Cristóvão
O sacerdote sentava-se sobre as pernas cruzadas. Precisaria de uma posição de desconforto controlado para a minuciosa operação. Preparava-se rebuscando os lábios com a ponta da língua, o cenho ondulado, os olhos cativados na instrução que se revelava num além imaterial, as impressões digitais esfregando-se umas nas outras, fiéis a cada uma das mãos. Então, com a celeridade de um monge, levou as duas manoplas à minúscula almofada púrpura com bordados em ouro, pegando no fino artifício de metal que sobre ela repousava, erguendo a mínima agulha como se de um sabre se tratasse, o indicador e polegar da mão direita fechados sobre o furo, o indicador esquerdo estendido em suporte por debaixo do instrumento, imediatamente atrás da ponta.
Orava. Dentro de si todo ele era oração,
encomendando ao seu criador a bravura que necessitaria para lancetar o seu
desafio, implorando à pomba sem cor que o insuflasse da magia própria para o
exercício, pedinchando ao filho que com ele partilhasse o seu dom milagreiro.
Incapaz de o fazer pelas palavras, através das suas mãos faria revelação.
Um grosso semicírculo preenchia-se de
corporalidade em frente do sacerdote sentado. Para um zangão que ali passasse
olhando a gravidade, pareceria que desenhavam um eclipse solar, uma roda comida
pela aura esvaziada que emanava do padre e da sua agulha. Os corpos
aproximavam-se como se pretendendo poupar as carnes do frio, simulando na sua
tenção o retorno mítico ao todo, mesclando as carnes, as vestimentas, a
atenção, o pensamento, o ser. Nem um vocalizava qualquer desagrado na comunhão.
E de todos, somente dois terços o sentiam.
– Avança Cristóvão – sugeriu o sacerdote.
O jovem emergiu do contorno da meia-lua, mas a
fluidez dos corpos pronto corrigiu a figuração. Avançou como lhe fora ordenado,
firme na sua religião, comovido pela fé que nutria pela figura prostrada. Era
de todos conhecido, por o serem todos uns dos demais, naquele rebanho,
irmandade de mosqueteiros desarmados.
O padre convidou-o a aproximar-se, e assim que
o grande Cristóvão se encontrava a distância ideal, estendeu a sua mão para a
mão deste, abraçando-a em misericórdia. Não havia nos olhos do padre qualquer
vislumbre de medo. Todo ele era humilde apreensão. O jovem crente sentiu uma
gota deslizar pela testa, emulando uma semelhante preocupação. Tinham a mesma
génese, as suas inquietudes. A mesma nacionalidade. Jorravam do franco
conhecimento da simpleza bruta do Cristóvão. De o saberem um inocente
trapalhão, magnete de pecados. Apagado por linhagem, imbecil por genealogia,
era prova e tentação para si, para o sacerdote, e para a fé.
Não ocorreu de imediato. Sentindo o seu
calafrio e o do devoto, o sacerdote soube fazer espera. De experiência
desconfiava não ser perene nenhuma emoção. Restaria abandonarem-se, ele e o
fiel, para que o tédio os tomasse, libertando a ansiedade. Como que tocado pela
impaciência dos espetadores, decidiu permutar a espera pela reza. Por vezes o
aborrecimento tarda em chegar, mas foram exímias as religiões em inventar
formas de o pescar no éter. Dois pais nossos e uma ave-maria bastaram para as
tensas emoções procurarem outros abrigos.
O padre era prontidão. O outro era cristo-vão.
O padre pegou a agulha bem pegada, e alinhou o espeto dela na direção dos
infernos, o furo na altura do seu olho. Mirou bem o buraco, como costureira experimentada,
a compenetração ocular alargando a pequena janela até formar um poço dela, as
cores saltitando por dentro e as formas todas engordando. A aberta ficava
janela mas para o padre ainda não sufiçava. Precisava de maior abertura na
interrupção do metal. Continuava suando no espírito, pedindo às forças do além
para dobrar a realidade que tinha aquém, bem ali na mão. Eis que o fino rebordo
engrossava, até simular o volumoso aro do bracelete de um gigante. Nesse
momento já tudo via. Toda a cara embasbacada que formava a semilua pasmava de
confusão. Apenas o padre sabia ter findado a primeira fase da forte mágica que
fazia.
Os outros, esses olhavam em espectância. Nos
corações sentiam algo transcorrer, mas nas córneas só vislumbravam escultura.
Muita imobilidade. O Cristóvão era para eles apenas costas, largas de ombro a
ombro, a cabeça demi-recolhida nelas. Do sacerdote viam um irrequieto nada, um
atarantado repouso, a mãozinha agitadamente firme no metal, as vistas
pululantes presas no olho da agulha.
O sacerdote pegou então em Cristóvão. Este
estremeceu. Esquecera que a prova era sua. Repentinos lhe chegaram pensamentos
de lembrança e a mais fina voz dentro dele quis pedir socorro, abandono, fuga,
desistência, exílio. Tudo que era vergonha de macho lhe parecia agora melhor
opção. Não que faltasse nele a coragem, mas preferia gozar dela enfrentando
alguém mais fraco. Com o poderoso amava mais usar da covardia. Listava então
todo o pecado. Mão leve que passava em corpo sem permissão. Beijo roubado.
Inocência liquidada. Conhecia muito prazer na dor dos outros, e fazia das
noites sessões desses prazeres. E sempre pedira desculpa. Sempre sentira
remorso. Nunca Cristóvão teve prazer por conhecer essas dores. Mas vê-las muito
lhe custava. Existiam em cores subtis e ele era daltónico delas. Quando as
conseguia observar sempre fazia arrependimento. Por isso que não lhe levavam ao
mal. Mas era pecado na mesma. Lavado pela purga semanal do domingo. Mas estaria
toda a nódoa apagada? Como podia ela saber, se essa mancha não dava para ver?
Sempre decorria igual, mas ele não fazia escola da experiência. Tomava a vida
como série de acasos que meramente aparentavam conexão. Então sabia apenas ser
parvo, o coitado.
O padre deu sacão no homem. Que o crente
duvidasse, o sacerdote não queria nem saber. O teste era dele mesmo. Ia provar
ter nos dedos a cristianidade. Sacou o punho do homem e com simples genica
apontou todo ele na direção do grande furinho. Quando o corpo do outro vacilou,
voltou ele nas costa e, enterrando os dedos nos cabelos da nuca, empurrou ele
para o buraco.
Correu mal um poucochinho. A ponta do nariz
devia ter alargado ela também, que não estava passando para lá do imenso
descontínuo do metal. Os olhos fecharam. Todos os olhos. Os do Cristóvão para
não topar de caras com o medo. Os do outro para invocar algum orixá que viesse
dar força, que os santos pareciam estar de folga. Então a mão recheada de pêlo
forçou outra vez. Funcionou.
Cristóvão pensava que ia sentir mal. Depois
que ia morrer. A ponta do nariz foi começar a estreitar, e depois dela foi
estreitanto o muito focinho. Quando o olho fazia lado de cone com a mandíbula
jurou que estava morrendo, e dava muita confusão continuar sendo, enquanto tudo
parecia colidir consigo próprio. A cabeça alfinetante começava então a dobrar,
fazendo enguia do corpo que antes tinha formas várias. Tudo era puxado para
dentro do olho da agulha como no seu nada estivesse um pesado buraco sem luz,
sugador de coisas. O tempo parou de tempar. Foi naquele instante em que
Cristóvão se sentiu bobão, parvo mesmo, descobrindo sozinho que os segundos não
mais passavam. Restava dele apenas a confusão e o medo. Ele começava a pensar,
a formar um esboço de ideia. Seria uma pergunta. Algo que ajudasse a questionar
o que acontecia. Não o fez porque tudo então acabou. Era todo ele do lado de
lá. Terminava tão vazio de explicação como começara.