Código

Alexandra entrava na aula de código em atraso, e em atraso ficou por ser a sua primeira sessão e ter perdido – coisa difícil de se fazer essa de perder o que se não tem mas de que são exemplares na sua feitura os que são estudantes – os advertimentos que lhe davam introdução. Encontra uma cadeira desocupada de gente como quem encontra uma clareira no meio do mato, suficientemente enrolada em verdejar para que a sua presença rosada se não veja, e começa por fazer como fazem as crianças, antes mesmo de saberem soletrar, que olhando discretas os mais experientes, inventam de os copiar na tentativa do erro que eventualmente produz uma macaquice que passe por aprendizagem. Em metade dos compatriotas que com ela se puniam, encontrou olhos rebolantes que pareciam procurar algo no topo das suas cavidades, na outra metade viu a beatitude de almas que de tanto entusiasmo, pareciam querer fugir ao corpo em suspiros de comunhão.

De frente, uma pessoa caminhava sem passo, deambulando por uma qualquer liturgia com a qual floreava o assunto que tratava, ilustrado pelo cenário atrás de si, coberto de emblemas de cores vivas e simples, cópias bem estudadas da simbologia que se vê na estrada, os círculos, triângulos e quadrados inventando geometrias civilizadoras. A figura esbracejava como um nadador, possível resultado de uma empenada carreira de mimo ou de ator, complementada por serviços falhos de criatividade mas recheados de salário. Com os membros vai fazendo algo que parece uma caricatura dos ponteiros do relógio, oferecendo horários erráticos, descompassados. Era, afinal, de policiamento que tratava, ecos de um tempo em que se fazia dos guardas semáforos, contribuindo para descentes taxas de obesidade na população policial. Agora, substituídos pelas iluminações, resta-lhes apenas engordar.

Corre então a matéria física, a importância do que inventara Newton para a regulamentação civil: são pesos, volumes, cada veículo tem os seus e sobre estes acrescenta os que transporta, e destes todos se juntam em grupos nos quais sendo desiguais lhes desconsideramos a individualidade, oferecendo-lhes uma simples letra à laia de identidade, que isso de nomes é coisa de gente com privilégio, e não de simples caixas com motor que servem as necessidades de quem as utiliza para seu benefício. Dá-se à letra ser em maiúscula, para satisfazer a vontade dos que menos se estimam, que muitos há que se felicitam por serem parte de tal letra, preferindo-a a que os tratem por nome próprio. Passam assim na portagem da autoestrada, encantados por ver no pequeno mostrador Categoria 2 ou Classe B e sorrindo dizem «Olha lá, até sabem quem eu sou!».

E daí segue para a fluidez dos corpos, das velocidades a que os pesos metálicos se deslocam, e das quantidades de espiritualidade que correm pelas canalizações dos seus condutores. Todas estas coisas bem firmadas e estudadas, e sempre se agrupando em números redondos, por ser natural que o cosmos tenda para a aproximação, não sendo de estranhar que tenha um qualquer científico, andando com a sua bata muito branca, medindo várias velocidades até descobrir que aqui mesmo nesta curva até cinquenta funciona sempre, cinquenta e um já é problema que logo causa acidentes e mortandades. E por tanto estimarem esses doutores, ajudam como podem os que são das leis, que sabendo ser coisa perigosa que viaje aquilo a cento e vinte e um, logo lhe botam o rótulo de crime, conferem com o contabilista qual o preço do bilhete apropriado, e garantem por artes legais a salvação do povo. Alexandra apontava num caderninho socorrido por um lápis, não fora enganar-se, e assim sempre dava para apagar sem deixar tudo riscado, todos estes números, um de cada vez, em alinhadas colunas, sortuda que são todos eles fáceis de desenhar, sempre zerados no término, grande pena que assim não seja no velocímetro que além destes tem todas as outras unidades que servem apenas para complicar, e os malditos álcoois que no sangue até passeiam em decimais.

Tudo isto explicava bem quem dirigia a sessão, que ensinava cobrindo o ensinamento com um manto de fé, dispondo os petizes a recordar coisas que não houveram, ter certezas de caminhos desconhecidos, e confiar estarem coisas em certos sítios sem delas haver facto, enfim, todas emoções que sempre sucedem um discurso cheio de ética convicção. Agora aponta aquele sinalzinho, é um rotundo escarlate, cortado por um travessão sem cor, e dele se informa e educa, apelando à sensibilidade, que é coisa de mui boa feitura por assim informar que por aí é má ideia, e alarme importante é este que tanta gente por aí caminha com a pele recheada de pecados, que mais indecências têm ganas de fazer por lhe sortirem de nascença maus hábitos como o desejar ir bem por ali, e vem a bela plaquinha e assim separa bonzinhos de vilões como o trigo se separa do joio, mais por artes morais que por engenharias agrícolas. E após este se mostra um outro e deste maior importância se dá, pois sendo um triângulo que aponta os infernos, feito que está de lábios pintados de cores obscenas, anota haverem nas terras que se passeiam uns que mais prioridade têm sobre outros, e sorte ter alguém lembrado de inventar tal bandeira, por ser destino que haja gente malvada, a qual em saber ter de esperar a vez que é sua, se lança em frente como se fora bem-nascida, ainda bem que inventaram esta geometria, que sem leis de homens nem sempre pode a natura funcionar correta. E vai dizendo isto e repara Alexandra que nada que a contorna esteja tomando apontamento, que uma metade se lança no encantamento e chora de comovida por haver gente de tamanha previdência que assista às bondades na vida, e faz a outra metade irritações por não estar em crer que vale a pena moralizar o código das estradas.

Fora assim a sua primeira aula, e depois as seguintes, fazendo-se ela aprender melhor desde que abandonou o caderninho, que a catequese se aprende a rezar e copiando gestos, rimas e emoções, não é a fé coisa de estudo e razão mas de hábito e repetição. Tanto repetiu que o exame bem correu, foi sorte que era de cruzinha, pois se fosse dado a prosear na resposta deixaria ali boas franquezas acerca desse hipotético que teimava em prevaricar, ele há gente que nem posso, é por causa desses que anda o mundo assim tão cheio de amarguras. E de paz fez a guiação, rapariga serena que era, em apenas dois momentos lhe pendeu para um atropelamento que poderia ter custado a guia, mas foi o bom examinador concordar que aquele ali estava a pedi-las, já se sabe ser crime coisa feita por criminosos e beatitude a coisa feita por beatos, foi profissão de fé aquele homicídio, foi sim senhor, gente boa não faz coisa má, estamos conversados. E concordou o juiz ao reconhecer, porque assim foi declarado com convicção, que fez sentir isto e aquilo o que é prova que basta, que era o finado um ilegante, ora até tinha ideias diferentes das nossas. 

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