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vintissinco dabris (4)

1185 Certa vez, no coração da noite de 24 para 25 de abril, soou no breu uma música fraternal. Outra vez, soou a chamada a uma frota naval. No meio da tempestade, os buques de Yoshitsune deslizaram pelo Kanmon como uma torrente destinada a lavar o Daijô das faces do arquipélago do nascente. Diz-se que se deve renovar a água do banho sem renovar o bebé nela contido, mas desta vez o bebé seria despejado com a água, quando a avó, ela e tanto outros Taira, escolheu a honra sobre a humilhação. O minúsculo Antoku dorme até hoje nessas águas frias, acompanhado pela silenciosa Kusanagi que jamais poderá trespassar uma alma. No Dan no Ura, não choveram flores, mas o carmesim dos Minamoto e dos Taira coloriu as águas de Honshu. Tratava-se de terminar uma era e dar início a outra, quebrar o sonho clássico e penetrar o feudalismo de que se cantam lendas de heroísmo, honra e romance. Quando Yoritomo afunda os Taira, submerge com eles uma cultura de ócio aristocrático, a poesia, os livros. Deixemos ...

parábolas de Carlos Marques e Frederico Egas aos filhos duma revolução (7)

parábola da chuva Os homens inventam coisas novas, mas o que mais fazem é copiar coisas naturais. Os eleitos comportam-se quase sempre com a naturalidade das chuvas que ficaram famosas por tanto jorrararem as suas dádivas sobre os bancos do Grande Nilo, as que beneficiam com apreço as grandes matas verdejantes e os litorais resplandecentes. As chuvas, rios volantes que migram pelo firmamento, têm ocasião de veranear por sobre os desertos, as planícies de argila gretada, os vales salinos. Mas a esses, ela recusa-se. Em vez de cair onde a sua bênção faria mais devotos, ela escusa-se, mantendo cada gota do seu licor no ar, para as poder abandonar aos solos férteis dos países prósperos. Continuam a sua vocação com a distância que os deuses exibem perante as réplicas dos mortais, confiando que os seus instintos são seguros.

réplicas dum terramoto (3)

A língua é um escopro tão forte que pode até moldar as formas do universo aos olhos de uma criatura. Como uma mãe, é capaz de conceber e gerar géneros em coisas nas quais eles seriam desnecessários, imputar pluralidade a um único e fino cilindro de carvão escritor, engolir todas as cores da neve numa só palavra, ou brotar meia dúzia de entendimentos sobre a cor do sangue. Não seria de estranhar que a língua, capaz de tantas maravilhas, fosse motor das emoções dos povos. Nem o é, certamente não o é, pois não são raros aqueles que garantem haver um qualquer sentimento, um tipo especial de dança que se baila no coração, que é intransponível aos que não habitam o seu idioma. Curioso é que a disposição com que aceitamos competência ao vocabulário para dirigir essas coisas subterrâneas e reptilíneas como são a saudade, ou para moldar essas coisas superficiais e borboleteantes como são uma equipa de trabalho revestida do dignificante tásqueforse, raras vezes seja estendida às complexidades qu...

parábolas de Carlos Marques e Frederico Egas aos filhos duma revolução (6)

parábola da miserável Viveu em tempos uma inválida que, por obra daquilo em que fora deficiente, sofrera penas sem fim. Nunca se ajeitara com a agulha e a linha, nem possuíra o dote dos sabores cozinhados. Na lavoura, o pé arrastava toda ela, e mal enchia um alqueire por estação de faina. Na caça também não fabricava sucessos, pois apenas os animais mais míseros tropeçavam nos engodos que ela podia dissimular na paisagem. Como pouco produzia, comia em equivalência, transtornando-lhe os humores. Desta forma, também no trato lhe faltava a afabilidade das boas esposas. Cada atraso que incorria pelo pé era tão merecido como o da andorinha que tardou a nascer saindo do ovo quando os pais já voam para outras paragens. Cada jejum que lhe roeu o estômago era tão merecido como o da víbora que não soube saltar no momento apropriado sobre o ratinho. Cada abandono que lhe arrefeceu o corpo na noite era tão merecido como o da oliveira que, não obstante todos os cuidados, é incapaz de produzir frut...

parábolas de Carlos Marques e Frederico Egas aos filhos duma revolução (5)

parábola do general Um velho mandante de exércitos visitou os pomares molengões em que se apascentavam as vacas e as moscas que as atazanavam, as perdizes e as raposas que as caçavam, as crianças e os tutores que as perseguiam. Regozijado por ali reinar a delícia que a sua mão firme protegia, o general beijou a corola da filha e, antes de se evadir, convocou os netos. Disse ao mais velho, Cresce e faz-te forte e quando um dia lutares certifica-te que estás no lado certo da guerra. Disse ao do meio, Procura inspirar-te no teu irmão, sê diligente e aplicado, e quando a guerra te chamar garante que a bates do lado correto. Disse ao menor, Faz as negaças que alegram tua mãe, evita dar tanto trabalho aos teus irmãos, mas quando a guerra se puser na tua frente encara-a estando do lado certo dela. Nisto se foi, e tornou apenas quando a maré da guerra em que flutuava o trouxe de novo àqueles lugares. Nos pomares as vacas passeavam as costelas, as perdizes sonhavam ovos, e as crianças haviam ev...

vintissinco dabris (3)

1154 Há quem diga que o dia 25 de abril é o termo infeliz de um país. Há também quem diga que é a instauração de um país novo. Os proponentes de uma visão e da outra terão as suas razões, as quais certamente serão tidas e achadas por funestas pelos árbitros do campo adverso. Os vencedores são os que por regra da história cantam loas sobre tais eventos, daí serem raras as vezes em que uma multidão se junta para chorar em coro as exéquias de um regime, ao passo que não faltam as festas de aniversário realizadas para namorar os regimes implantados pelos que vigoram. É, pois, raro que num dia 25 de abril se encontre pelas ruas um cortejo tristonho e pálido, carpindo o fim desse antigo país, esplendoroso no seu tempo, que foi o Emirado de Damasco, casa dos turcos Búridas que tanta guerra fizeram aos francos que assomavam às terras do oriente mediterrânico imbuídos de maus intentos. Assim é porque nesse dia final de um regime nas terras que outrora foram quintal de hititas e de egípcios há u...

parábolas de Carlos Marques e Frederico Egas aos filhos duma revolução (4)

parábola da chibata Em certa quinta havia um homem que, preocupado em voltar, ele e os outros homens, rápido para junto de suas mulheres, auxiliava os trabalhadores dando-lhes ânimo e velocidade por meio de uma verga rija que assentava, em ritmo e compasso, nas costelas que serviam de tambor. Estes, que não reconheciam a previdência que tantas vezes os levara mais cedo ao lar, por vezes se queixavam da ajuda. Respondia-lhes o feitor, "Tanto queixume jorra dos vossos beiços, mas deste pedaço de vime nascido na vossa aldeia, que recolhi perante vossos olhos, que moldei e poli, jamais ouvi um choro".

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