Mensagens

A mostrar mensagens de agosto, 2022

O contabilista da igreja

O dedo apontava um canto do caderninho onde uma diminuta pista enunciava a solução do exercício. Assim é com todo o exercício, dizia aos aprendizes, porque os professores teimam em os organizar como adivinhas de sala de aula: nas palavras do enunciado sempre se escondem os ingredientes para as contas que se devem fazer. Por isso a boa leitura, grávida de interpretação, era a mais fundamental competência matemática. A menina seguia com os olhos o dedo explicante, e em segundos o jovem cérebro sofria uma deliciosa descarga elétrica, sinal de que o caminho para a solução se desenhava dentro do espírito. O tutor sorria. Apreciara sempre assistir ao momento da revelação, a mais espiritual das experiências. Como se uma mata grossa se desembrulhasse, revelando uma alameda larga onde a luz do sol rasgava sombras folhosas pelo chão. De resto bastava caminhar esse trilho, enterrando os números no papel com a ponta do lápis, tatuando o mapa dessa viagem numérica pela esbranquiçada teia de madeira...

Cristóvão

O sacerdote sentava-se sobre as pernas cruzadas. Precisaria de uma posição de desconforto controlado para a minuciosa operação. Preparava-se rebuscando os lábios com a ponta da língua, o cenho ondulado, os olhos cativados na instrução que se revelava num além imaterial, as impressões digitais esfregando-se umas nas outras, fiéis a cada uma das mãos. Então, com a celeridade de um monge, levou as duas manoplas à minúscula almofada púrpura com bordados em ouro, pegando no fino artifício de metal que sobre ela repousava, erguendo a mínima agulha como se de um sabre se tratasse, o indicador e polegar da mão direita fechados sobre o furo, o indicador esquerdo estendido em suporte por debaixo do instrumento, imediatamente atrás da ponta. Orava. Dentro de si todo ele era oração, encomendando ao seu criador a bravura que necessitaria para lancetar o seu desafio, implorando à pomba sem cor que o insuflasse da magia própria para o exercício, pedinchando ao filho que com ele partilhasse o seu do...

Papas

Novamente puré. A mãe sempre encomendava um puré, do mais rapidamente instantâneo que conseguia encontrar, das vezes que um dos traquinas aprontava das suas. Assim era nessa tarde, quando a escola lhe telefonava para o emprego, fazendo-a passar nova vergonha, os colegas olhando em misto de gozo e pena. Ela logo telefonava ao marido, avisando que novamente seria batata murcha no prato. Era o melhor castigo que conseguia executar. Tão bom era, que castigava mais as crias que a ela. Por vezes ponderava outros castigos, mas todos esses tinham por princípio angustiá-la, e ela não compreendia porque deveria sofrer pelos erros dos outros. Seria por andar mulher? Os castigos normais pintavam-se de tendências machistas. Ninguém piava durante a refeição. Os progenitores ignoravam a prole, oferecendo toda a atenção ao televisor. A desatenção era complemento do puré. Como molho seco para tornar a mastigação mais amarela ainda. As crianças lutavam com a colher cheia da massa amidosa, infelizes pe...

Código

Alexandra entrava na aula de código em atraso, e em atraso ficou por ser a sua primeira sessão e ter perdido – coisa difícil de se fazer essa de perder o que se não tem mas de que são exemplares na sua feitura os que são estudantes – os advertimentos que lhe davam introdução. Encontra uma cadeira desocupada de gente como quem encontra uma clareira no meio do mato, suficientemente enrolada em verdejar para que a sua presença rosada se não veja, e começa por fazer como fazem as crianças, antes mesmo de saberem soletrar, que olhando discretas os mais experientes, inventam de os copiar na tentativa do erro que eventualmente produz uma macaquice que passe por aprendizagem. Em metade dos compatriotas que com ela se puniam, encontrou olhos rebolantes que pareciam procurar algo no topo das suas cavidades, na outra metade viu a beatitude de almas que de tanto entusiasmo, pareciam querer fugir ao corpo em suspiros de comunhão. De frente, uma pessoa caminhava sem passo, deambulando por uma qual...

O mestre detetive

O detetive saía na paragem do autocarro e dirigia-se à cena do crime. Atrás de si vinha o fiel companheiro, o que fazia as vezes de bruto repórter dos seus feitos para que a comparação o tornasse ainda mais grande. Ou até mesmo maior. O detetive penetrava a multidão que se desfazia em gemidos e suspiros por se encontrar junto de tão célebre presença, e sem ligar nada a ninguém dirigia-se autisticamente ao cadáver. Os agentes da autoridade davam-lhe espaço de respiração, por crerem ser esse o regular procedimento da sua profissão quando uma vedeta sem crachá se intrometia nos seus afazeres. Estudou a cena por breves instantes, chupando os dedinhos até estes ficarem tão lambuzados como os beiços que trazia à volta da boca. Quando terminou, registou: – Certamente um suicídio. Os policiais à sua volta tinham concluído o mesmo ainda antes dele o dizer, mas deixavam-se na mesma maravilhar pelo impressionante dote do investigador. Aliás, tinham chegado a essa conclusão assim que a esquadr...

Mensagens populares deste blogue

Liberdade

Mimosa

Boa vontade