As mãos
Uma mão mais à direita que a outra, e a sua parceira à sua esquerda vai ficando. Cruzando os braços conseguem se encontrar, mas se o cruzamento for extremo a ele se segue o desencontro, a desunião mais forte que a mistura. Irmanam-se, pois, por distâncias virtuais, cada uma da outra sabendo pelo tronco que os braços partilham, primas de uma linhagem comum, descendentes de uma origem que lhes é desconhecida. Apenas a inferência lhes permite algum modo de familiaridade: as sensações a que cada uma é exposta viajam até uma máquina neuronal, que logo responde a cada uma e à vez sobre tais coisas que se passam no universo seu desconhecido. Mesmo as mãos chegadas, uma pousada sobre a outra, ou de palmas estreitas e dedos entrelaçados, lhes estão ausentes no saber. Sabem desses outros dedos, dessa outra pele, apenas o que o cérebro goza em comunicar. Desprezada essa compaixão pelo órgão despigmentado, ambas permanecem ignorantes da companheira. Por via direta, propôs o deus que as criou negar-lhes a possibilidade de ciência, incapacitando essa bonita solidariedade sem a qual os membros são reféns da mente. Nem reagir podem, sem autorização da cognisciente autoridade e, apagando-se esta por artes comatosas, bem se podem unir as duas, nenhuma fraternidade se irá produzir.
Pobres mãozinhas, tão trabalhadoras, tão
minuciosas nas competências que se lhes atribuem. E tão cativas, tão falhas de
autonomia. Tão pouco sabem que nem podem chorar quando se dá a sua
substituição, trocando-as às partes por umas mais novas, deitando fora este
bocadinho, aquela célula, largando pristinos substitutos no seu lugar. E as
pobres mãozinhas, completamente renovadas a ritmos irregulares, um pouco de
pele hoje, aquele recanto de nervo amanhã, ontem uma miséria de músculo,
inocentes destas amorais trocas. Não há em elas nada insubstituível. Contando
que exerçam o seu desempenho, toda a comiseração é recusada à sua totalidade.
Uma aprende a rudeza do martelo, a outra o
sinuoso das palavras em carvão, esta pesa sobre os graves do piano, aquela
saltita sobre os seus agudos. Enformam-se para os desígnios que servem órgãos
maiores que si, mas o fruto dos seus préstimos esconde-se por detrás de um
ângulo obtuso, impenetrável. A sua qualidade é a de uma ferramenta, a sua
silhueta desenhada por enzimas namorando genes. Esculpem sempre, sem parar, no
ar onde enformam ideias, no barro onde dobram factos, na cabeleira onde
constroem amores, no tacho onde formam gostares. Tudo fazendo sem nada aprazer,
que lhes falta com que pensar, com que usar, com que amar, ou com que saborear.
Da deste lado pouco espera o pulso, a palma
pousa horas infindas e tempos mortos, roça um lado esfrega o outro, sem que a
carne abandone o solo onde acama, o dedo apenas se vai movendo, certas vezes
uma percussão, outras duas como em tambores. Por ocasião junta-se a um dedo o
irmão, aquele quase o mais afastado da prima mão. Batuca quantidades
singulares, esse, como se lhe faltasse gaguez. O pulso pouco espera e sem saber
desespera, dá conta quando o túnel vai carpado, então carpe mas vai tarde,
culpa sua que deu passagem ao comando vindo da espinha.
Mal uma se cansa, reveza a outra, embora
apenas nos pares que balançam a destreza. Para os outros, os que mais há, a mão
cansada é mão que pena, que se tortura na persistência do gesto sem descanso.
Não há para eles sossego, e para eles o sossego não há. Inventam por força de
maioria um mundo à sua medida, um mundo cansado, pesaroso, abatido. Um mundo em
desequilíbrio em que uma mão sempre descansa, desafetada de lavores pela
incompetência que alega[1] ,
e a outra mão sempre labora, impedida de descanso por tão grande volume de
afazeres. Produz uma a rudeza calejada com que se inventa a comida que enfeita
o prato, e a demais faz acenos e dá apertos, realiza o gestuário protocolar.
Uma vive sempre em saldo de dívida para com a outra, nunca se encontrando no
abraço comunal. Pingam entre estas os desafetos das mãos cambiantes, as que se
assemelham, que se replaçam sem que tal implique indignidades, as mãos que se
conhecessem como espelhos, que recusam especialidades.
Ao longe, o cérebro reina. Absoluto no deleite
dos sentimentos que as partes que comanda lhe oferecem. A comichão que sofreu o
ouvido, ele experimenta como riso, poesia, melodia. Goza o prazer da corrida
que as pernas sofrem como pneumáticos abusados, que os pulmões soçobram como
foles exauridos, que o coração lamenta como bomba estropiada. Orgulhoso,
veste-se de génio com as esculturas que as mãos sentem como agressões,
embeve-se dos calos que a caligrafia monta nos dedos tão acossados em dor que
tentam surtir armaduras de pele. Haverá nele solidariedade ou compaixão por
estes apêndices? Nenhuma, pois o membro gangrenado se expele. É sua a
sobrevivência fundamental, tudo o mais é lixo em potência. Reina, glorioso
cérebro, são tuas as páginas da história.
Às mãos, conhece-as constituintes, sabendo
delas cada plano, cada perspetiva. Domina-as na opressão de um omnipotente ser,
um mandador que as expõe ao frio mordente ou calor infernal, por desígnios que
os seus minúsculos sentidos alertam em sinal de pele e de pelo. Debruça sobre
as feridas de uma as unhas da outra, faz nascer fratricídios apaixonados de
comichão. Imperioso, decide se delas faz gémeas espelhadas, ou artistas
especializadas.
E ainda os deleites da arte. Culmina cada uma das esqueléticas lagartas com um capuz de quitina, uma armadura de rigidez que amolece nas termas, e é cada uma delas caiada como a fachada de um muro sem porta. Vibram à sua superfície as mais florais colores, como se saídas de um catálogo que renuncia os tons de nevoeiro, e dessa vestimenta conhecem as mãos apenas um leve peso, uma aceitável opressão. Os óculos bebem esses matizes, os fotões descrevendo trigonometrias dentro deles e na superfície das unhas. O dedo que se conta nono leva ainda a anilha, um pedaço de frio metal que recorta o fluir sanguíneo, encaixado para lá das juntas, repousado no sopé das membranas herdadas de tempos aguados. O brilho, a ternura, enchem os olhos de maiores notícias do que os pedaços da carne que os sustentam.