Sardinhas

Noutras circunstâncias a velha teria vindo. Mas em sendo cadáver, perdera parte da mobilidade necessária ao feito. Em qualquer deslocação seria cativa dos coveiros. Fosse a velha capaz de se mover, ter-se-ia deparado com mais um triste quadro. As crianças estavam frente a frente, o irmão mais velho sentado, a irmã mais nova de pé. Guerreavam como de costume. Os braços estendiam-se na direção um do outro, inflexos, as unhas de um quase tocando o pulso do outro. A carne tinha rompido pela pele que cobria desajeitadamente as falanges. Abaixo, na direção das coisas que caem, uma poça de sangue esforçava-se por vingar. Falhava, atacada pelo zelo desesperado da governanta de costas quebradas e canto lamurioso. Em pé, arrancando cabelos com algumas das mãos, a mãe ritmava a respiração como se disso fizesse desporto. O pai, à janela, fumava cigarros um atrás do outro, a mão direita estrangulando um copo de espírito esvaziante. Teria aí chegado a velha e estabeleceria a paz. Apenas ela tivera esse condão, essa brutalidade. Terminava confrontos com apenas um decreto e duas puxadas de orelha. Diria, Façam já as pazes. E não se comoveria com explicações, argumentos, denúncias. Mesmo viva era já demasiado velha para tais conversas. Diria a qualquer repto, Não quero saber, aditando Façam já as pazes. E restabeleceria a calma. Era dom de ter apenas os três dentes. Economizava o palrar como poupava as demais artes da boca. Era dom de ter apenas dores nos couros. Não desperdiçava atos como não esbanjava passeios. Fosse viva e a velha triunfaria por exigência, por imposição. O cérebro não lhe era dado a filosofias.

Desta começara assim: sentava a família frente ao televisor, entorpecendo ao som de um programa sobre a vida natural, matando o imprecioso tempo que levaria para a empregada terminar a janta. A menina, sentada na pequena cadeira que recebera de oferta pelos anos, levantava-se desajeitada para adquirir um rebuçado. Não tinha ainda o tino para evitar os doces, nem a dentadura que fizesse os seus estragos perenes como uma cicatriz. Os breves momentos foram bastantes. O irmão, guloso de brincadeira, aproveitara o assento justo e incómodo para o seu rabo. Tomá-lo significava negaça e significava ocupação, uma fuga ao tédio. A irmã descobre a desfeita pela mais célere arte de investigação: a meia-pirueta. Franziu a boca e patinhou até ao irmão, levando a mãozinha livre de doçura à calça de pijama dele, convicta que o desplante lhe dará a força necessária para reaver a propriedade. O irmão, descarado, grita vitória, Quem vai ao ar perde o lugar, e cruza os braços como um déspota feito à escala. Ela, sem demodos, aponta o dedo e olha nas faces dos progenitores, quer justiça e quer vingança, quer saciar a raiva pelas quatro maiores mãos. O irmão ri, despreza, ganha mais. Ela ameaça choro sem cumprir. Tem tristeza na estratégia, mas só encontra raiva na sensação. Ele vê e goza mais, ri alto, vinga todos os brinquedos que passaram para ela, todas as chuchas, todos os mimos, todas as atenções. Vinga desta, como vinga de todas as vezes, e nenhumas serão suficientes para tudo vingar. Não perdera tudo, perdera mais, perdera pior, perdera algo. Ela machuca por dentro mas falta-lhe sentir a dor, a ira está mais perto, tem um aroma mais doce. A dor, essa evita-a, tem o cheiro de velho que a avó tinha. A ira tem a cor garrida dos brinquedos, dos desenhos animados. Ela apela novamente aos pais. Ele tirou o que é dela, não fariam algo? Ele apela também. Ela tirara tudo o que era dele, tiraria isto também? À mãe comove o canto do menino, diz que ele seria tão lindo se devolvesse a cadeira à mana, tão crescido que ele é, tão cheio de potencial para ser adulto, só tem que pedir desculpa e dar a cadeira à mana, tudo ficará bem. O pai faz claque à menina, quer vê-la triunfar, repor essa injustiça, dar-lhe-á o que for preciso para ela saldar o défice. A governanta vem e chama à mesa, vê um impasse. Engana-se. Nenhum impasse. O irmão propõe o despique, enfrenta os braços, provoca a adversária. Ela acede. A mãe arranca dois cabelos. O pai traga o copo e começa um cigarro. A governanta diz, Vá lá meninos, São horas de ir pr'á mesa. Ele ganha primeiro. Ganha segundo e terceiro. Ri e goza. A mãe advoga paz. Ele ri e ganha mais. Ela range os dentes. Não conhece dores. O pai faz claque. Ela ganha. Ganha outra vez. Ganha dezoito vezes em seguida. Ele ganha as oito seguintes. Depois ela mais duas. Ele vinga com catorze. A mãe faz um novelo com o cabelo solto, prefere o escalpe nu a fazer intervenção, recomenda o pedido de desculpas e a devolução da cadeira. O pai abre novo maço, manda vir outra garrafa da cozinha, prefere o cancro e a cirrose a deixar de acreditar na filha, aposta nela que tem apenas menos três anos de desenvolvimento motor e físico que o irmão. As mãos já sangram, a governanta rebaixa-se, verga as costas sem saber se as poderá desquebrar, passa o pano na mancha carmesim, apela à bondade das crianças, Não vêm que me estão a dar cabo das costas. Ele continua a ganhar, ela também, vão ganhando sem fim, sem termo, sem destino. Juntos, percorrem uma estrada sem fim. A governanta reza, apela a um anjo porque o telefone da velha deixou de funcionar. Talvez ela seja desses, dos que respondem a preces sem ter voz. Tudo o que resta é esperança.

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