As mãos
Uma mão mais à direita que a outra, e a sua parceira à sua esquerda vai ficando. Cruzando os braços conseguem se encontrar, mas se o cruzamento for extremo a ele se segue o desencontro, a desunião mais forte que a mistura. Irmanam-se, pois, por distâncias virtuais, cada uma da outra sabendo pelo tronco que os braços partilham, primas de uma linhagem comum, descendentes de uma origem que lhes é desconhecida. Apenas a inferência lhes permite algum modo de familiaridade: as sensações a que cada uma é exposta viajam até uma máquina neuronal, que logo responde a cada uma e à vez sobre tais coisas que se passam no universo seu desconhecido. Mesmo as mãos chegadas, uma pousada sobre a outra, ou de palmas estreitas e dedos entrelaçados, lhes estão ausentes no saber. Sabem desses outros dedos, dessa outra pele, apenas o que o cérebro goza em comunicar. Desprezada essa compaixão pelo órgão despigmentado, ambas permanecem ignorantes da companheira. Por via direta, propôs o deus que as criou negar...