Papas
Novamente puré. A mãe sempre encomendava um puré, do mais rapidamente instantâneo que conseguia encontrar, das vezes que um dos traquinas aprontava das suas. Assim era nessa tarde, quando a escola lhe telefonava para o emprego, fazendo-a passar nova vergonha, os colegas olhando em misto de gozo e pena. Ela logo telefonava ao marido, avisando que novamente seria batata murcha no prato. Era o melhor castigo que conseguia executar. Tão bom era, que castigava mais as crias que a ela. Por vezes ponderava outros castigos, mas todos esses tinham por princípio angustiá-la, e ela não compreendia porque deveria sofrer pelos erros dos outros. Seria por andar mulher? Os castigos normais pintavam-se de tendências machistas.
Ninguém piava durante a refeição. Os
progenitores ignoravam a prole, oferecendo toda a atenção ao televisor. A
desatenção era complemento do puré. Como molho seco para tornar a mastigação
mais amarela ainda. As crianças lutavam com a colher cheia da massa amidosa,
infelizes pela ausência de carcaça oleosa em volta de cada dedo de pasta. Só
lhes valia a programação, onde podiam assistir a misérias mais miseráveis que
as suas, o que lhes recompunha algum ânimo.
O pai, que normalmente insoprava o alimento,
estava descaracteristicamente lerdo. As imagens flutuantes e a melodia ansiosa
dos repórteres tomavam toda a sua atenção. No meio das poeiras, na ausência de
esverdeados, multidões arrastavam-se como que em punitiva peregrinação.
Caravanavam para longe das suas terras, virando costas ao mundo que amavam,
seguindo a passos desconsolados uma qualquer promessa que aceitavam como
substituta da esperança. Os repórteres narravam a cena com a aptidão de um
comentador desportivo, descobrindo, no lento e uniforme ondular humano, uma
série de peripécias dignas de novelização. A que estava no local conseguia
transmitir bem o misto de compadecimento e inquietação que aquela dormente
turba despertava. O apresentador em estúdio, mais polido e controlado, fazia um
esforço para ensaiar as emoções que a audiência deveria sentir quanto ao
assunto, trabalho pesado, visto estarem tão afastados da situação quanto ele
próprio.
Nenhuma das muitas pieguices cantaroladas
conseguia enternecer o coração do chefe de família. De qualquer modo era o pior
momento para o fazer, não fosse estar ele a sofrer uma ceia pastosa como se
houvesse conspirado com as criaturas que despreocupadamente gerara, assim
merecendo igual sentença. Mas sabia ele que no fundo a sua simpatia não seria
maior caso a boa disposição se tivesse instalado no armazém de ideias de que a
longa testa fazia fachada. Crescera com refeições em família, com os pais e
avós a laurearem cantos sobre a grandeza dos antepassados, e tanta cantiga
levara que aprendera a ter especial orgulho dos grandes conquistadores que o
tinham precedido. Sabia ele ter pelo menos três antepassados, cada um vivido em
séculos desgarrados, e por sete vezes quando miúdo deixara-se questionar se
teria na realidade muito mais que esses três, o que seria notícia trágica por
demonstrar ser mais descendente de gente medíocre que de gente grande. Por
sorte não sofria tais inquietudes desde a puberdade, podendo ser feliz e
satisfeito da sua longa e forte alquebrada linhagem.
– Canalha esperta! – comentava ele – Fazer
fingir desgraça para fintar corações. Já vi disso tudo. Era recambiá-los todos,
lá prá terra deles!
Enquanto cuspia essas barbaridades reimaginava
a grandeza dos seus antecedentes genéticos. Pensava no muito antigo Dom
Alfonseto que, apesar de ter tristemente aprendido a verbalizar em hispânico,
tinha sido um soldado corajoso, determinado a dedicar uma parcela da sua
existência a desterrar moçárabes que viviam as suas existências pasmadas nas
margens do Tejo, fazendo boa fortuna a reclamar para si as terras que ele e os
outros nobres que com ele peregrinavam diziam batizar. Pensava no ainda mais
remoto Al-Mafamude, grande varão da sua linhagem, que tinha desistido de ter as
vistas apoquentadas pelas areias esvoaçantes do norte africano, e feito da sua
vida missão de limpeza das etnias góticas que se espalhavam pelas vertentes do
Sado e com elas disseminando esse mau hábito de eleger regentes em vez de os
admitir por linhagem de sangue. E com muito carinho pensava em Joanes, ilustre
antepassado que tinha certa vez falado mal de Vasco da Gama sem perceber que
este estava atrás de si, passando boa parte dos anos seguintes a fomentar a
lusitanidade em locais de infeliz selvajaria. E quanto mais pensava nestes seus
importantes antepassados, mais crescia em si o temor daquela turba que via em
combativa excursão como se uma bússola os convidasse a seguir na direção dele.
Bem diferente respondia a estes tremores a
pobre mãe. Era de linhagem de mulheres santas, das que se elevam na conversa e
se desprezam na ação, gente que sabe bem o seu lugar e tem honra em nunca pisar
riscos. Por ser dessa raça de extrema pieguice, sofria o sofrer de todos, tanto
que se tornava o dela o maior sofrer. Fazia como podia para se resguardar das
maleitas dos demais por pressentir que a desgraça alheia lhe causava toda a
sorte de infortúnios que davam a um espírito indelicado a impressão de ser
casto. Era-lhe deveras custoso testemunhar uma turba tão faltosa em graças,
ainda para mais num dia em que já estava atormentada pelos pecados seus que lhe
retornavam à consciência assim que descobrira a prevaricações dos filhos.
– 'Tadinhos, não é? A viver no meio daquela
guerra toda, daquela fome, daquela miséria. O que precisam é mesmo de umas boas
férias daquilo tudo.
Suspirava a boa senhora todas estas santas
mágoas pela imensa caridade que lhe escorria dos peitos, lembrando-se da
grandura que crescera ouvindo dizer das fêmeas que antecediam a sua prole.
Recordava como a avó, sempre serena, contava da Dona Lurdes, doce e afável
senhora de boa casta. Era esta tão branca e alva que até se dizia ser bonita, e
ficava conhecida pelos servicinhos que mandava a criadagem fazer em serviço aos
pobres que mal podiam pagar os tributos que lhe deviam sem alguma pancada no
lombo. E lembrava as ceias calmas com a mãezinha, que lhe narrava a antepassada
Joaquina, senhora de tão bom porte e tanta virtude, que se comovia da desgraça
alheia ao ponto de nela pensar. Sete poeminhas terá ela escrito, cada um
falando dos sentimentos que lhe acorriam ao pensar em tais maleitas, e que em
gesto caridoso ousou depositar na biblioteca local por pouca remuneração.
Deixara essa literatura ao dispor desses pobres analfabetos, para que lhes
pudesse dar as palavras de sofrer que a sua ignorância lhes negava. E
rememorava ainda, quando visitava a tia Catarina no seu humilde palacete em
Mafra, o grande quadro onde se via a piedosa fronte da Dona Gusmana, mulher de
tão meigas emoções que sempre chorava de dor quando um dos servos era
castigado. Haviam sido mulheres de outra tradição, muito dadas a amar e a dar
as ajudas que podiam aos que delas necessitavam, coisa que faziam com toda a
atenção, pois lhes calhara a sorte de terem nascido nesses tempos antes de os
burgueses inventarem de pôr a mulher no trabalho como ao homem, coisa triste
que tanto minorou a quantidade de bondades feitas por senhoras nos dias de
semana.
Falhos destas lições eram os dois filhos. Tão
ausentes lhes eram esses ensinamentos, que julgavam eles ter de dinastia apenas
os pais e aquela tia que vez por outra trazia um chocolate, ou a avó que todo o
santíssimo natal fazia por oferendar roupa interior. O mais velho olhava as
imagens como quem via o que se passa do lado estrangeiro da janela, apalermado
por se dar a ver tanta gente como só viria a conhecer um dia ao ir a um
festival. E parecia que na reportagem via mais povo ainda, e duvida-se que
tenham pago ingresso, assim se deduz pelo ar de asco do jornalista, mas são
isso coisas em que o rapaz ainda não pensa, por achar que a economia funciona
na base de querenças informadas aos pais. E quando o jornalista se aproxima de
um dos viajantes, vê um homem de ar abatido, sujo de terras e areias, o corpo desengonçado
como se sobre a roupa tivesse vestido um imenso cansaço. Abre a boca o homem e
por debaixo dele nascem letras brancas sobre a imagem, como se fosse aquilo
tudo um filme. Estranhou tal coisa o rapaz, pois logo o viu imaginou que fosse
dizer coisas do tempo, que ia chover ou fazia calores, de tanto parecer o homem
com o jardineiro que lhe servia o lar, ser único que conhecera com tanta
sujidade e ainda mais falta de descanso.
– Olha lá naquele. Parece o Miguel. Como se
fosse um Miguel em outra língua. Como se a língua fizesse mudar gentes.
Coisa diferente via o mais novo, que era em um
ano, que os três são saltos de quem espera um ser autónomo para ter menos
trabalho, e o um se reserva aos que têm cuidados a menos, ou amas e governantas
a mais, que era o seu caso. Mais sensível como a figura materna, deixava-se
emocionar com os quadros que surgiam na televisão, as agruras e dificuldades, e
certamente estava ali grande quantidade de bolhas nos pés, uma pena que não
mostrava isso a televisão. E era tamanha a fome, assim sabia o pequeno, que já
sabia ser costume e princípio de boa gente falar de fomes quando se tratava de
discutir infelizes. E sabia porquê, porque a fome era essa coisa desagradável
que se dá quando se pede à mãe uma gulodice mas se portou mal então se fica
privado dela. É coisa desagradável. Quase no desagrado da altura em que o
sofria o pobre menino, que não menino pobre, era um pobre menino como são ricos
meninos os meninos que não são ricos, cada um encontra riqueza e pobreza onde
pode, por ver toda essa gente em paragens de tantas cores. E nisso pensando
rematou:
– Noutro dia eu na escola fiz excursão assim.
Não fomos no deserto. Fomos no museu. Foi chato. Amanhã peço à professora para
da próxima irmos no deserto.