O mestre detetive

O detetive saía na paragem do autocarro e dirigia-se à cena do crime. Atrás de si vinha o fiel companheiro, o que fazia as vezes de bruto repórter dos seus feitos para que a comparação o tornasse ainda mais grande. Ou até mesmo maior. O detetive penetrava a multidão que se desfazia em gemidos e suspiros por se encontrar junto de tão célebre presença, e sem ligar nada a ninguém dirigia-se autisticamente ao cadáver. Os agentes da autoridade davam-lhe espaço de respiração, por crerem ser esse o regular procedimento da sua profissão quando uma vedeta sem crachá se intrometia nos seus afazeres. Estudou a cena por breves instantes, chupando os dedinhos até estes ficarem tão lambuzados como os beiços que trazia à volta da boca. Quando terminou, registou:

– Certamente um suicídio.

Os policiais à sua volta tinham concluído o mesmo ainda antes dele o dizer, mas deixavam-se na mesma maravilhar pelo impressionante dote do investigador. Aliás, tinham chegado a essa conclusão assim que a esquadra recebera notificação de mais um corpo encontrado naquele famoso bairro. Era uma zona reconhecida pela enormidade de casos congéneres, fazendo com que todas as parelhas se digladiassem por conseguir atender esses casos. Facilitava imenso os relatórios, bastando copiar qualquer outro e procedendo mudanças minúsculas em certos aspetos, como a morada concreta do incidente ou o nome da vítima. Para além disso havia sempre a possibilidade de encontrar alguma das muitas celebridades que ali residiam, o que aumentava consideravelmente as chances de chegar a casa com uma célfi ou um autógrafo do qual se pudessem gabar.

O detetive mantinha-se no estudo do cadáver por mais alguns minutos, ao fim dos quais pronunciou:

– Uma overdose, concerteza.

Foi a primeira novidade do dia. O médico legista imediatamente sacou do bloquinho de notas por apressadamente calcular que possuía inteligência suficiente para aprender qualquer coisa nesse momento. Observou o corpo mais um pouco, esperando em um ou dois minutos descobrir um indício que lhe tivesse escapado durante a meia hora em que o escrutinara com atenção. Não descobrindo quaisquer razões que levassem àquela brilhante conclusão, decidiu perguntar ao mestre qual a evidência que lhe permitia atingir tal conclusão, aditando:

– É que não vejo sinais nenhuns!

– Desocular, meu caro Gregson – concordou o mestre – Note precisamente a total ausência de quaisquer indícios de consumo de substâncias.

A multidão deixava-se encantar pela absoluta desautorização do especialista. Era sabido que essa classe de gente tendia a estimular sentimentos de inferioridade na populaça, pelo que sabia mesmo bem ter um excêntrico qualquer a cagar completamente em décadas de estudo e anos de experiência profissional. Até mesmo os colegas do morgólogo, não sendo da sua estrita categoria, se deixavam engodar pela facilidade com que o detetive apresentava uma solução simples para tal quebra-cabeça. Mesmo o legista sentia uma franca simpatia pela sua humilhação, habituado que estava a lidar com a irritação que lhe provocavam os grandes de outras especialidades. Era uma situação que no fundo agradava a toda a gente.

– Se fosse uma substância consumida no seu estado normal – continuou o médico – deixaria atrás de si algum tipo de indício, não?

– Suplementar, meu caro Waltson – afirmou o brilhante observador – Mas é sabidamente da natureza de certas substâncias que a sua ação é de potencial diametralmente oposto à sua concentração. Assim sendo, a quase ausência da substância torna o composto perigosamente ativo. Foi esse o caso.

A explicação fez sumir dois suspiros a cada um dos presentes. O primeiro suspiro levou-o a estranheza lógica. O segundo perdeu-se à procura do primeiro. Parecia, à primeira vista, uma dedução que necessitava de algum passo mágico para fazer qualquer sentido. Por sorte tratava-se de um povo bastante mágico, habituado a ter bastante confiança nos efeitos causais das coisas coincidentes, pelo que lhes bastava repetirem a si mesmos a explicação duas vezes para começarem a tê-la por verdadeira.

– Está então a propor que se trata do consumo de um medicamento homeopático com abusivamente elevada potência, não é isso? – articulou o fiel ajudante do mestre, por ter experiência em tornar óbvio para simplórios aquilo que ele tacitava.

– Explicitar, meu caro Bobson. Pois que de outra forma não seria inócuo o suficiente para merecer o galardão da sua categoria clínica, da sua carência de efeitos terapêuticos comprovados, elemento essencial para que surta o efeito placebento.

O médico legista repegou o caderninho e riscanhou qualquer coisa acerca da causa de morte. Sem saber exatamente como designar o problema de forma a ser levado a sério pelos colegas de trabalho, acabou por identificar como arma do homicídio "solução aquosa de concentração fatalmente elevada de água". Na sua cabeça convenceu-se que seria uma boa explicação, visto não ser incomum a água no seu estado puro ser causa de morte, sobretudo no que respeitava a afogamentos. Podia bem ter sido algo do género.

Como vendo que o casal se preparava para partir, dado já terem solvido o caso, chegou-se perto do companheiro do detetive, curioso e invejoso da fortuna que lhe parecia ser, o poder presenciar tal grandeza com tanta regularidade.

– É-lhe muito fácil descobrir tudo isto, não é?

O companheiro sentiu uma pontada de insulto por ver os dotes de observação do mestre serem de tal forma desvalorizados. Sabia, pelas muitas horas passadas a escrutinar o processo dedutivo do detetive, que o seu infalível método consistia em rapidamente esbater com uma série de indícios que, embora isolados, permitissem reconstruir uma teia narrativa de tal forma inverosímil que apenas ele seria capaz de a constituir. Tentou explicar isso com brevidade até que o detetive se aproximou deles para o pressionar a acabar com a converseta. Obrigou-o assim a atalhar:

– Por esta forma, o mestre vai, assim, passo a passo, pondo cada pequena observação em cima das demais até que estas pesem tanto que colapsam num argumento sólido.

– Sedimentar, meu caro Robson! – assentiu o detetive.

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