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A mostrar mensagens de novembro, 2022

Carolina

O grande auditório repletava-se de gente, entre estudantes e professores universitários, estudantes e professores não universitários que se chamam alunos e cetôres, investigadores universitários e de centros de investigação, investigadores sem essas filiações, chamados amadores ou conspiracionistas, políticos inscritos em partidos, políticos não inscritos em partidos que dão pelo nome de ativistas; e ainda poucos que se categorizam como outros interessados no assunto aos quais vulgarmente se apelida de gente. O debate ia confrontar duas pessoas com a mesma opinião sobre o assunto, uma vez que o debatente que traria uma opção diversa fora substituído por alguém que não apresentasse discordância, sendo o original falador aconselhado a não participar por ter a organização identificado um total de zero audientes interessados em ouvir opiniões diferentes da sua, e ainda menos pessoas disponíveis para mudar de posição. Carolina era uma dessas pessoas, mantendo-se firme que, estando marcadas ...

Dom Edilbertolino

D. Edilbertolino suspirava com mágoas do tamanho de uma pança real. Quanto mais leve sentia ser a coroa que lhe decorava a rala cabeleira, mais pesada lhe parecia a sua testa. Descobrira recentemente que a testa era pesadíssima. Isso fazia-o muito suspirar, como se as leves ejeções de ar bafiento ajudassem a propelir a cabeça para uma postura mais nobre, menos entenebrada. Como não surtia o efeito desejado, aos suspiros declarava um infeliz: – Mas porquê? e deixava-se cabisbaixar. Custava-lhe isto por ter sobre ele uma sombra invisível que até na penumbra lhe tapava a luz no corpo. Era lançada pela história gloriosa dos seus antecessores, que ele gostava de imaginar ser também a dos seus antepassados, embora desconfiasse que a linhagem real fora várias vezes redefinida para considerar legítimos um ou outro bastardo. Considerava até que era provável que uma vez por outra tenham os casais mais nobres apresentado como seus, os filhos de alguns dos seus caseiros, para ofuscar a sua imp...

Sarah

Sarah tinha sido educada nas mais prestigiantes escolas liberais americanas, nas quais aprendeu a importância de ter um forte sentido de dever perante os mais desfavorecidos, bem como os menos favorecidos e uma consistente repugnância pelos que viviam confortáveis por não se contarem entre estes. Por três anos foi também educadora em algumas destas importantes instituições onde afinou os instrumentos pedagógicos que adquirira em lojas de reduzida pegada ambiental, até que o sentimento de afogo que tinha por não crer estar a fazer o suficiente pelo bem maior lhe sussurrou uma boa ideia. Fez as malas e abriu um mapa, dos digitais que os outros obrigam a competências militares para as quais ela não possuía vocação, e procurou um lugar onde pudesse verdadeiramente corrigir certas assimetrias que lhe haviam sido demonstrado existirem onde quer que houvesse gente vestida com arrojo. Depressa se tornou evidente que em todos os lugares em que tal ocorria teria o mesmo sucesso que onde estava...

Dilúvio

A arca não foi a primeira coisa que Noé fez. Aliás, procurou adiar a sua construção tanto quanto pôde, visto que a perspetiva sobre tudo quanto nela deveria armazenar lhe produzia as mais tamanhas dores de cabeça que um profeta jamais sentiu. A primeira coisa que fez foi, naturalmente, embebedar-se, que nada mais é que a solução verdadeiramente humana para lidar com problemas insolúveis. A segunda coisa que fez foi tornar-se um personagem de relevo social no que tocava a essa matéria. Publicou alguns documentos sobre a grave subida do nível das águas e como esta derivava em parte substancial e praticamente em exclusividade da ação humana, recomendando que tipo de quotidianos virtuosos poderiam os homens e mulheres adotar, forçando ainda os seus filhos e escravos às mesmas sensaboronas vidas, de forma a evitar esse inevitável cenário catastrófico. Por um bom par de décadas, Noé apresentou as suas convictas declarações onde foi capaz: era omnipresente em quaisquer congressos que se fiz...

Labirinto

Estefânia entrou no concurso e foi selecionada, ficou contente e orgulhosa, postou muito sobre o acontecido que para os pais ainda não ocorrera, visto a recém-formada ainda viver às suas custas. Fez-se ela em trombas mas por pouco tempo, sete semanas apenas e era colocada, mais novidade para circular, tanta amizade que à distância celebrava a sua vitória com a parcimónia de um polegar, e ainda duas mais que com ela saíram a comemorar. Os pais deram coragem, se tudo corresse bem tinham alguns meses até se emanciparem das obrigações. No grande átrio quedou-se num canto à espera de invocação, chegara cedo para bem se apresentar, mas ninguém a fora receber. Levou duas horas em pena suspensa para que uma rapariga a chamasse, a ela e mais uns tantos, para conhecer o diretor. Eram no total sete delas e sete deles, todos livres de experiências laborais, dizia a anfitriã enquanto os dirigia pelo longo corredor atapetado, há uma década que não metiam tantos de uma só vez, continuava ela com o ...

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