parábolas de Carlos Marques e Frederico Egas aos filhos duma revolução (11)
parábola dos rostos apagados
Devíeis antes lembrar-vos daquela aldeia de que falaram os vossos avós, a que tombara debaixo de uma maldição por castigo dos seus habitantes envaidecidos, fazendo todas as crianças nascidas sofrerem defeitos monstruosos. Lembrai o horror das descrições que se faziam dessas crias, lembrai como vos fazia tremer nas ceroulas, o grotesco nas faces, aquele olho, um nariz desta forma, o lábio de tal maneira. Decaindo os pais, a vaidade tornara cada um dos filhos absolutamente diferente dos demais. Estais lembrados? E se vos dissesse que tais estórias eram mais que simples mentiras, que além de advertências nelas se continha ainda a verdade das circunstâncias? Pois ficai sabendo que assim foi, e toda a aldeia chorava impotente, pois descoberta a qualidade do que se separa, dificilmente se torna a juntar, sem as forças negras e abjetas da bruxaria. Estais lembrados de como terminava esse povo e essas crianças? Da bruxa vestida de curandeira que invocara poderes terríveis e aromas pérfidos sobre um pano, o qual passava sobre as faces das pobres crianças todos os dias até todas elas serem finalmente iguais. Tendes a recordação desse fim trágico? Quando no lugar da face já só sobejava uma forma oblonga polida encaixada nos cabelos? É que, perdida a harmonia no encanto da unicidade, esta só se reencontra perdendo a humanidade.
Devíeis antes lembrar-vos daquela aldeia de que falaram os vossos avós, a que tombara debaixo de uma maldição por castigo dos seus habitantes envaidecidos, fazendo todas as crianças nascidas sofrerem defeitos monstruosos. Lembrai o horror das descrições que se faziam dessas crias, lembrai como vos fazia tremer nas ceroulas, o grotesco nas faces, aquele olho, um nariz desta forma, o lábio de tal maneira. Decaindo os pais, a vaidade tornara cada um dos filhos absolutamente diferente dos demais. Estais lembrados? E se vos dissesse que tais estórias eram mais que simples mentiras, que além de advertências nelas se continha ainda a verdade das circunstâncias? Pois ficai sabendo que assim foi, e toda a aldeia chorava impotente, pois descoberta a qualidade do que se separa, dificilmente se torna a juntar, sem as forças negras e abjetas da bruxaria. Estais lembrados de como terminava esse povo e essas crianças? Da bruxa vestida de curandeira que invocara poderes terríveis e aromas pérfidos sobre um pano, o qual passava sobre as faces das pobres crianças todos os dias até todas elas serem finalmente iguais. Tendes a recordação desse fim trágico? Quando no lugar da face já só sobejava uma forma oblonga polida encaixada nos cabelos? É que, perdida a harmonia no encanto da unicidade, esta só se reencontra perdendo a humanidade.