Labirinto

Estefânia entrou no concurso e foi selecionada, ficou contente e orgulhosa, postou muito sobre o acontecido que para os pais ainda não ocorrera, visto a recém-formada ainda viver às suas custas. Fez-se ela em trombas mas por pouco tempo, sete semanas apenas e era colocada, mais novidade para circular, tanta amizade que à distância celebrava a sua vitória com a parcimónia de um polegar, e ainda duas mais que com ela saíram a comemorar. Os pais deram coragem, se tudo corresse bem tinham alguns meses até se emanciparem das obrigações.

No grande átrio quedou-se num canto à espera de invocação, chegara cedo para bem se apresentar, mas ninguém a fora receber. Levou duas horas em pena suspensa para que uma rapariga a chamasse, a ela e mais uns tantos, para conhecer o diretor. Eram no total sete delas e sete deles, todos livres de experiências laborais, dizia a anfitriã enquanto os dirigia pelo longo corredor atapetado, há uma década que não metiam tantos de uma só vez, continuava ela com o discurso entremeado pela madeira a ranger.

O diretor esperava no gabinete, sentado atrás da secretária, fez convite a que se sentassem todos quantos vinham, o que fizeram cada qual usando da boa educação que recebera. O homem era bem parecido, e melhor vestido, transpirava afabilidade e amor pelo seu domínio. Escolhera-os por serem candidatos pristinos, prontos a absorver o carinho que ele nutria pela casa, capazes de garantir que a instituição tivesse futuro. Eles concordavam e elas também e, um por um, e até, uma por uma, sentiam reconhecidas as suas qualidades, aquelas que tão poucos sabiam identificar, e que este desconhecido tão claramente via. Estefânia radiava aos olhos do diretor, e ele aos olhos dela. Restava-lhe apenas uma ânsia, que o homem pronto desanuviou, não os desejava em competição, esse mal que se instala em tanto empreendimento, ambicionava-os colaboradores, cooperantes, apoiando-se entre si para o seu próprio bem e pelo bem dos que serviriam. Ouvindo essas palavras, três deles suspiravam, e duas delas também. Perguntaram se haveria um treinamento, mas tal não seria necessário, julgava ele que todos tivessem entrado com as qualidades necessárias à sua missão. Partilharam um café e uns bolos, ingeridos ao som de boa conversa, e findo esse tempo, esfregou ele as mãos e depois as espalmou nos joelhos, logo se levantando para que todos e todas encontrassem o seu rumo. Não poderia haver melhor disposição que aquela que se encontraria nessa sala quando as portas se abriram, o diretor tão satisfeito com os jovens como eles consigo mesmos.

A secretária veio para os guiar, e levando-os de novo pelo longo corredor, dirigiu-se até uma frondosa porta, a mais delicada e pormenorizada que tinham visto em todo o edifício. A cada um deu um pequeno cartão, necessário para se poderem movimentar em tão complexa rede de canais, e despediu-se deles individualmente, à medida que cada um passava pela porta. Estefânia foi a última a passar, recebeu o seu cartão com as pontas dos dedos de ambas mãos, devolveu um sorriso amistoso e seguiu confiante, sabendo apenas que a porta se encerrava pelo som que emitiu.

O local onde então se descobria tinha com a câmara anterior a mesma continuidade que o cenário de uma telenovela tem com o remanescente do estúdio que enfeita. O chão era coberto de belíssimos mármores de uma suave cor de sol nascente, as paredes revestidas por calcários milenares, cortados com a dignidade das colunas de uma catedral, o teto arqueado convidava a luz a dançar pelo corredor banhando em fios de ouro tudo o que tocava. Os sete e as sete deambularam em maravilha por este magnífico mundo, lavando-se na serenidade da dua corrente posição.

Pouco a pouco o enquanto perdia a novidade, embora em nada diminuísse a sua estonteante magia. Foi uma delas, quem primeiro sentiu o prato do dever pesar mais que o do êxtase na sua balança mental, e foi calmamente tomar a posição que lhe havia sido cedida. A sua pele continuava a responder às carícias do espaço, embora o seu rosto se ocupasse com a luminosidade da ferramenta de trabalho, a atenção subjugada pela fome de produzir. Levou algum tempo até a segunda sentir em si uma similar impressão, despertando suavemente de si, e entrando no sonho laboral, os dedos dando-se a conhecer à folha de teclas, cada movimento ensaiando um novo ritmo. Após ela foi um dos eles, o último que entrara e cujo olhar se perdera por momentos nas duas compatriotas que respondiam com as suas totalidades às bondosas exigências do diretor. Também ele a elas se juntou, feliz por a sua vitalidade ser digna de tal sacrifício. Estefânia foi a sétima entre os catorze, e uma minusculamente aguda inveja sentiu ao induzir que a sua distração a implicava como mediana. Prontamente chegou ao seu lugar, onde aprendeu que o seu corpo tinha a forma perfeita para o recosto que lhe era destinado, e onde aprendeu também que a sua boa ação poderia saciar a fome do engolidor de lucros que pairava por detrás das suas metas de ofício.

Um sussurro permeava o ar, ululando nos catorze pares de ouvidos. Um por um se deixaram entorpecer pela doce melodia que os abalava como uma canção sobre um corpo almofadado. Estefânia encontrou-se nesse canto, adormecida das suas antigas intenções, afastada das suas ansiedades íntimas, despovoada das urgências que marcavam a sua pessoalidade. O término do primeiro dia foi sentido como o arrastar para fora de um paraíso primordial, um caldo de profunda unicidade, um despejo na desordem e no caos que é a vivencialidade. Chegada ao lar depositou as suas forças nos preparos para o retorno a essa fundacional civilização onde testemunhara o fado e, acamada, abandonou a consciência para novamente se erguer pronta para o ansiado regresso. Era a terceira quando retornou, um pouco mais vitoriosa que no dia anterior, um regresso poupado nas mordomias inaugurais. À sua espera a missão, o abençoado dever e a promessa que nele se formava. Com ela, como com os parceiros, assim foi daí em diante.

Três meses eram passados quando o primeiro soçobrou. A fadiga tomou-o quando a vital energia que dispensava com orgulho se mostrou insuficiente para alimentar o sussurro que vivia nesses corredores. Nesse dia os restantes sentiram alarme, mas depressa se restabeleceram da falha fraternal. Enquanto a melodia os encantasse não poderiam imaginar-se órfãos dela. O segundo ressentiu-se ao quinto mês, demitindo-se com a previsão quinzenal que a lei exigia. Fê-lo dançando com tristes penas, assegurando ser punição indicada pelos médicos para que pudesse restituir saúde ao corpo pelo sacrifício do espírito. Estefânia resistia, ainda alimentada pelas estonteantes vibrações. Deu de si quanto pôde para a mística presença que a acompanhava no dever, e o que deu mediu-se em vários quilogramas de humanidade. Sobreviveu aos onze que antes dela quebraram, a sua alma tão firme na glória do serviço, os olhos brilhantes com a aproximação do aniversário da expedição. Faltavam vinte dias quando um dia lhe faltaram as forças para se levantar, uma fraqueza que a encontrou desprevenida. Uma fraqueza que sentia como se duas pontas astiblancas a tivessem perpassado. Amou o dever, ler-se-ia numa coroa de flores.

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