Conficções
Gertrudes polia a graxa no sapatinho. Era bom começo de domingo, assim se preparando para celebrar o descanso do divino com algum labor secular. Nem valia a pena preocupar-se em descansar nesse dia santo, pois que em verdade não fora apenas ao domingo que deus descansara. O domingo fora só o seu primeiro dia de folga. Lá dizia, bem no começo do livro espiritual. Descansara todas as segundas, teças, quartas, quintas, sextas e sábados também. Foram aliás mais estes dias que descansou que aqueles em que buliu, que foram apenas um de cada. E se não valia inconveniência fazer empregos aos demais dias, ao domingo só poderia ser igual. A não ser assim, estariam bem tramados os padres, que nesse dia trabalhavam mais que nos restantes. Ou fá-lo-iam por tentação? Por incitar os crentes à prevaricação? Fazendo profissão ao dia do descanso do altíssimo, como a serpe um dia fizera refeição de frutas no paraíso? Gertrudes poupava-se tais pensamentos. Tinha visto demasiado político a abandonar partido por conta de raciocinar, pelo que conhecia o escrutínio como inimigo das fés. Abrilhantados os sapatos, recheava-os de pé, e humildando os cabelos com um lencinho fazia-se à paróquia. Lá, sentava num banquinho, alternando entre o rabo e os joelhos o peso do corpo. Ou seria a massa? Não importava, isso era matéria de descrentes. Ou de crentes com gulodice pela verdade. O sacerdote dizia ensinamentos na câmara ecoante, e tão úteis soavam que quase se podia esperar que uma praga de gafanhotos entrasse porta adentro. Não viu nenhum. Apenas a fila da frente recebia gafanhotos. Quando terminou, foi ela à confissão. Precisava dela para receber o corpo do cristo, que há muito era o único homem que deixava pousar na língua. Falou do engraxamento, mas o padre riu. Não contava o trabalho domingueiro por pecado. Acaso seria ele pecador? Não, Gertrudes que confessasse coisa outra. Ela pensou. Não encontrou. Mas estava sedenta por cristo. Salivava por possuí-lo. Então imaginou. Abriu a guelra e palrou.
Ao falar, Gertrudes fazia pecados, convicta de
que só deles podia salvar alma. Pudesse o prior entender de perguntar
"Verdade isso, minha filha?" e quiçá a mentira se desfizesse em
soluçadas desculpas e sentidos regretos.
Apertado no esconso da socialização, Jerónimo
deixava que outros órgãos lhe guiassem a mão. Escorregavam-lhe sobre as pernas
e costas alheias, desfazendo-se em simpatias cavalheirescas. Umas. Outras
dispensavam decoros. Investia com grandeza de carácter, o carinho e a
amabilidade, senhores de todos os seus bondosos atos. Talvez por isso conhecer,
lhe perguntasse ela se o atraso de hoje se devia a tempos esquecidos na
companhia de qualquer sirigaita. O seu orgulho inchava, imaginando-se capaz das
proezas desses viris personagens cuja arrebatada sensualidade punha cobro sem
piedade a qualquer fenómeno moral. Injuriava-lhe o orgulho saber-se incapaz
dessas aventurosas infidelidades, que lamentava não poder alimentar. Enfiado
nesse relacionamento, submergia-se na alegria da total entrega à parceira,
deleitando-se no sonho de ser propriedade dela, um ser íntegro porque
complementado por aquilo de que houvera sido falho à nascença. Em cada gesto,
dentro de cada palavra, sobre cada aroma, invadia-se de completude, não
restando nele mais que amor, um amor que lhe contaminava todos os movimentos,
cada uma das palavras, com ela e com tudo quanto habitava o mundo em que ela
era. Apesar disso sobrevivia nele o solteiro, o eterno namoradeiro, resignado a
um poço no seu interior para onde descendiam os passados. Crescia nesse seu
espectro o ressentimento dessa totalidade, dessa universalidade que o banhava.
O homúnculo julgava-o diminuído, fraco, efeminado. Ansiava por lhe conseguir
impor alguma ação, incutir um pecadilho, incitar a uma pequena traição. Mas
sempre se lograva. Cada toque a qualquer outro se impregnava da felicidade do
amor, e esse bafo empurrava o homúnculo para outros baixios, outras funduras.
Até nascer a queixa dela. A pequena perseguição. Lançou na boca infernal uma
corda, que o espectro gozadamente escalou. Chegou à superfície e dela se fez
viver. Fintou a verdade fingindo vergonha e culpa. Pediu todos os perdões, o
coração malicioso na vitória que alcançava sobre o alter-ego. Dizia que foram
apenas duas, talvez três. Prometia que não voltaria a acontecer, mas que nem
toda a culpa era sua, que ela falhara também ao permitir que outras lhe dessem
o que deveria ela satisfazer.
Ao falar inventava traições, crente que só
delas podia fazer lealdade. Pudera que a esposa lembrasse de perguntar
"Verdade isso, meu querido?" e talvez que a mentira se dissolvesse em
trementes recriminações e extasiantes lacrimações.
Senhor juiz, não sei que mais posso fazer que
não seja assumir a minha responsabilidade e pedir muita desculpa. Eram estas as
palavras que Januária escrevera no bilhetinho que oferecera ao pobre Gilberto,
pouco mais podia por ele fazer visto ter ele outra representação. Sendo
advogada da vítima, abraçava apenas a possibilidade de coagir o réu a decorar a
simples frase, e a reproduzi-la indispensavelmente como repto a qualquer
questão que lhe fosse colocada durante o processo. Parecendo simples, era um
feito imbricado, já que o convencimento dele se reduzia a lembrá-lo quem era o
seu cliente, ou seja, a vítima, esperando que o receio precipitado por essa
informação o levasse a comportar-se conforme desejado. Era como o lançamento de
um dado viciado ignorante do lado com maior viés. Orava para que ele
encontrasse suficiente coragem para vencer o medo do perjúrio, mas não que lhe
removesse o temor que ela manobrava. Em pouco tempo deixou que os pulmões
relaxassem o ar. Gilberto respondia a cada apontamento, cada raspagem, cada
investida, com a memorizada lengalenga. Assim foi por quase um quarto de hora,
momento em que o juiz perdeu a paciência, e além dela também as estribeiras.
Amedrontado de cima a baixo, não conseguiu ele manter silêncio ou falar
verdades. Optou em vez por doar encantos, tangas, patranhas e outras coisas,
que era matéria corrente na sua vida social, e mais ainda quando se dava em
conviver com gente desta. Lá foi dizendo com mais pormenor e efeitos de
realismo que sim senhor, que era dele a ideia toda, que bem se podia chamá-lo
de parvo que ele de parvo não tinha nada e sempre fez muito orgulho à sua mãe.
Que foi de ser espertalhão que se lembrou em ter ideias, e foram estas de
pensamentos nos quais lhe surgiu por revelação que ele calculara ser bom estar
naquela posição. Era coisa que lhe agradava, de assediar o pobre deputado,
fazendo-se grande rufia e não o deslargando enquanto não fosse este aceitar
ficar lá em casa, nesse apartamento que tinha o Gilberto em certa capital, e
sobre qual fazia usufruto não em o habitando mas nele depositando vítimas
embaralhadas como esse eleito do povo, forçando-os a viver nos seus lares, em
paga por gozarem de salários pagos pelos contribuintes. Juntava a isso o ter
forçadamente inscrito o desgraçado nessa universidade cujas propinas pagava
Gilberto, apenas em jeito de o humilhar por disso se presumir que tão burro era
que mais valia era voltar à escola. E sobre todas estas injúrias assumia ainda
atentar contra a vítima, como já bem se havia estabelecido, ao comprar uma
moradia para a mãezinha do político, tudo isso contra a vontade deste, e também
da boa senhora que se via assim arrastada em problemas que apenas ao filhinho
diziam respeito.
E em falando, Gilberto mentia inventos,
convencido que só deles podia safar o couro. E quando o juiz puder, fará de
perguntar "Verdade isso, meu caro?" e juntando-lhe a imagem do
cárcere, sucederá a mentira se desvanecer em cautelosas confidências e
justiceiras verdades.