Sarah

Sarah tinha sido educada nas mais prestigiantes escolas liberais americanas, nas quais aprendeu a importância de ter um forte sentido de dever perante os mais desfavorecidos, bem como os menos favorecidos e uma consistente repugnância pelos que viviam confortáveis por não se contarem entre estes. Por três anos foi também educadora em algumas destas importantes instituições onde afinou os instrumentos pedagógicos que adquirira em lojas de reduzida pegada ambiental, até que o sentimento de afogo que tinha por não crer estar a fazer o suficiente pelo bem maior lhe sussurrou uma boa ideia.

Fez as malas e abriu um mapa, dos digitais que os outros obrigam a competências militares para as quais ela não possuía vocação, e procurou um lugar onde pudesse verdadeiramente corrigir certas assimetrias que lhe haviam sido demonstrado existirem onde quer que houvesse gente vestida com arrojo. Depressa se tornou evidente que em todos os lugares em que tal ocorria teria o mesmo sucesso que onde estava, até receber um anúncio pelo telemóvel. Foi assim que ela se meteu num avião direita a Lisboa, onde entraria ao serviço numa escola internacional, o que lhe permitiria moldar jovens mentes que depois iriam metastizar os seus importantes ensinamentos pelo mundo.

A escola era precisamente o que ela procurava. Suficientemente provinciana para ter o charme de um terceiro mundo mas também satisfatoriamente cosmopolita para lhe pagar um salário com o qual pudesse manter o estilo de vida que, feitas as contas, sentia merecer por todos os sacrifícios que ia fazendo. Entrou no gabinete da diretora e quase nem foi preciso apresentar o currículo, assim que ela viu o anel que trazia pendurado no dedo.

A relação satisfazia ambas partes, pois que tanto a pedagoga como a instituição partilhavam o sentimentalismo educativo e o realismo materialista, nem se fazem omeletes sem ovos, nem causas sociais sem salários, o mundo sempre se salva dentro de um orçamento. Para além do seu excelente corpo de profissionais, a escola era também povoada por alunos cujos abastados pais se achavam ainda demasiado jovens para submeter os filhos aos rigores dos internatos católicos, que a educação serve para abrir portar, e mais portas se abrem com certificados brasonados que com aptidões que calejam, a disciplina a seu tempo virá, para já ainda não, sempre há o risco de asfixiar o génio artístico que toda a criança tem, ou de lhe asfixiar o génio quando não é dado a artes, esse ainda mais comum e portanto mais sensível às afrontas da ordem. Deu-se bem a nova doutrinária com tal cultura, pobres meninos, e mais pobres as meninas, tinha vindo ela de tão longe para lhes fazer conhecimento deste vasto mundo, iria ela empoderar todos, e mais ainda todas, por ali disseminar o seu perfume cosmopolita, tão bem que ela cheira, cheira a estrangeiro e a estrangeiro cheira a maior parte da criançada, três são até do seu povo, sorte é duas serem meninas, só um é impermeável à salvação, sem problema que também esses têm lugar, para todos os heróis há monstros que matar, sempre ajuda ter exemplo do opressor quando se molda uma mente juvenil.

O matinal canto do hino evita-se, há que fugir a nacionalismos, sobretudo quando se está entre expatriados, tantas sensibilidades sofreriam caso lhes fosse dado a celebrar a nação dos outros ao pisarem o seu solo. O dia abre assim com outro bonito ritual, uma ginástica de partir gelos, faz-se como os camaradas mais convictos que o oriente conheceu, dão-se os bons dias ao sol recitando as faltas que passeamos no sovaco, não aquelas de que temos autoria, pois a criatividade sempre quebra certas regras, nada mais normal, reparemos antes no que por acidente rifámos, por aí haverão falhas a purgar, e não se podendo purgá-las por nos serem alheias, sempre se pode carpir que o mal de outros nos penteia os ombros. Coisa deveras bela é encontrar quem se saiba desculpar, os pecados são para mostrar sobretudo quando originais, já antes se fez disso religião, que bom poder aliviar a consciência apenas apolojando pelo que outros fizeram.

Em irmandade sorerna a diretora apoiava a nova Sarah, e como ela também o jornal escolar, órgão de alunos assessorado por docentes, indispensável instrumento para amplificar vozes inaudíveis, e tantos outros que poucos eram os que lhe logravam a unanimidade. Tinha apenas dois, porque sempre haviam dois, os pares de progenitores que, expostos a este vanguardista ensino se redescobriam ligeiramente católicos, fazendo por isso um pé de vento antes de se elipsar e ingressar as crias num estabelecimento fechado mais apropriado às suas tendências conservadoras. Desconcertados, desagradados, desesperados, tanta virtude contrastava com a sua formação e os seus pequenos delfins rápido aprendiam por que causas os podiam recriminar, e acima destes a si mesmos, sempre há em cada cria o que fustigar, qual é o almoçador que se não pode injuriar pelo alimento que falta a tantos outros? Saem estes, tudo bem, fica a turma mais limpa, e mais limpos ficam os cadastros dos mecenas que suportam a vitalidade desse social esforço. E iria Sarah incriminar tão exaustivamente os seus pupilos? Claro que não, que os seus privilégios são poucos e magros, quando se pensa que vivem em tal estado sem providência como é esse canto da civilização onde escasseia o ar condicionado e as casa de férias, não para estes, e ainda bem, em todos os desgraçados existem aqueles capazes de se assomar à superfície do lodo que os prende.

Dois anos ficou a instrutora esculpindo os jovens espíritos, libertando deles os excessos que a moralidade dispensa, reservando-lhes em trompe l'oeil os contrastes que importa vincar, até o saldo bancário suportar uma vida relaxada em paragens menos primitivas. Despediu-se com carinho dos colegas e até das colegas, e dos alunos, e também das alunas, dos seus pais e possivelmente das mães, e sobretudo se despediu da patroa e do cargo, muito gostara de ficar mas tempo era de se confortar. Que não se preocupassem, entre poupanças e heranças haveria de se safar.

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