O contabilista da igreja
O dedo apontava um canto do caderninho onde uma diminuta pista enunciava a solução do exercício. Assim é com todo o exercício, dizia aos aprendizes, porque os professores teimam em os organizar como adivinhas de sala de aula: nas palavras do enunciado sempre se escondem os ingredientes para as contas que se devem fazer. Por isso a boa leitura, grávida de interpretação, era a mais fundamental competência matemática. A menina seguia com os olhos o dedo explicante, e em segundos o jovem cérebro sofria uma deliciosa descarga elétrica, sinal de que o caminho para a solução se desenhava dentro do espírito. O tutor sorria. Apreciara sempre assistir ao momento da revelação, a mais espiritual das experiências. Como se uma mata grossa se desembrulhasse, revelando uma alameda larga onde a luz do sol rasgava sombras folhosas pelo chão. De resto bastava caminhar esse trilho, enterrando os números no papel com a ponta do lápis, tatuando o mapa dessa viagem numérica pela esbranquiçada teia de madeira. Esse era o momento que o fazia feliz.
Fazia da mesa de
canto na associação recreativa o seu espaço para a solidariedade social, o
lugar onde as crianças da povoação sabiam poder encontrar o seu gentil e
cuidadoso amparo, quando as aritméticas os assombravam. E se para os associados
se tratava de voluntarismo social, para ele aqueles momentos eram terapia, o
trabalho que lhe permitia reencontrar-se consigo, redescobrir-se humano. Uma
purga que o aliviava dos maus humores que ao longo do dia se acumulavam na sua espalda,
como que traças atraídas por uma qualquer luz que lhe fosse interior.
Eram assim os
dias do contabilista da igreja: começava com uma qualquer reunião, em que os
cargos intermédios da instituição se deleitavam em reuniões intermináveis nas
quais se arrogavam as virtudes que protelavam e das quais imaginavam serem
feitas as alminhas mais nobres, enquanto recusavam sem modéstia conter em si
quaisquer dos vícios ou pecadilhos que consomem os elementos dos seus rebanhos;
logo em seguida pediam que ele mostrasse os relatórios de contas, pois que ser
missionário não exonera ninguém das contas que há para pagar, ademais merece
gente tão boa viver com algumas mordomias, mais faltasse que vivessem os
pecadores com maiores alegrias que os santos; depois seguiam para vender as
suas missas e sacramentos por preços bem tabelados aos quais juntavam as
dádivas que pediam com todo o carinho e simpatia aos seus congregantes,
enquanto ele voltava para o seu sacro ofício de listar em tabelas as receitas e
despesas da paróquia, sentindo em cada tecla que premia como se esvaía o
argênteo do bolso dos mais pobres e escorria convergente para as contas da
opulenta sé, uma ironia sem graça pois nunca fez o senhor deus agraciá-la da
caridade pelos fracos e virtude do despojo que pregavam.
Diligentava esses
saldos o bom funcionário, como quem faz a guarda do cofre de deus. Não seria
por sua culpa que o franchise que Pedro tinha instalado na terra iria dar
desfalque. Até porque sabia os muitos feitos solidários e compaixonados dessa
cadeia pelo mundo fora, notícias que recebia em cadência semanária pela sagrada
newsletter que lhe saltava para a caixa de correio informático. Seria magro o
seu contributo, mas também o eram os dividendos que saíam da caixa de esmolas
para o seu bolso. Por vezes soavam no ar promessas de aumento, mas ele recusava
sem cerimónia: o sobrante que se distribuísse pelos mais necessitados. E devia
sê-lo, presumia, porque o tanto que entrava teimava igualmente em sair. Nem
sempre para os mais necessitados, mas que podia ele dizer disso? A sua língua
era a dos números. Apenas os sacerdotes compreendiam o que deus lá dedilhava
nessas linhas retorcidas por onde escrevinha.
Valia-lhe então o
que dava dele mesmo à comunidade. E dava-lhe aquilo que de melhor tinha, que
era o seu tempo de vida, porque assim pensava que o seu tempo de vida lhe fora
oferta direta do celeste, sendo por isso o mais valioso que tinha ele mesmo a
oferecer a qualquer outro dos seus irmãos. E aditava ao tempo a sua atenção e
carinho, porque soava na sua estética fazerem estes boa combinação. Então
seguia todo o final de jorna para o centro, ocupava a sua mesinha, e esperava
paroquianos a quem pudesse servir. Sempre haveria por ali alguém a quem as
contas faziam tribulação. Algum conforto a essas almas podia ele providenciar.
Haviam já três, dos que haviam comido do seu tempo e bebido da sua atenção, que
chegaram às portas da faculdade com o auxílio dessa comunhão. Ele estremecia
quando voltavam e o agradeciam, pois isso insuflava nele um orgulho pouco
religioso. Mas a sua melhor consciência lembrava-lhe que não devia ceder a esse
sentimento, que antes haveria de se comprazer pelo sucesso desses jovens.
Outros nove continuavam a frequentá-lo, ele amparando com delicadeza os medos
que os numerais lhes incutiam. Também eles haveriam de lograr, pensava, pois
sobre eles recaía a mesma graça divina.
Um dia aconteceu
estarem os apóstolos distraídos, e ocorrer alguma espécie de perfídia na
paróquia. Não se pode saber bem qual, visto nenhuma das eminências da santa
instituição ter prestado atenção, mas diziam os queixosos ter-se tratado de
horrores sexuais com algumas das crianças da povoação. Quando disto soube, deus
estremeceu, que é o que faz sempre que sabe destas coisas, porque elas levantam
no seu espírito a possibilidade de ter estragado a omnisciência. E como das
outras vezes, pediu de imediato ao filho e aos apóstolos para fazerem uma
manutenção à dita cuja, não vão começar a haver boatos por aí. O espírito santo
não costuma participar nestas auditorias à sabedoria total do criador, porque o
que tem a mais de inteligência emocional compensa o que lhe escasseia de
raciocínio. Seja como for, puderam os párocos constatar que seria desagradável
rolar suas cabeças em tal situação, sobretudo quando a do contabilista se
apresentava tão perfeitamente redonda que faria esse serviço bem melhor. Deram
em transmitir essa tragédia aos populares, ao mesmo tempo que distribuíam o
evangelho da sua inocência. E como sempre era escuro quando tal ocorria, diziam
os pequenos inocentes que talvez fosse assim, não podiam ver muito bem, mas que
o bafo cheirava ao padre, isso sim. E respondia o padre que juntava insulto à
injúria o contabilista, que abusava das crianças e ainda roubava o sangue de
cristo para se passar por ele. O contabilista comentava apenas que passava
muito do seu tempo com aquelas crianças, e muito lhe aprazia quanto dele lhes
dava, e ainda que nenhum mal lhes desejava mas apenas amores. As crianças
choravam, sem saber bem que fazer, e com os instintos dizendo umas coisas e os
adultos dizendo outras seguiram os ensinamentos dos mais velhos, mas não de
todos porque para servir a maioria se havia de desconsiderar o que dizia quem
mais lhes tinha ensinado. Quando se acabou de fazer a vistoria, deus calçou de novo
a omniconsciência e foi bem a tempo porque lhe deu testemunhar que não foi
necessário juiz nem polícia, um monte de pedras de calçada foi quanto bastou
para se resolver aquele assunto. O santo pai confirmou que tinha o filho à
direita, que nestas coisas já se sabe, o rapaz às vezes gosta de se passear na
terra para ir sofrer mais um pouco, mas de facto não era ele. O filho olhava de
soslaio, porque já antes tinha encontrado bastardos do pai por aí, e este tinha
todo o aspeto de ser mais um. O contabilista chegou ao céu e logo entristeceu.
Descobriu que afinal a matemática e a ciência eram apenas superstições.