Dom Edilbertolino

D. Edilbertolino suspirava com mágoas do tamanho de uma pança real. Quanto mais leve sentia ser a coroa que lhe decorava a rala cabeleira, mais pesada lhe parecia a sua testa. Descobrira recentemente que a testa era pesadíssima. Isso fazia-o muito suspirar, como se as leves ejeções de ar bafiento ajudassem a propelir a cabeça para uma postura mais nobre, menos entenebrada. Como não surtia o efeito desejado, aos suspiros declarava um infeliz:

– Mas porquê?

e deixava-se cabisbaixar. Custava-lhe isto por ter sobre ele uma sombra invisível que até na penumbra lhe tapava a luz no corpo. Era lançada pela história gloriosa dos seus antecessores, que ele gostava de imaginar ser também a dos seus antepassados, embora desconfiasse que a linhagem real fora várias vezes redefinida para considerar legítimos um ou outro bastardo. Considerava até que era provável que uma vez por outra tenham os casais mais nobres apresentado como seus, os filhos de alguns dos seus caseiros, para ofuscar a sua impotência perante as cortes. D. Edilbertolino imaginava isto porque lhe parecia inverosímil que os seus filhos fossem os primeiros a cortar a aparente tradição genética.

Não era a linhagem que o perturbava. Era a glória, a força, a liderança. Espectros frígidos que saíam a todo o momento dos retratos, bustos ou objetos pessoais dos antigos reis, congeminados pelos ensinamentos dos tutores de Dom Edilbertolino com a nobre e amável missão de temperar o seu reinado colocando-o num estado de persistente depressão. Como poderia o sábio rei sentir algo que não vergonha, quando antes dele tanto poder tinha enlaçado o ceptro real que ele mantinha nos dedos flácidos? Talvez se não fosse sábio.

Ponderava-o e nos momentos mais difíceis chegava mesmo a acreditá-lo: que pudera ser mais feliz e robusto se alcançasse um nível adequado de estupidez. Mas cedo a sabedoria lhe tinha dado a volta à mioleira, e o regente nunca fora capaz de se desfazer dessa doença. Uma vez fora capaz de vislumbrar a cura, mas escapara-lhe. Tinha-a contemplado ali ao fundo, um pouco mais além, mas na altura não teve as forças para a perseguir. Estava demasiado febril. Haviam sido duas semanas perfeitas, não obstantes as dores no corpo, o desagrado em se alimentar de comida sem sabor, os suores frios, o ranho constante e as dores de garganta. Nunca antes ou depois conseguira sentir em si o imenso poder do seu cargo. Os diplomas que aprovara então tinham surtido efeito imediato. As ordens que dava eram devidamente cumpridas. Até a rainha, essa mulher com quem se obrigava a conviver para bem do povo, mesmo ela lhe parecera reconhecer nele uma autoridade ao nível da nobre casa de que ele fazia fé descender. Tão regal se sentiu nesse tempo que houve até quem o ouvisse a dizer a si próprio:

– E é bom que seja já, que este Reino é meu, caramba!

Por infortúnio, o físico da corte, esse imprestável que fizera pela sua autoestima tanto quanto uma galinha que choca uma pedra bem polida, descobrira forma de lhe remover a maleita do corpo. Foi processo muito elogiado pelos esbirros que tinha à sua volta, mas que infelizou o monarca por lhe devolver a temperatura do corpo à normalidade, restabelecendo o calor interno que tanto o fazia observar o que se passava à sua volta.

Com isto voltava o bom rei a sentir o sufoco que lhe amargara a juventude. Topara com ele primeiro numa chávena de café bem quente numa altura em que escasseara o açúcar. Passara as semanas anteriores a conspirar com os seus tutores e com alguns cortesãos, congeminando uma legislação capaz de inspirar algo semelhante a orgulho no farto peito do coroado que tratava por pai, embora em companhia a ele se referisse normalmente como senhor ou majestade. Decidira-se a deliberar sobre a ilegalidade de algo que o afrontava como imoral, embora fosse prática corrente da populaça, essa gente deseducada e incapaz de refrear as suas tendências menos nobres sem ajuda da vergasta pedagógica do bom governo. O resultado fora capaz de encantar as classes governantes. Era papel deveras completo, estipulando o desagrado que tal comportamento gerava nos espíritos mais sensíveis e delicados, considerando a toxicidade com que suavemente envenenava a sociedade civil, e incluía uma longa lista de punições, algumas de carácter mais didático, promovendo a reflexão nos pecadores, e outras de natureza mais castigante, para que nos casos de improvável reeducação ao menos se garantisse ao povo o justo sentimento de vingança. O decreto era de compreensão tal que especificava em função da mais completa ciência social serem os nobres aqueles que se poderiam reabilitar, reconhecendo à populaça a sua natural má índole. Fora um êxito e deixara o paizinho com aquela lágrima no canto do olho que só lhe vira quando em gaiato aprendera a educar os cães de caça pela fome e pela cana. Apenas o infante se impedira de regozijar. Após breves momentos de vitória, reparou serem mais visitadas que antes as traseiras dos ginásios, confirmando que a maioria dos visados, cujo maleitoso comportamento desvirtuava, ao invés de se socorrerem da nova lei para se improvar, descobriam como sustentar os seus crimes de formas inovadoras.

Esse pesar acompanhou D. Edilbertolino desde a infantância à coroação, nunca se dissolvendo, nem mesmo nos momentos deliciosos. Apenas o torpor mental da febre lhe oferecera algum resguardo do terrível sentimento, acamando-o para que não fosse capaz de saber a sua inutilidade, coisa que lhe era impossível quando se sentia capaz de olhar à volta. Foi um pesar que acompanhou o matrimónio, o crescimento dos filhos, várias composições de governos, e tudo o que mais fazia ao longo dos muitos anos que reinou. Agora, cadente, ocupava-o de antemão o firme cumprimento dos desejos da santa sé.

Deus havia falado, assim dizia quem em seu nome narrava. E na sua fala descrevia como a bondade do espírito se fazia com a maldade da carne, pelo que se recomendava qualquer tipo de política desagradável aos infiéis. Os sacerdotes reuniam-se para deliberar sobre as formas de arquitetar essa beatífica canalhice, concluindo pela expulsão dos não crentes ou pela sua forçada conversão. O monarca recebera essas ordens divinas com toda a genuína sinceridade que todos lhe conheciam, e passara meses a escrevinhar nova legislação. O reino, como sempre, tomava o seu trabalho como próximo da perfeição como um poema se aproxima da alma, e muita vitória celebravam desde que o tinha aprovado.

Apenas o monarca, somente ele, permanecia de estômago retorcente na sua solidão. Nas vezes que passeava entre os cortesãos, naquelas em que aparacionava em frente do povo para ser vivado, os olhos perscrutavam as multidões, procurando os indícios de crime que sabia viverem em transparência, cobrindo as auras da cidadania de crenças violantes. Um aperto de mãos com dedilhações especiais e místicas, um aceno de cabeça especial, uma mão dentro de um bolso abocanhando um objeto de devoção proibida, tudo isso via o soberano. Uma refeição especial num dia que deveria ser casual, ou a falta de refeição numa simples jornada, uma viagem que ocultava uma peregrinação, todas coisas que ludibriavam a lei mas que o regente encontrava sempre e em todos os lugares, pelo assolo que a sua presença instalava na sua ânsia. E por tudo isto ele dizia:

– Ai! Valha-me nosso senhor.

O que de pouco lhe valia, pois mesmo entre os que prezavam a límpida observância da boa fé tendiam a adorar outros ídolos, muitas vezes usando das mesmas palavras mas no feminino. Uns hereges sem o saber. Outros descrentes por convicção. E ali ele, solitário e legislante, fazedor de normas capazes apenas de conceber incumprimentos. Autor e promotor da sua reconhecível frouxidão.

D. Edilbertolino suspirava mágoas tão grandes que lhe rebentavam as costuras. A enxaqueca responsabilizava-lhe a cabeça na proporção inversa do poder que conhecia ter a trabalhada coroa que lhe guarnecia a calvície. No final da vida, tanta experiência acumulara que sentia precisar de suporte adicional para manter a cabeça erguida. Não tendo um, quedava-se suspirante, esperançoso na ingestão de algum patogénico mortal que o livrasse do estranho infortúnio que fora a sua parva vida. E repetindo, sempre repetindo, numa melodia de desesperação:

– Mas porquê?

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