A nacional
– Mas porque raio haveria de o ser? – perguntou perante o olhar estupefacto e incrédulo da funcionária do registo civil, e ainda o dos dois colegas nos cubículos adjacentes e respetivos fregueses.
Tudo começara anos antes, ainda na mais
primária das educações, quando a professora contava bonitas estórias sobre a
nação, uma qualquer personagem fictícia que tanta gente teimava em reconhecer
como se de uma realidade concreta se tratasse, o que de resto era bastante
normal dada a frequência com que nos deparamos com grupos de pessoas que
insistem em tomar certas ficções como matérias tão palpáveis como uma bofetada
na cara. A professora narrava tais aventuras que ocorriam a um povo, exclamando
a certo ponto, e com vera felicidade, que:
– Foi então que deixámos de ser espanhóis! – o
que liberou furores entre alguns dos parceiros de sala de aula e despertou no
seu espírito uma convulsão que apenas acalmou quando expeliu:
– Mas eu nunca fui espanhola – declaração que
desconcertou os festejantes e os forçou a dar provas de lealdade a essa
província imaginária, que ela arrebatou com um simples – Mas vocês também nunca
foram espanhóis. Só o Juan – rapaz que, aproveitando o pretexto, afirmou:
– Senhora professora, eu ainda soy español.
Essa tarde tornou ela a casa com memorando
dirigido aos progenitores, que olhavam a caçula com apreensões desconhecidas e
se recriminavam um ou outro por qualquer falta que não descobriam na educação
com que a banhavam. Explicavam à menina que ela era certamente portuguesa,
tanto quanto também eles o eram, e que toda aquela história era sua história
também. E sem casmurrice, mas plena de imbecilidade, perguntava a filha como
podia ser tal coisa que fosse sua a história das cortes se ela não passava de
uma cria do povo, e mais não dizia por não saber usar palavras que apontassem a
ferida que sentia. Essas palavras descobriu-as mais tarde, já depois de saber
usar pensos higiénicos e de descobrir que os homens são todos porcos.
Jantavam no dia de eleições frente à
televisão, os pais confirmando desgostos e desconfortos com tantos dos valores
que aparentavam ser também da sua nação, e obstinadamente repetiam que o seu
povo não era assim, que o seu povo era assado, que cria nestas coisas e não
naquelas. E estudando para mais uma prova onde demonstraria ter memorizado
alguns capítulos da narrativa dessa nação, formaram-se-lhe na alma os contornos
do desconforto que sentia desde pequena. Sem delongas, observou:
– Se Portugal é alguma coisa, deverá
certamente ser tudo isto que aqui se exprime – o que perturbou gravemente os
adultos na mesa, que se dividiram entre os que ralhavam que não se pode ser
assim e se deve ser desta maneira e os que se comiseravam perguntando a um eco
cósmico que teriam feito para fazer a filha perder-se dessa forma, e juntos
sinalizavam que o país era feito com estas qualidades e mais aquelas, e tudo o
mais eram doenças que cronicamente apareciam e deviam ser cautelosamente
medicadas, e aproveitavam para justificar as suas convicções explicando que
eram um povo autodeterminado e decidir o que se é ou não é, é precisamente o
que fazem os povos autodeterminados.
– Apesar disso – disse estoicamente a jovem –
aprendemos a história das cortes e das muito internacionais famílias reais, mas
não a história do povo, formando a identidade da nação à imagem daqueles que
foram inimigos da autodeterminação por quase toda a sua duração – o que muito
enervou os pais que já não tinham ansiolíticos em casa pelo que tiveram que
optar pelo castigo da descendente, remédio caseiro cada vez menos em voga mas
igualmente eficaz na redução das tensões familiares. E mais barato. Antes de
terminar a noite tiveram ainda que redobrar a dose com duas semanas sem
telemóvel, pois ao se aproximarem do quarto que fazia as vezes de cadeia,
perguntando se a moça se acalmara, receberam como resposta – O mais estranho é
que até os monarcas tinham inteligência de se numerarem quando usavam os mesmos
nomes para evitar confusões, mas já vamos na terceira república e pelas minhas
contas deveria ser no mínimo o sétimo Portugal, mas fala-se na mesma como se
fosse o mesmo bicho que se criou quando o jesus deu em dar lições de estratégia
militar ao afonso!
O que ela aprendeu naquela noite foram duas
coisas, sendo a primeira semelhante ao que lhe ensinaram ao se descobrir
desprovida de crença mística, que era saber como evitar a honestidade sempre
que suspeitasse estar em franca minoria, pois tais assuntos são sentidos pelos
conversos com tremendas paixões, e a segunda era que desejava formalizar a sua
convicção desnacional assim que as autoridades repressivas lhe concedessem a
autonomia para legitimamente representar o seu caso, o que aconteceria apenas
daí a quatro anos, que não é um intervalo demasiado longo quando para ele se
olha à distância que seis décadas de vida proporcionam, mas parece uma
eternidade na juventude de catorze anos, ou realmente apenas dez, pois os
primeiros quatro são especulativos dado não sobrarem deles quaisquer evidências
no espírito de cada um de nós, e vivendo rodeados de gente que se deixa
encantar por todo o tipo de crendices torna-se impossível reservar a terceiros
a confiança exigida para crer numa idade que inclua os chamados anos dos
rumores.
Devidamente radicalizada, foi a menina
celebrar a maioridade para a fila do registo civil, atendia a sua vontade de se
emancipar por via da lei desse constrangimento tribal que lhe era infligido
pelo Estado e pelos concidadãos. Esperou a sua vez com a disciplina dos que
operam na clandestinidade e não desejam levantar ondas antes do momento em que
explodem bombas, e chamada ao atendimento propôs a remoção da nacionalidade
para surpresa e ofensa dos presentes. A funcionária garantia à jovem mulher que
tal coisa não lhe era possível, que alguma nacionalidade teria ela que ter,
como poderia ela viver sem ela, ao que ela respondia como vivem os imigrantes
que não a têm e ainda assim trabalham e pagam impostos, vão aos hospitais e em
certos casos até votam como o faz o Juan desde o ano passado, e quereria ela
votar, perguntava mais confusa a funcionária, não ficando esclarecida quando
ela lhe responde que claro que sim, desde quando é que para viver em democracia
é necessário aceitar certos credos. Nessa tarde ela voltou para casa
insatisfeita, permanecendo nesse estado durante os dois anos seguintes. O pouco
de paz que conseguiu, encontrou-a quase sete anos após essa derrota, e vários
anos depois de aprender a não fazer caso do assunto, quando aprendeu o que era
um marrano e descobriu que teria sido agradável haver no léxico uma palavra
assim para a gente como ela.