Dilúvio
A arca não foi a primeira coisa que Noé fez.
Aliás, procurou adiar a sua construção tanto quanto pôde, visto que a
perspetiva sobre tudo quanto nela deveria armazenar lhe produzia as mais
tamanhas dores de cabeça que um profeta jamais sentiu. A primeira coisa que fez
foi, naturalmente, embebedar-se, que nada mais é que a solução verdadeiramente
humana para lidar com problemas insolúveis. A segunda coisa que fez foi
tornar-se um personagem de relevo social no que tocava a essa matéria. Publicou
alguns documentos sobre a grave subida do nível das águas e como esta derivava
em parte substancial e praticamente em exclusividade da ação humana,
recomendando que tipo de quotidianos virtuosos poderiam os homens e mulheres
adotar, forçando ainda os seus filhos e escravos às mesmas sensaboronas vidas,
de forma a evitar esse inevitável cenário catastrófico.
Por um bom par de décadas, Noé apresentou as
suas convictas declarações onde foi capaz: era omnipresente em quaisquer
congressos que se fizessem sobre temas apocalípticos, deu várias palestras e
participou em inúmeras conferências e, porque até era um tipo sensível, e
sobretudo porque se borrava a pensar no inferno, foi ainda a todas as escolas
que conseguiu, tentando dissuadir as crianças que constava não virem a ser
futuro de nada, pois apenas a sua prole estava em condições de futurar, a
alternarem as suas vidas deliciosas por existências insalubres para tentar
apaziguar uma mão divina que ele próprio demonstrava ser incapaz de mudar as
ideias. Nestes preparos foi cimentando a sua convicção de que nada poderia
evitar o fim que se aproximava, ao mesmo tempo que cristalizava a crença de que
se toda a gente abandonasse o deboche e se dedicasse a outras coisas menos
agradáveis tudo iria correr bem. Embora lhe escapasse a contradição, esta era
evidente a todos quantos o ouviam, pois à sua exceção não haviam então
quaisquer outros seres pós-modernos. E por isso às suas predições contestavam
uns que se nada haveria a fazer porque raio haveriam de abandonar os poucos
prazeres que a vida lhes proporcionava, e diziam outros que já que tudo ia pelo
cano abaixo mais valia fazer da vida que sobrava uma festa de arrombo. Estas
respostas deixavam Noé sempre em estado de grande irritação, porque embora
sabendo que se lixavam a eles e não o levavam atrás, era do tipo que se sentia
importante quando tinha seguidores, e a falta destes causava-lhe exasperação.
Um dia disse-lhe a mulher, que era dele, algo
que ele podia provar pois tinha consigo os papéis da aquisição caso o metal
enrolado no dedo não fosse prova suficiente, que não era de espantar que pouca
gente lhe desse ouvidos, quando ele oferecia uma suada esperança envolvida numa
capa de inquestionável desespero, para mais era a sua fonte de informação uma
voz do além que lhe aparecia sem deixar testemunho, dando azo a alguma
desconfiança. A isto Noé respondeu com uma chapada na cara, que naquele tempo
era a forma dos homens dizerem às mulheres que discordavam delas, e depois
convenceu-se que toda a perdição que afirmava era bem demonstrada com factos e
modelos sofisticados, e que aos incapazes de entender a sua científica
documentação, restava a fé, o que até era preferível, pois nunca se deu
conhecer que uma montanha fosse movida por raciocínios.
Sozinho ia fazendo a sua oposição, violentando
as delícias que banhavam os dias dos seus vizinhos com as suas mensagens de
declínio de expiração. Tudo irá terminar em baixo de água, dizia ele, enquanto
tentava fazer crer que colocar aquele pedacinho de papel num caixote de lixo, e
aquele pedaço de vidro noutro, seriam ações tão poderosas que poderiam travar o
braço do senhor. Os mais espertos entre os vizinhos não se deixavam convencer, Vai
mas é trabalhar seu preguiçoso, gritavam eles quando Noé vinha com as suas
cantigas, e pelas costas gozavam que o senhor doutor só arranjava desculpas
para não sujar as mãos. Até as sujava, pensava Noé, Se não estivesse tão
preocupado em salvar toda esta gente, Que gajo porreiro que sou, e assim se
convencia a tentar palrar mais um dia, aqueles madeiros não iriam a lado
nenhum. Sem perguntava ao pai se não era melhor ir ver o médico, até a ele essa
história parecia cravejada de palpitadas suspeições, um ator divino que fica à
espera que se monte uma barcaça é coisa que não se costuma ver, e Noé deu-lhe
duas semanas de fome e castigo, que era como nesse tempo se educavam os filhos,
para que Sem aprendesse a duvidar apenas às escondidas, e nesse compasso
continuou fazendo a sua sensibilização.
Tão sensíveis ficaram algumas tribos que em
tudo se emendaram, fazendo novas éticas e produzindo límpidas economias e,
quando o profeta os revisitou, lhe mostraram tudo e lhe disseram, Vede profeta
como mudámos nossas maneiras. E Noé olhou para aquilo e ficou deveras comovido,
tanta gente, para cima de trezentos, todos dançando ao ritmo da sua pulsação,
que bonito e que inspirador. E disseram os populares, Abençoado profeta que nos
livraste do pecado e assim da tragédia, e Noé então relembrou que a tragédia
não se evita, isto de mudanças climáticas quando se começam a dar ninguém as para,
e eles levaram as mãos às cabeças e perguntaram que iria ser deles todos, e o
profeta lá declamou novamente os horrores que sofreriam, e dos trezentos desse
clã, quase dois mantiveram essa irrepreensível conduta depois desse episódio.
Dos outros pouco se sabe, mas ao ritmo que faziam filhos deviam estar a gozar
bem o tempo que tinham.
Quanto mais pregava maior desespero entoava
Noé, até que apenas o vinham ouvir aqueles que sofriam de algum tipo de
problema mental, o que era mais que comum nesses tempos em que se não havia
inventado a psicologia, havendo apenas o recurso à meditação e essa não era
então menos aborrecida que hoje. Os que nunca tinham batido com a cabeça
aprenderam a conviver com a situação, aceitando que Noé era um excêntrico
apalermado que não valia a pena atacar, mas ao qual também não convinha dar
ouvidos já que a sua missão era infernizar em vez de educar.
Só então Noé se pôs a construir a sua arca e, seguindo as medidas e instruções que recebera em visões, fez uma coisa tão espetacular, que completamente se maravilhou. Se nela enclausurou casais de animais, não se pode saber, mas o que é certo é que não foi ele o único a sobreviver aquelas aguadas. E dos que continuaram a viver, era ele o que tinha mais calos inúteis nas mãos.