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réplicas de um terramoto (5)

Dita a experiência acumulada de um povo, e o tempero de uma educação esmerada, que não se deite espreitadela sobre os molares de montaria de casco não fendido. Tais presentes são como as alvoradas e os ocasos, dádivas nas quais abona eterna a promessa colorida, mesmo que suceda uma cobertura de nevoeiro que aos olhos negue o espetáculo matizado que está em cena no palco mais elevado da atmosfera. É de muitas gentes infortúnio que este decoro por vezes não seja cumprido, descobrindo-se uma cárie ou até uma gengiva molestada e descoberta, num quadrúpede de olhos meigos e melífluo relincho, transmutando na ideia social o corcel ou o ginete em encargo ou em pivete. Tão assim é com a ruína herdada, que por vezes uma tia ou um primo, menos dados às delícias do romantismo, julgam ser um veneno agastador que corrói as esperanças de sensibilidade patrícia. Longe de gozarem esse eco de uma saudade amiga, de se imbuírem do espírito da cavalaria nobre das lendas, mais agradável que a das crónicas,...

parábolas de Carlos Marques e Frederico Egas aos filhos duma revolução (11)

parábola dos rostos apagados Devíeis antes lembrar-vos daquela aldeia de que falaram os vossos avós, a que tombara debaixo de uma maldição por castigo dos seus habitantes envaidecidos, fazendo todas as crianças nascidas sofrerem defeitos monstruosos. Lembrai o horror das descrições que se faziam dessas crias, lembrai como vos fazia tremer nas ceroulas, o grotesco nas faces, aquele olho, um nariz desta forma, o lábio de tal maneira. Decaindo os pais, a vaidade tornara cada um dos filhos absolutamente diferente dos demais. Estais lembrados? E se vos dissesse que tais estórias eram mais que simples mentiras, que além de advertências nelas se continha ainda a verdade das circunstâncias? Pois ficai sabendo que assim foi, e toda a aldeia chorava impotente, pois descoberta a qualidade do que se separa, dificilmente se torna a juntar, sem as forças negras e abjetas da bruxaria. Estais lembrados de como terminava esse povo e essas crianças? Da bruxa vestida de curandeira que invocara poderes te...

parábolas de Carlos Marques e Frederico Egas aos filhos duma revolução (10)

parábola do viúvo Foi dessa maneira que as palavras fortes e audazes penetraram o espírito de uma mulher casada. Chegando-lhe em gritos, em lugar de a aprisionarem nos cultos de matronas que sempre foram eclodindo no seio das aldeias doentes, as palavras deram liberdade ao seu espírito para aprender a sofrer. Compreendeu que residia um mal terrível no trato do marido, a quem servia sem ser por ele servida. Reparou que nas mãos trazia os cortes e queimaduras da confeção dos repastos, que as costas lhe dobravam vincadas pela vassoura e pelo esfregão. Reparadas estas coisas, soube até que no âmago de si estalava um grito mudo, e decidiu treinar-se a gritá-lo. Executava a liberdade tal como as palavras lhe tinham ensinado, que era a liberdade de que o seu esposo gozava. Deixou de limpar a casa. Deixou de cozinhar as refeições. Se o marido lhe atirava uma acusação, logo ela cuspia uma igual em troco. Não tardou em ele se decidir a cear numa casa de pasto, e a pernoitar numa pensão, o que fe...

vintissinco dabris (5)

1282 As vítimas dessa pérfida maldição, o reumático, não serão as primeiras a apontar para as nuvens dizendo que nelas povoam, entre as gotículas de água, terríveis vaticínios. De facto, sobre os granitos onde já habitaram fadas e duendes, nesses afloramentos que foram casa de bruxas e druidas, sabe-se que muita coisa pode acontecer no coração das brumas. Talvez tenha sido isso a levar Llywelyn, o Grande, inaugural Príncipe de Gales, a juntar aqueles molhos de pedrinhas no outeiro que vela sobre o vale do Dysynni, num amontoado que herdou esse ruinoso nome: Castell y Bere. Porém, uma ruína não ocorre por artes arquiteturais: ela depende, como tantas outras maravilhas visitáveis por trupes veraneantes, do saque e do abandono. Boa sorte teve o castro em ser herdado pelo silvestre Dafydd, educado pelo estacionário Henrique III, o primeiro monarca absolutamente prisioneiro da Magna Carta, servo de Gales, da Inglaterra, e sobretudo da sua própria espada, que não só soube resguardar o título...

parábolas de Carlos Marques e Frederico Egas aos filhos duma revolução (9)

parábola das caravanas Havendo os seus filhos atingido a idade adulta, liberto das preocupações da criação o senhor de um deserto quis desembaraçar-se de outras insónias, como as provocadas por pensamentos acerca da sua sucessão. Para poder dormir, divisou um plano: chamou os filhos e disse a todos – Ide até às nossas províncias mais secas, onde as gentes flutuam sobre o dorso de éguas e dromedários, e divisai as leis que ali é mister imperarem. O primeiro filho, tomando o direito de varão, exigiu dos irmãos a tentativa inicial. Chegou nas dunas com o seu exército, mandou parar as caravanas e perguntou quantas de estas cruzavam o mar seco sob mando de um mestre criado nos palácios e bibliotecas do seu pai. Notando que eram poucos, nomeou entre os seus prediletos aqueles que passariam a comandar frotas, indo ele na liderança de uma. Quando as caravanas regressaram, souberam os irmãos que nenhum dos valentes sobrevivera o périplo, sucumbindo ora pela inclemência do deserto, ora por se de...

réplicas de um terramoto (4)

Atingido o seu estádio mais desenvolto, o espírito romântico não se sacia com a beleza isolada. Precisa que dela vertam algumas gotas de sangue. É o planalto dominado pelos vampiros de nobre casta. Os que mesmo despidos de imagem espelhada têm particular atenção à escultura do cabelo, se adornam com vestes ricas presas com botões finamente trabalhados, polvilham as faces de pó e rouge conforme ditam as todas. Os que existindo além da gastronomia ainda colocam a mesa para os convivas, escolhem os belos talheres de prata, preparando-os para a carne e para o peixe, para a fruta e o pudim, fazendo as cozinhas obrar ainda que todo o repasto se deixe abandonado em favor de um copo do néctar que transborda das veias dos que breve cessarão. Há um outro tipo que sem sucesso se tenta assemelhar ao romântico, mas sucede que em todos os momentos cruciais fraqueja, as jambas bamboleiam, a vontade férrea estilhaça, a voz imperativa desfalece sem deixar surdina em testemunho. Quando investe, é capaz ...

parábolas de Carlos Marques e Frederico Egas aos filhos duma revolução (8)

parábola dos cativos Pois nas estrebarias de um senhor, podemos encontrar encavalitados os seus escravos menores, mas não encontraremos, a comungar das suas palhas e sopas, os escravos maiores. Longe de haver ódios, os escravos das estrebarias nutrem pelos seus maiores os sentimentos de ciúme, inveja e até orgulho. É próprio entre cada um o anseio por ser o dedicado servo que, oferecendo as vísceras à lança e à flecha que um atacante envia ao patrão, goza o prémio de se tornar parte da casa. É lícito entre cada uma o desejo por ser a dedicada serva que, abandonando a virtude e a honra na presença da lança do patrão, goza o prémio de se tornar parte do lar. Assim passam as noites em que os braços folgam do trabalho mais árduo, sonhando os homens em poder conquistar um instante mortal no qual se mostrem armaduras louváveis, ou estudando as mulheres o modo de enrolar os trapos para que as suas formas sejam o néctar apetecível. Quando, durante o dia, encontram os escravos da domus, prestam...

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