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A mostrar mensagens de setembro, 2026

réplicas de um terramoto (5)

Dita a experiência acumulada de um povo, e o tempero de uma educação esmerada, que não se deite espreitadela sobre os molares de montaria de casco não fendido. Tais presentes são como as alvoradas e os ocasos, dádivas nas quais abona eterna a promessa colorida, mesmo que suceda uma cobertura de nevoeiro que aos olhos negue o espetáculo matizado que está em cena no palco mais elevado da atmosfera. É de muitas gentes infortúnio que este decoro por vezes não seja cumprido, descobrindo-se uma cárie ou até uma gengiva molestada e descoberta, num quadrúpede de olhos meigos e melífluo relincho, transmutando na ideia social o corcel ou o ginete em encargo ou em pivete. Tão assim é com a ruína herdada, que por vezes uma tia ou um primo, menos dados às delícias do romantismo, julgam ser um veneno agastador que corrói as esperanças de sensibilidade patrícia. Longe de gozarem esse eco de uma saudade amiga, de se imbuírem do espírito da cavalaria nobre das lendas, mais agradável que a das crónicas,...

parábolas de Carlos Marques e Frederico Egas aos filhos duma revolução (11)

parábola dos rostos apagados Devíeis antes lembrar-vos daquela aldeia de que falaram os vossos avós, a que tombara debaixo de uma maldição por castigo dos seus habitantes envaidecidos, fazendo todas as crianças nascidas sofrerem defeitos monstruosos. Lembrai o horror das descrições que se faziam dessas crias, lembrai como vos fazia tremer nas ceroulas, o grotesco nas faces, aquele olho, um nariz desta forma, o lábio de tal maneira. Decaindo os pais, a vaidade tornara cada um dos filhos absolutamente diferente dos demais. Estais lembrados? E se vos dissesse que tais estórias eram mais que simples mentiras, que além de advertências nelas se continha ainda a verdade das circunstâncias? Pois ficai sabendo que assim foi, e toda a aldeia chorava impotente, pois descoberta a qualidade do que se separa, dificilmente se torna a juntar, sem as forças negras e abjetas da bruxaria. Estais lembrados de como terminava esse povo e essas crianças? Da bruxa vestida de curandeira que invocara poderes te...

parábolas de Carlos Marques e Frederico Egas aos filhos duma revolução (10)

parábola do viúvo Foi dessa maneira que as palavras fortes e audazes penetraram o espírito de uma mulher casada. Chegando-lhe em gritos, em lugar de a aprisionarem nos cultos de matronas que sempre foram eclodindo no seio das aldeias doentes, as palavras deram liberdade ao seu espírito para aprender a sofrer. Compreendeu que residia um mal terrível no trato do marido, a quem servia sem ser por ele servida. Reparou que nas mãos trazia os cortes e queimaduras da confeção dos repastos, que as costas lhe dobravam vincadas pela vassoura e pelo esfregão. Reparadas estas coisas, soube até que no âmago de si estalava um grito mudo, e decidiu treinar-se a gritá-lo. Executava a liberdade tal como as palavras lhe tinham ensinado, que era a liberdade de que o seu esposo gozava. Deixou de limpar a casa. Deixou de cozinhar as refeições. Se o marido lhe atirava uma acusação, logo ela cuspia uma igual em troco. Não tardou em ele se decidir a cear numa casa de pasto, e a pernoitar numa pensão, o que fe...

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