Mensagens

A mostrar mensagens de fevereiro, 2023

Ovos

Estavam as duas na cozinha, uma mais alta, a outra, por respeito, menor. A mais alta envergava um avental limpo, como uma folha de papel onde tudo poderia ser escrito, ficaria eternamente branca pela falta de tinta na caneta. A menor envergava um avental igual, feito à sua escala, um modelo do maior. Tinha-lhe bordado uma pequena andorinha sobre o bolso. Bordara-o mal, censurando o bolso, fazendo-o inútil. Envergavam e vergavam-se sobre o aparato culinário. Como um altifalante numa estação, a mais alta vociferava ordens e cautelas. O que evitar. O que fazer. Dizia-as num nexo que apenas a ela tinha direção. A menor escutava, tremia a cabeça acima e abaixo, como quem usa o medo no lugar do respeito. Mais escrava que subordinada. Obedecia maquinalmente mal, como uma máquina programada para o desastre. A menor assistia à destilação processada pela outra. Pingava ovos. Pingava o translúcido deles, a nhanha cor de cuspo e pele de ranho, numa bacia grande. As gemas, de cor quente e sabor n...

A tragédia

É tamanha a velhice da primeira tragédia humana. Tremenda. Daí pouco dela se saber. Relato escrito não deixou, por ser da idade em que ainda dominava o ser-se analfabeto. E na memória mal se pode confiar. Está tomada pela corrupção, há muito que foi deixada ao desmazelo. Sobram dela memórias vagas, vagas como as das ondas, mas livres de sal, de temperatura, de humidade. Dessas vagas resta a intuição, o impulso, a comichão. A língua é assaltada por um sabor que se reconhece de lá bem no fundo, mas era sabor de uma memória cuja topografia se perdeu. Uma frase soa familiar, mas quem fora essa família e quando o fora é lembrança de um condomínio gentrificado, aquele de que somos despejados, onde somos malvindos, a casa que nos despreza e troca por quem come melhor.  Uma reconstrução tentada, é tudo quanto se pode oferecer sobre a primeira tragédia humana. Uma ficção confusa, que se imagina realidade por ter esse papel de palco. Imaginar é o quanto se pode fazer. Imagine-se, portanto....

Fluvial

O barqueiro mergulhava a barbatana do remo uma e outra vez. Com ela escrevia uma caligrafia aguada, um oráculo de voz borbulhante a contar o destino da barca, como uma cigana que encontra o fado num fio de mão. A barca era o rio e o rio a barca, tal era o sentimento que os calos depositavam nos remos, e eu sou a barca e a barca sou eu, reconhecia com as úlceras de farpa espalhadas por ele. Seguia a corrente. Ele. Ou a barca. Seguia a corrente como se dela fosse o mais frágil elo, aquele cuja permanência oferecia identidade ao universo de forças inomináveis que corriam o fluxo. O remo tornava a baixar, escrevia novo rumo, desenhava a corrente de dentro dela, dava um impulso invisível ao coração da serpente. Pertencia à corrente. Ou era ela. Perdia-lhe o princípio. E também o fim. Ponderava que talvez fosse assim com as correntes, fechadas em si fazem-se ciclos, infinitos com princípio e fim que se sentem como os cheiros da Primavera, mas impossíveis de diagnosticar com precisão. Onde ...

A nacional

– Mas porque raio haveria de o ser? – perguntou perante o olhar estupefacto e incrédulo da funcionária do registo civil, e ainda o dos dois colegas nos cubículos adjacentes e respetivos fregueses. Tudo começara anos antes, ainda na mais primária das educações, quando a professora contava bonitas estórias sobre a nação, uma qualquer personagem fictícia que tanta gente teimava em reconhecer como se de uma realidade concreta se tratasse, o que de resto era bastante normal dada a frequência com que nos deparamos com grupos de pessoas que insistem em tomar certas ficções como matérias tão palpáveis como uma bofetada na cara. A professora narrava tais aventuras que ocorriam a um povo, exclamando a certo ponto, e com vera felicidade, que: – Foi então que deixámos de ser espanhóis! – o que liberou furores entre alguns dos parceiros de sala de aula e despertou no seu espírito uma convulsão que apenas acalmou quando expeliu: – Mas eu nunca fui espanhola – declaração que desconcertou os fes...

Mensagens populares deste blogue

Liberdade

Mimosa

Boa vontade