sem trapaça da rapariga.
– Sim, mas a quem
devolver? Se as casas de onde as tirei ruíram, se as mãos que despojei são
teias de osso, se os corações que espoliei são repasto de vermes, a quem
devolver?
A deusa
considerou a dificuldade. Era demasiado fixa na sua ideologia repatriadora para
imaginar outra solução.
– Porque não a
quem deles descende? – perguntou.
– Não roubei eu
porque achava que o devia fazer? Porque não fazem eles o mesmo? – a persa
sempre apreciara as histórias de outros, já que a sua trazia a tragédia na pele
– E fazem, claro. Vejo que o fazem enquanto usam cambraias misturadas com
sedas. Que as levem e assim as aproveitem!
Uma outra
personagem lhe respondeu.
– Sempre vem com
mácula aquilo que não é dado. Sobretudo quando é sagrado.
Sarasvati
reservava-se o direito de cagar sentenças. Era entre os panteões uma raridade
por ter oferecido poesia feita aos homens, como Jeová tinha gravado legislação
e Alá ditado constituição. Para além disso tinha um matrimónio da treta e toda
a gente o sabia. Sentava-se ao lado de Mnemósine para a apoiar na condenação da
mortal e do mestiço.
– Ressoa prazer
na oferta de mitos. Ressoa como um sino, vibrando o corpo que badala como o de
quem entende, o de quem dá como o de quem recebe.
Era muitíssimo
magnânima a grande Sarasvati, quando se tratava de meter os de raça inferior à
sua no lugar. Mnemósine movia a cabeça como se tivesse um eixo no pescoço,
sinalizando concordância. Sabia bem sentir-se assim superior àqueles dois.
Xerezade decidia ir para outro lado. Não fora ali para se chatear. Anansi, no
entanto, parecia mais feliz que antes. Quando via tamanha retidão imaginava
aquela gente com um pau no rabo.
– Devolva-se
então! Cada um com o seu. Deixemos de gostar do que não nos pertence, que isso
é celebração de mau gosto. Pobres humanos, sim senhor – ridicularizou Anansi – tanto
sofrem com este cristianismo que lhes fazemos nós, que os libertamos do seu
passado para que não sofram de seus pais os passados. Mas a Memória, esse
vitral que todos os dias aparece diferente usando o mesmo nome, ela acha que é
justo o pecado ser herdado.
– Animal. Só sabe
gozar – cuspiu Xerezade.
– E aqui, donas,
a maior gozação. Que se de tudo ninguém for dono todo, de tudo é dono todo alguém.
E como estória tem de carne carecer, que seja de quem a quiser.