Carolina
O grande auditório repletava-se de gente, entre estudantes e professores universitários, estudantes e professores não universitários que se chamam alunos e cetôres, investigadores universitários e de centros de investigação, investigadores sem essas filiações, chamados amadores ou conspiracionistas, políticos inscritos em partidos, políticos não inscritos em partidos que dão pelo nome de ativistas; e ainda poucos que se categorizam como outros interessados no assunto aos quais vulgarmente se apelida de gente. O debate ia confrontar duas pessoas com a mesma opinião sobre o assunto, uma vez que o debatente que traria uma opção diversa fora substituído por alguém que não apresentasse discordância, sendo o original falador aconselhado a não participar por ter a organização identificado um total de zero audientes interessados em ouvir opiniões diferentes da sua, e ainda menos pessoas disponíveis para mudar de posição. Carolina era uma dessas pessoas, mantendo-se firme que, estando marcadas no seu ingresso os caracteres F e 29, o seu lugar seria o vigésimo-nono da sexta fila e não se falava mais no assunto.
A questão sobre a qual se debruçavam era de
verdadeira importância, e mais que isso de extrema urgência, até porque se
sabia afetar toda a gente que ali estava e ainda mais um conjunto de pessoas
que ali não se encontravam, e por ser um problema civilizacional tinha mesmo
que ser resolvido o quanto antes porque de outra maneira toda uma série de
catástrofes se abateriam sobre a sociedade, e isto em palavra de cientista e
não de religioso, que nestas coisas nem sempre é diferente mas soa como se
assim fosse. Concordavam os oradores ser deveras inconveniente, postas estas
coisas todas umas em cima das outras, que a maioria das pessoas que sofria por
causa disto nem sequer ocorria sensibilizada para o assunto, imaginando que a
sua desgraçada se devia a coisas diversas que não a que eles apontavam, e
exprimiam igual comiseração pelos povos que ao longo da história e mesmo nesse
momento viviam sem ter resolvido esse importante desafio, conseguindo alguns
deles atingir o estado da felicidade, cuja origem se atribuía a algum grau de
estupidez por ser inverosímil ser alegre sem ter tratado disto numa câmara
legislativa. Por sorte ninguém presente ofereceu pontos de vista divergentes, o
que seria uma forma de insulto, quando não de maquiavelismo e falta de
carácter.
Carolina sabia que, porque assim lho tinham
transmitido e da mesma forma ela o repetia como um eco que não perde furor,
integrava essa parte da humanidade que tinha mudado o curso da história para
sempre. Era motivo de grande orgulho e peitosa inflamação, para ela e para
todos quantos encontravam dentro de si um pequeno anzol que os fazia
voluntários prisioneiros dessa pescaria. É boa emoção, essa de nos sentirmos
parte de algo que irremediavelmente mudou o curso da história, como se pode
demonstrar pela vulgaridade deste sentimento, sempre bem fundamentado em algo
que inegavelmente muda esse mesmo curso, coisa que encontramos na invenção da
escrita que permitiu às pessoas um dia poderem chatearem desconhecidos em redes
sociais; e também na invenção da roda sem a qual teria sido bastante mais
difícil coordenar as linhas de montagem onde se exploram trabalhadores
industriais; na invenção do estado de direito sem o qual o tratamento
diferenciado entre povo e elites teria que ser frontalmente assumido; na
invenção do motor de combustão sem o qual o planeta seria mais frio e
desagradável; a descoberta do caminho marítimo para a Índia que autorizou o
mundo a chamar índios a uma cambada de americanos; a construção do Titanic sem
o qual não haveriam êxitos de bilheteira no cinema, que ao fim de uns anos nos
fazem questionar o porquê de tanta euforia; a descoberta da torrada com a face
de cristo que permitiu a ateus por todo o mundo confirmar o que já se pensava
sobre os religiosos; a domesticação do
cavalo e do burro que permitiu a invenção da mula a qual por sua vez deu
origem a um insulto eficaz; a democratização do computador pessoal sem o qual a
redação de documentos a feitura de contas, a leitura de livros, a vistoria de
imagens e tantas outras coisas teriam pegadas ecológicas tímidas; a invenção do
deus único sem a qual sempre fora difícil perseguir qualquer pessoa pela sua
religião; o tamagochi que ensinou os progenitores que o pior que pode acontecer
quando se negligencia a educação e o cuidado de uma criança é esta tornar-se
mostruosa pelo que tudo vai bem e com um tablet nas mãos elas quase se educam
sozinhas; a invenção do papel sem o qual teríamos todos as mãos bem mais sujas
depois de evacuarmos das tripas algum cagar; a descoberta de que a terra está
no centro do universo e de que o sol está no centro do universo e de que o
centro do universo está noutro lado qualquer por tornarem evidente que a
ciência tem algum jeitinho a descobrir no que estamos errados, mas pouca ou
nenhuma capacidade para perceber em que estamos certos; a construção dos
foguetões espaciais que combinados com as ondas de rádio permitiram alertar
todas as espécies civilizadas do cosmo que esta era uma galáxia de gente que se
deve evitar; e muitas coisas mais para lá destas incluindo a vez em que no
Canadá um grego misturou ananás numa pizza, o que mudou a forma como a
humanidade encara os habitantes do Havai.
Concluíam os oradores que o melhor a fazer era
gerar muito barulho, e aliviar a população em geral da sua indolente felicidade
tornando esta matéria assunto que diz respeito a toda a gente, e que boa forma
de o fazer era escrever algo ao jeito de política, mas que não implicasse a
vontade do povo, por exemplo um manifesto. Carolina bateu palmas, não foi a
única, todos o fizeram menos os que estavam fora do auditório e não faziam
ideia do que ali se passava, salvo alguns aqui e ali que nesse mesmo momento
acabavam de cantar os parabéns a alguém que soprava umas velas. As palmas
desses não contam para o caso, embora um cientista social conseguisse
demonstrar que sim ao desenhar um gráfico de frequência de palmas por hora do
dia e depois apontando um pontinho e dizendo que naquele momento que acontecia
o debate e é só ver a quantidade de palmas que se registam pelo mundinho fora,
e sobretudo à sua superfície. E a lá de um manifesto fazia-se boa ideia também
inventar palavras de ordem e usá-las numa espécie de ritual qualquer, pois
assim sempre fizeram os religiosos e veja-se o que com isso alcançaram, que
havendo disciplina e organização na prática social é escusado ter ideias com
pés e cabeça. Então se propuseram logo umas coisas que chamam manifestações as
pessoas que as apreciam e protestos as que estão fartas delas e chatices os
polícias que têm que zelar pela ordem pública enquanto elas decorrem e
oportunidades os estudantes universitários e os outros que são só alunos por
com elas conseguirem dispensa de aula.
Carolina chegou satisfeita a casa, porque
tinha tido um serão bem aproveitado, e porque o Ezequiel tinha antes ido ao
cinema com uns amigos o que era uma perda de tempo, e assim ela podia sentir
que ainda bem que havia gente como ela no mundo que de outra forma viveríamos
na idade das trevas, ou na das cavernas, ou qualquer outra idade em que tudo
era pior mesmo que se pagassem menos impostos e houvessem menos depressões. O
Ezequiel não teria outra escolha senão tentar não desmoralizar pelo facto de
ter tido uma noite agradável em que fora reconfortar um casal de amigos que
sofrera recentemente uma tragédia pessoal, em vez de se ter preocupado com as
coisas que realmente interessam que são aquelas das quais se podem fazer poemas
que se inscrevem numa prancha de cartão e se passeiam pela Avenida da Liberdade
abaixo. E foram para a cama e não pensaram mais nisso porque amanhã tinham que
se levantar às sete, e embora isso fosse por razões diferentes, estas não
pareciam ter grande efeito na duração do sono de cada um. Ou no que iam tomar
de pequeno-almoço.