Ovos
Estavam as duas na cozinha, uma mais alta, a outra, por respeito, menor. A mais alta envergava um avental limpo, como uma folha de papel onde tudo poderia ser escrito, ficaria eternamente branca pela falta de tinta na caneta. A menor envergava um avental igual, feito à sua escala, um modelo do maior. Tinha-lhe bordado uma pequena andorinha sobre o bolso. Bordara-o mal, censurando o bolso, fazendo-o inútil. Envergavam e vergavam-se sobre o aparato culinário. Como um altifalante numa estação, a mais alta vociferava ordens e cautelas. O que evitar. O que fazer. Dizia-as num nexo que apenas a ela tinha direção. A menor escutava, tremia a cabeça acima e abaixo, como quem usa o medo no lugar do respeito. Mais escrava que subordinada. Obedecia maquinalmente mal, como uma máquina programada para o desastre. A menor assistia à destilação processada pela outra. Pingava ovos. Pingava o translúcido deles, a nhanha cor de cuspo e pele de ranho, numa bacia grande. As gemas, de cor quente e sabor n...