O contabilista da igreja
O dedo apontava um canto do caderninho onde uma diminuta pista enunciava a solução do exercício. Assim é com todo o exercício, dizia aos aprendizes, porque os professores teimam em os organizar como adivinhas de sala de aula: nas palavras do enunciado sempre se escondem os ingredientes para as contas que se devem fazer. Por isso a boa leitura, grávida de interpretação, era a mais fundamental competência matemática. A menina seguia com os olhos o dedo explicante, e em segundos o jovem cérebro sofria uma deliciosa descarga elétrica, sinal de que o caminho para a solução se desenhava dentro do espírito. O tutor sorria. Apreciara sempre assistir ao momento da revelação, a mais espiritual das experiências. Como se uma mata grossa se desembrulhasse, revelando uma alameda larga onde a luz do sol rasgava sombras folhosas pelo chão. De resto bastava caminhar esse trilho, enterrando os números no papel com a ponta do lápis, tatuando o mapa dessa viagem numérica pela esbranquiçada teia de madeira...