Fluvial

O barqueiro mergulhava a barbatana do remo uma e outra vez. Com ela escrevia uma caligrafia aguada, um oráculo de voz borbulhante a contar o destino da barca, como uma cigana que encontra o fado num fio de mão. A barca era o rio e o rio a barca, tal era o sentimento que os calos depositavam nos remos, e eu sou a barca e a barca sou eu, reconhecia com as úlceras de farpa espalhadas por ele.

Seguia a corrente. Ele. Ou a barca. Seguia a corrente como se dela fosse o mais frágil elo, aquele cuja permanência oferecia identidade ao universo de forças inomináveis que corriam o fluxo. O remo tornava a baixar, escrevia novo rumo, desenhava a corrente de dentro dela, dava um impulso invisível ao coração da serpente. Pertencia à corrente. Ou era ela. Perdia-lhe o princípio. E também o fim. Ponderava que talvez fosse assim com as correntes, fechadas em si fazem-se ciclos, infinitos com princípio e fim que se sentem como os cheiros da Primavera, mas impossíveis de diagnosticar com precisão. Onde começa? Onde acaba? É, simplesmente. Vai sendo. A cada momento, vai sendo. E dilui-se ele nela, a barca, ela nesse, o rio, e esse nesta, a corrente, cada qual feito de imaginadas descontinuidades entre os sis.

Algo lhe toca no pé, digo no remo, digo no casco. Algo lhe toca, a ela, nesta uma parte que está submersa, aquela de si que é mais corrente, mais rio que o remanescente do eu. Algo toca e vem sem juízo. É cascalho. Areia grossa e areia fina. Limos, siltes, argilas. Especiarias com que se tempera o rio. São a parte da corrente que melhor esculpe a garganta do rio, e ainda assim tão vazios de ideia são esses grãos. É a força do número e a paciência do tempo que imprimem propósito ao movimento que o mundo lhes embala. Nunca nenhum saberá, que dessa agilidade se desfazem praias, que do seu rodopio nascem baías.

Outro toque, ciente. São peixes e outros que, como eles, arrastam pela corrente com empenho. São como o barqueiro, condenados. Presos na ilusão da vontade enquanto os seus corpos repetem maquinalmente gestos iguais aos que tantos seus semelhantes fizeram antes de o mundo os receber, os mesmos movimentos que tantos seus congéneres farão depois do mundo os perder. Alguns trazem areias no ventre, depósitos de aluvião que se deslocam numa água de carne. Esses são espelho do barqueiro e da barca, a claridade da sua escuridão. Um é coisa inerte que transporta pensamento. Outro é coisa acordada que desloca o inconsciente. Assim é toda coisa que raciocina, dizem os que imaginam pedaços do ártico no cerne do ser.

O barqueiro olha em redor e reconforta-lhe o que vê. Percebe bem os contornos do corpo de água, conhece-lhe as margens, as profundidades, os matos que adornam o fim da sua pele, os areais com que o líquido brinca, a sua corrida de obstáculos. Sem nascente, sem foz, mas aquele troço, o que esculpe a barca diariamente, esse pedaço é familiar, conhecido, conhecível, imaginável. Tão familiar, que lhe perturbam aqueles muros escavados lá ao fundo, aquela depressão sinuosa do outro lado, um canal seco mais atrás, memórias que a terra mantém na sua linguagem sem verbos, lembranças de um rio que foi mas já não é. Evitava então olhar para esses cristais que emanam pesadelos, que projetam imagens de um rio que ele conhece e desaparecerá. Treme perante a idea de que a corrente será irreconhecível, como uma estranha, até mesmo a ele que tanto dela faz parte, que tanta parte dela faz.

Olhando ali uma poça estagnava, líquenes e nenúfares ancorando a massa molhada em desafio à força do movimento, resistindo à tentação de seguir caminho. Um apêndice com desprezo pelo corpo. Um que procura ser individual, conhecer uma sua autonomia. Na época quente separa-se do curso, experimentando a embriaguez da identidade. Mas as chuvas disparam um retorno, as águas voltam a tocar-se, a migrar, e o charco sente a violação da sua excecionalidade. A integração rouba-lhe o nome, e a fluidez devolve tanto oxigénio que as comunidades que lhe chamam casa ameaçam emancipação. Se ao menos se contentasse em ser apenas uma parte, também a barca nele poderia boiar. Exclui-a, e com ela, ele. O seu pequeno horizonte rejeita a violação do remo. Mas não importa quanto tente, permanece parte do rio. Apenas dele é variação.

Apenas dele variam também os rápidos, pedaços de rio que se julgam velocidade, que se insurgem à estabilidade. A permanência, dão em oferenda às ninfas. Em troca da euforia, do rubor, da força. Conquistam distâncias fazendo desvanecer as paisagens em imagens trémulas, cores arrastadas, sons atrasados. Nelas se substitui a contemplação pelo alarme, cada segundo sete passos em falso. Mesmo que nela nada possa andar, sete passos em falso. E terminam como começam, num banho de suave boiagem. Na ausência de rapidez e estouvação. Banhos de prata que sucedem o ruidoso martelar. Espelhos nos quais se pintam as margens rebrilhantes que anunciam o regresso do rio que se conhece, o que se navega com prazer, aquele onde a vida acontece, simplesmente.

E novamente se perdem, quando o leito se forma cadafalso, uma partida das rochas maternas às coisas que existem à vista da atmosfera. Aí o rio se torna a desfazer, precipita na sua morte, acontece em derrocadas, cascatas onde apenas pode escavar os gases que se respiram. Nelas desaparece o invisível suporte do rio, o rochedo onde se esculpe a sua forma viva, e o rio torna-se água descendente, apenas fluido sujeito à gravidade, livre do que é, apenas num compasso em que o tempo não existe. Há apenas o rugir das rochas doloridas pelo cimeiro ataque. E depois a calma, acalma, quietude. O rio refaz-se, de novo encaixado no seu suporte vital. Novamente lar para o barqueiro, e todas as coisas que nele se confundem.

Como o vapor, a água, o gelo, assim o barqueiro, a barca, o rio, a corrente. Existências em estado, coisas que estão. O serem mais não passa de miragem, uma sugestão de contorno sobre manifestações de um movimento de eterna reconfiguração. E de todos, só um se enleva na ilusão com a destreza que permite responder pelum nome, como se assim confirmasse a sua separação do pontilhismo em que existe.

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