parábolas de Carlos Marques e Frederico Egas aos filhos duma revolução (10)

parábola do viúvo

Foi dessa maneira que as palavras fortes e audazes penetraram o espírito de uma mulher casada. Chegando-lhe em gritos, em lugar de a aprisionarem nos cultos de matronas que sempre foram eclodindo no seio das aldeias doentes, as palavras deram liberdade ao seu espírito para aprender a sofrer. Compreendeu que residia um mal terrível no trato do marido, a quem servia sem ser por ele servida. Reparou que nas mãos trazia os cortes e queimaduras da confeção dos repastos, que as costas lhe dobravam vincadas pela vassoura e pelo esfregão. Reparadas estas coisas, soube até que no âmago de si estalava um grito mudo, e decidiu treinar-se a gritá-lo. Executava a liberdade tal como as palavras lhe tinham ensinado, que era a liberdade de que o seu esposo gozava. Deixou de limpar a casa. Deixou de cozinhar as refeições. Se o marido lhe atirava uma acusação, logo ela cuspia uma igual em troco. Não tardou em ele se decidir a cear numa casa de pasto, e a pernoitar numa pensão, o que fez até lhe chegar a notícia da tragédia. A esposa, enfraquecida pela fome, fora atacada da peste que proliferava na imunda habitação. Triste e cabisbaixo, o viúvo tinha apenas por sorte o carinho e atenção que lhe dava a grande amiga da defunta, que solidária agora se abeirava dele, tão cheia de pesar e volúpia.

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