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A mostrar mensagens de março, 2023

As mãos

Uma mão mais à direita que a outra, e a sua parceira à sua esquerda vai ficando. Cruzando os braços conseguem se encontrar, mas se o cruzamento for extremo a ele se segue o desencontro, a desunião mais forte que a mistura. Irmanam-se, pois, por distâncias virtuais, cada uma da outra sabendo pelo tronco que os braços partilham, primas de uma linhagem comum, descendentes de uma origem que lhes é desconhecida. Apenas a inferência lhes permite algum modo de familiaridade: as sensações a que cada uma é exposta viajam até uma máquina neuronal, que logo responde a cada uma e à vez sobre tais coisas que se passam no universo seu desconhecido. Mesmo as mãos chegadas, uma pousada sobre a outra, ou de palmas estreitas e dedos entrelaçados, lhes estão ausentes no saber. Sabem desses outros dedos, dessa outra pele, apenas o que o cérebro goza em comunicar. Desprezada essa compaixão pelo órgão despigmentado, ambas permanecem ignorantes da companheira. Por via direta, propôs o deus que as criou negar...

Conficções

Gertrudes polia a graxa no sapatinho. Era bom começo de domingo, assim se preparando para celebrar o descanso do divino com algum labor secular. Nem valia a pena preocupar-se em descansar nesse dia santo, pois que em verdade não fora apenas ao domingo que deus descansara. O domingo fora só o seu primeiro dia de folga. Lá dizia, bem no começo do livro espiritual. Descansara todas as segundas, teças, quartas, quintas, sextas e sábados também. Foram aliás mais estes dias que descansou que aqueles em que buliu, que foram apenas um de cada. E se não valia inconveniência fazer empregos aos demais dias, ao domingo só poderia ser igual. A não ser assim, estariam bem tramados os padres, que nesse dia trabalhavam mais que nos restantes. Ou fá-lo-iam por tentação? Por incitar os crentes à prevaricação? Fazendo profissão ao dia do descanso do altíssimo, como a serpe um dia fizera refeição de frutas no paraíso? Gertrudes poupava-se tais pensamentos. Tinha visto demasiado político a abandonar partid...

Jaquelindo Mendoça

 Jaquelindo Mendoça passava a maior parte dos seus dias desfiando beatas para enganar a fome, confundindo apenas ele próprio. Quando largava uma logo procurava outra, ora com o óculo direito ora com o esquerdo, cada um perscrutando o seu hemisfério, passeando pelas pedras da calçada no passo desajeitado de quem tem défice de dedos nos pés. Assim era ele como eram a maior parte dos seus convivas, colombos urbanos que preferem as agruras da metrópole ao trabalho da migração. Estudara pouco. De gramática o indispensável além do arrulhar, mas o que lhe faltava em compreensão sobrava-lhe em emoção, e com o coração tinha por todas as coisas as que muito amava e as que deveras odiava, sabendo também aquelas que desprezava, as quais tinha apenas ocasião de encontrar quando topava o seu reflexo nalguma poça de água. Era amante de vária natureza, e de toda ela poucas eram coisas que não apreciava. Mas por ter fraca recordação contemplava o que via com a estranheza de um amnésico idiota que...

Sardinhas

Noutras circunstâncias a velha teria vindo. Mas em sendo cadáver, perdera parte da mobilidade necessária ao feito. Em qualquer deslocação seria cativa dos coveiros. Fosse a velha capaz de se mover, ter-se-ia deparado com mais um triste quadro. As crianças estavam frente a frente, o irmão mais velho sentado, a irmã mais nova de pé. Guerreavam como de costume. Os braços estendiam-se na direção um do outro, inflexos, as unhas de um quase tocando o pulso do outro. A carne tinha rompido pela pele que cobria desajeitadamente as falanges. Abaixo, na direção das coisas que caem, uma poça de sangue esforçava-se por vingar. Falhava, atacada pelo zelo desesperado da governanta de costas quebradas e canto lamurioso. Em pé, arrancando cabelos com algumas das mãos, a mãe ritmava a respiração como se disso fizesse desporto. O pai, à janela, fumava cigarros um atrás do outro, a mão direita estrangulando um copo de espírito esvaziante. Teria aí chegado a velha e estabeleceria a paz. Apenas ela tivera e...

A ponte

Quero chegar ao meu destino. O lodo prende-me as pernas, assaltante de humidade pesada. A neblina ofusca a visão do fado, ali ao fundo, tão perto da mente, longe do tato. Os elementos sopram de quatro direções, de oito, de todas, para que permaneça neste aqui, mas a vontade consome-me como o fogo que movimenta todas as bestas da floresta. Irei. Contra os esforços do mundo irei. Nas narinas aninha-se o cheiro fétido deste lugar, o presente esgotado pelo passado. Devo dirigir-me a um futuro para que possa descansar o olfato. A água pingada dos céus conspira com a terra semeada pelos ventos para impedir que deslize. Debaixo de mim moldam-se pegadas na lama. Farão poças, assim que os joelhos se furtarem ao dever de sentinela. Dou um passo, dois, sete. Ando. O pano das calças reforçado por camadas de lama. O pescoço transpira como se fosse apenas seu o labor de mover. Já não sinto os pés. O frio comeu-lhes os sensores. Não os sinto, mas obedecem-me. Um passo, dois, sete. Fica já ali, o me...

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