Jaquelindo Mendoça
Jaquelindo Mendoça passava a maior parte dos seus dias desfiando beatas para enganar a fome, confundindo apenas ele próprio. Quando largava uma logo procurava outra, ora com o óculo direito ora com o esquerdo, cada um perscrutando o seu hemisfério, passeando pelas pedras da calçada no passo desajeitado de quem tem défice de dedos nos pés. Assim era ele como eram a maior parte dos seus convivas, colombos urbanos que preferem as agruras da metrópole ao trabalho da migração. Estudara pouco. De gramática o indispensável além do arrulhar, mas o que lhe faltava em compreensão sobrava-lhe em emoção, e com o coração tinha por todas as coisas as que muito amava e as que deveras odiava, sabendo também aquelas que desprezava, as quais tinha apenas ocasião de encontrar quando topava o seu reflexo nalguma poça de água.
Era amante de vária natureza, e de toda ela
poucas eram coisas que não apreciava. Mas por ter fraca recordação contemplava
o que via com a estranheza de um amnésico idiota que a toda a hora declara «Ai,
que parvoíce! Já me lembrei!» ao lhe tornarem os sentimentos de amor e de ódio
arquivados. Se não fosse iletrado teria certamente a capacidade de escrever
listas, o que seria bastante jeitoso para prevenir o esquecimento. Usando-a
elencaria as coisas que detestava, pondo no seu topo os humanos, criaturas cujo
instinto parecia destinado a produzir dois efeitos: dar cabo da vida dele; e
dar cabo de tudo o resto.
Concluíra esse pensamento por um acaso, ou
melhor, dir-se-ia que foi em certo momento invadido por uma revelação,
precisamente uns segundos depois de ouvir um pardal queixar-se disso mesmo.
Como todas as verdades, essa podia-se verificar em todo o lado desde que se
fizesse o esforço devido para não atentar a qualquer coisa que a contrariasse,
e Jaquelindo convencia-se cada dia um pouco mais que os artificialmente
agasalhados primatas haviam evoluído, de facto, para o atazanar.
Fundamentava-se pelos pilares do seu desentendimento, as inflexões que
palpitavam no peito e os rumores que ressoavam no cocuruto, e pleno dessa
excelsa confirmação prestava-se a desconsiderar o milho que mãos caridosas
atiravam no seu sentido, calibrado prenúncio de um corpo infantil que se jogava
correndo na sua direção com os braços depenados em envergadura.
Afastava-se assim das vulnerabilidades que
oferecia o chão, apenas nele tratando de biscatar beatas e outros grãos
perdidos. Descia embrenhado na confusão para que se não alertassem os
adversários quanto à sua emplumada presença. Preferia as alturas, as que são
altas sem tirar caloria do pneu, que se cobrem de mantos verdes e crostas
amarelas e onde a mão dos homens só se aventura por matérias de conservação.
Eram seus locais prediletos todos aqueles em que os humanos teimavam em colocar
longas tiras de espigões, pois em cada desses podia contemplar o mundo e
descansar os cotos, e sem esforço adicional fazer troça dos esforços do
mamífero imundo. Esfaqueava assim a inimiga humanidade, em repousando os dedos
amputados sobre os pilares da antigueza que o adversário celebrava, os pétreos
manequins que adornavam a vitrine do tempo pátrio. Sobre eles, Jaquelindo repousava,
e como alguém lendo um jornal, também cagava. Eis a suma vingança, a derradeira
agressão, sarapintas de branco e verde capazes de injuriar a eternidade dum
povo. E fazia dessa exclamação um modelo de resistência, convidava o bando a
lhe juntar, porque apenas conjuntos fariam os dedos certos dos pés, e
dedilhando em contas certas se faria inquestionável cagaréu.
Quebrando os gelos chegaram caravanas de
bronzeados, alados viajadores com os bicos erodidos pelas finas areias
planantes. Produzem imundas tendas por inversão, e pululam os arcos de ar
viário como malabaristas em digressão. O chão, esse cobria do seu marcador
mercado, alvo mais acertável para espingardas em divertimento. Jaquelindo
desgovernou, pensando «Não pode ser! Tanta merda desperdiçada» pronto insurge
os bem-vindos a praticar a sua maldade, acabar com acrobacias que fazem circo
aos malfadados, antes juntem as latrinas. Antes as despejem sobre homens
empedernecidos.
Menos por recusa que por distração quedaram-se
os nómadas fazendo palhaçada, responso que convidou a bílis agre dos nativos.
Rolando expletivos sobre a gente descarada, ajunta a corte no redor de
Jaquelindo, «Doutor, doutor, acuda» mas piavam baixinho. O nomeado piou mais
grosso, invetivo, ensinando ordem à canalha. Choraram três as avezinhas que
primeiro levaram multa por incumprimento e ouvindo-as as outras chamaram o doce
mas portentoso Saco. Um rasgo ondulante abriu entre os ares entrincheirados e
ele pousava cerca, um rasto de digestão a assinalar o seu mais recente currículo.
Era de todas as aves a mais respeitada. Nas
suas peregrinações tinha visto todas as coisas que se podem ver, e muitas delas
relatava. Conhecera toda variedade de monstros, dos grandes elefantes aos
minúsculos mosquitos, dos tigres cor de pôr-do-sol aos molhados peixes-balão, e
entre o povo apardalado que nadava os ventos de Portugal era um dos poucos que
haviam visto na selva um jaca-a-ré, esse confuso corcodilo que teima em marchar
às arrecuas. O destemido andorinho não fazia cerimónia da sua pujança, mas não
era gabarolas: de ninguém escondia as suas falhas, e entre estas o seu maior
medo, esse fundamental pilar da coragem. Quem escutou as suas façanhas,
certamente já o terá ouvido contar:
– Fosse na baixeza do chão, nas elevadas alturas ou nas águas profundas, nenhum bicho me meteu até hoje medo, salvo esse grave enorme e gigante, o hiperpótamo, ser imenso.
Ali, no centro do chão, pesava de tanta coragem que fechava ao corpo todo o movimento. Um simulacro fóssil com respiração. Jaquelindo sentiu na cova do espírito um ardor e dois dedos de pé em proposta vanguarda. Não adiantou. Recordou-lhe a lembrança que uns têm coragem no peito, outros no ânus, boa contabilidade ditava que desse sete passos atrás. Os divertimentos retomaram, o veterano migrante esfomeou. Jaquelindo chamou a sua malta. Aquele susto sempre daria alente para uma nova camada.