A ponte
Quero chegar ao meu destino. O lodo prende-me as pernas, assaltante de humidade pesada. A neblina ofusca a visão do fado, ali ao fundo, tão perto da mente, longe do tato. Os elementos sopram de quatro direções, de oito, de todas, para que permaneça neste aqui, mas a vontade consome-me como o fogo que movimenta todas as bestas da floresta. Irei. Contra os esforços do mundo irei. Nas narinas aninha-se o cheiro fétido deste lugar, o presente esgotado pelo passado. Devo dirigir-me a um futuro para que possa descansar o olfato. A água pingada dos céus conspira com a terra semeada pelos ventos para impedir que deslize. Debaixo de mim moldam-se pegadas na lama. Farão poças, assim que os joelhos se furtarem ao dever de sentinela. Dou um passo, dois, sete. Ando. O pano das calças reforçado por camadas de lama. O pescoço transpira como se fosse apenas seu o labor de mover. Já não sinto os pés. O frio comeu-lhes os sensores. Não os sinto, mas obedecem-me. Um passo, dois, sete.
Fica já ali, o meu destino. Já depois de
passar esta ponte que não é ponte, a travessia sobre a barreira que faz do rio
um lago, a barragem. Combatem-me ainda os elementos, a eles se alia a memória.
Passar a ponte, com estes pés, é traição à tradição. O costume, lei, aviso,
ditou sempre que não fossem as nossas gentes até aquele lá. O meu destino
cresceu como crescem os pecados, na luxúria descorajosa. As minhas pessoas
sempre viram o lá, aquele futuro, o outro lado da ponte. A consciência e a
cobardia ensinaram a desviar os olhos desse descaminho. Os meus pés sempre o
desejaram. Por ser outro. Por ser ali. Por não ser isto. Aqui, vive a gente de
faltas. As faltas fizeram as pessoas do meu povo. A falta de recursos fê-las
estoicas pobres. A falta de ensino fê-las pobres estoicas. No espírito, o medo
é indistinto do respeito, nome e apelido de coisa mesma. Abandonar-me-iam se
ali me dirigisse. Isso fez-me medo. Mas o nojo do lodo impele-me ainda. Não
esperarei que me abandonem quando lá chegar. Abandono-os primeiro, depois irei.
Abandono-os já, com o primeiro passo. Já os abandonei. Ficaram, como o tempo
que foi. Já não são. Estou só. A caminho.
Encontro um carro de supermercado. Abandonado
como um batedor do neoliberalismo em terras isentas de capital. Um esquecimento
da sociedade de consumo, distribuído pelos ventos e pelas águas, para vir
poluir um pedaço de humanidade órfã de progresso. Ficando, será comido pelo
furor tribal, atiçado nas chamas, roído entre rezas e apelos para que os céus
desintegrem este sinal de descida. Seguirá comigo. Um último carinho ao povo
que foi meu. Subo as pesadíssimas calças para o carro. O resto do corpo sobre
elas. Sentado dentro, abraço os joelhos fletidos, para proteger do desânimo.
Com um ramo, empurro-me dentro do veículo. Descerá a ladeira comigo, eu com ele.
Desparecerá, como desaparecerei, do olhar da tribo. Uma última bondade ao povo
que foi meu. Escorremos como água, as mínimas rodas trancadas deslizando pela
argila molhada. O declive faz pacto com a gravidade. Vamos mais rápidos. Sinto
ar na fronte. Como palpável. A lama agrega-se. Inventa um para-choque no carro.
Mais e mais veloz. O galho caiu. Ficou. Continuamos eu e o carro. Acidente.
Projeto-me. Projeta-se o carro. Sinto o relógio brando, olho o entorno como se
capaz de planar. Irei vestir o casaco com a matéria que me faz o resguardo das
calças. O carro parou breve, pouco saltou com as rodas cimentadas. Livrar-me-ei
do toque do metal.
Caio em dor, em dor me deito, doloroso
levanto. A dor não levanta comigo, deixa-se deitada em cada osso. Ressona em mim.
Não paro. Quero chegar ao meu destino. O lodo perde profundidade, longe que se
faz da humildade. Ainda cola os soalhos, convida a ficar. Vejo uma tábua e
marco na lama os rastos dos tornozelos até ela. Está boa, flutuante.
Experimento o seu movimento sobre a superfície molhada, como se feita dos pés
de deus. Plana, como uma prancha na água. Deposito nela todos os joelhos, o
ventre como uma caverna a proteger a barriga das pernas. Uso as mãos em
sintonia, enfiando os dedos, as palmas, os pulsos, os antebraços pela metade,
no líquido sujo, e faço assim a prancha nadar sobre ele. Uma braçada, três,
seis. Os braços pesam de cansaço, pesam de fraqueza, pesam de lama, pesam de
pecado. Mais duas braçadas, seis, doze. A gravidade é frágil, poupa-se quando a
verticalidade é magra. Mais quatro braçadas, doze, vinte-e-quatro. A tábua
estaca. Está demasiado em horizonte para conseguir mover. Olho em frente e a
ponte é já aqui. A neblina corta mais o atrás que o em frente. Dureza sem
escape.
Levanto e ando, poucos passos para ser na
ponte. Lá de trás, onde é memória, era um risco branco sobre o vale, um desenho
a ponta grossa. Aqui de perto cheira a mofo, vê-se bolorenta, soa a greta,
vibra na antecipação da sua queda. Um passo e geme como um terramoto, esta estrada
que guarda tsunamis dormentes. Outro passo e caio. Outra vez caio. Caio
novamente. O tremor obriga-me a rastejar. Um braço puxa o corpo e de imediato o
peito sente a falta do lamaçal. O asfalto ofende a lama, o tecido, a pele, uma
boca gulosa de carne. Outro braço puxa um pouco mais, sem saber se para
continuar caminho, se para castigar toda a pele. Quero chegar ao meu destino,
está já ali, um pouco mais. A meio da ponte, desfeito do calçado, abordo o lado
do espelho de água. O outro ruiu já, deixando no seu lugar um nada estrutural.
Que aguente mais um pouco. Meia ponte de travessia. O seu resto fragmentado,
pedaços de ferro, betão e asfalto sem continuidade. Como se residissem no ar e
a sua vontade de estar fosse suficiente para impedir o derrame do lago.
Gatinho, a carne a proteger as mãos e os joelhos. Neste inóspito agora com
défice de antes, posso apenas gatinhar para um depois.
Afloro e a ponte rui. Cai com um choro de
água, um berro que lamenta a morte do lago, um berro que celebra a liberdade do
rio. Respiro. Cheira mal. Olho. Está baço. Mexo. Invadido por dor. Derrotada a
tradição, cheguei ao meu destino.