A tragédia

É tamanha a velhice da primeira tragédia humana. Tremenda. Daí pouco dela se saber. Relato escrito não deixou, por ser da idade em que ainda dominava o ser-se analfabeto. E na memória mal se pode confiar. Está tomada pela corrupção, há muito que foi deixada ao desmazelo. Sobram dela memórias vagas, vagas como as das ondas, mas livres de sal, de temperatura, de humidade. Dessas vagas resta a intuição, o impulso, a comichão. A língua é assaltada por um sabor que se reconhece de lá bem no fundo, mas era sabor de uma memória cuja topografia se perdeu. Uma frase soa familiar, mas quem fora essa família e quando o fora é lembrança de um condomínio gentrificado, aquele de que somos despejados, onde somos malvindos, a casa que nos despreza e troca por quem come melhor. 

Uma reconstrução tentada, é tudo quanto se pode oferecer sobre a primeira tragédia humana. Uma ficção confusa, que se imagina realidade por ter esse papel de palco. Imaginar é o quanto se pode fazer. Imagine-se, portanto. Imagine-se um homem deambulante, móvel, coisa dinâmica que perpassa a paisagem. Caminha apenas, desatento, desintento. Ultrapassa-se com o restolhar que as canelas cantam no mato rasteiro, ao ritmo dos tambores que os pés inventam no chão. O concerto é interrompido por um som seco, morto, bruto. O corpo investe contra a terra sem vocação. Sobre o cadáver, um leão repasta, ávido da proteína quente e crua. Termina uma vida, arrancada sem afeto por um operacional da naturaleza. Se deixa crias por envelhecer, ou apenas por conceber, é matéria sem registo.

Três são as testemunhas, como sempre foram nesse número as da sua raça, pelo menos até aos tempos em que Herodes caçava infantes.

Uma que observou, baixou o queixo por luto, baixou-o por respeito, confirmou que o mundo é lugar de perigos, tantos se desconhecem e se não podem evitar, podem ao menos evitar-se os que se conhecem. Decidiu este não mais aproximar os pés daquela grama, dela saltam fatalidades, e a todos quantos visse iria partilhar dessa sua informação. Sabemos por Aristóteles ser o mais conhecido erro de Darwin ter confiado que fosse este o tipo humano mais capaz de deixar descendência. Mas ao seu tempo não era ainda sabido que são outros os que possuem maiores fábricas de esperma.

Outra foi a testemunha que vendo o gato lamber o sangue sentou as mãos nas ancas, virou a cabeça a um lado e a outro em desaprovação. Considerou que uma cerca teria evitado dissabores, ou talvez uma prece aos espíritos, algo certamente se poderia fazer, mesmo não sendo solução eterna, essa existirá quando se puder inventar o circo e se aprender a domar as feras. Coisa certa era isso ser tarefa para mais que muitos, nunca é cedo para começar a convencer outros a ajudar. Diz ainda Aristóteles ser sobejamente conhecido que o maior erro dos eleitores é não perceberem ser este o tipo que mais lhe cabe eleger quando a sua democracia tristemente funciona.

Houve ainda a que testemunhou rangendo os dentes, cerrando os punhos, enterrando os pés firmes no lodo em que pairava. Compreendeu o feito, o efeito, o infeito, e soube que apenas não sabia que teria o homem feito para merecer tal castigo. Fosse o andar em território alheio, usar as peles a cobrir a parte errada, ou o fazer música sem permissão, que era a vítima responsável pelo agravo não produzia dúvida. Se ao menos se parasse de ser, se se impedisse de fazer, se ao menos o existir seguisse a pauta das virtudes e evitasse a dos pecados, não teria a majestosa natureza que intervir com penitências. Julgou-se por tempo largo ser este o tipo do pai tradicional, o patriarca, autoridade doméstica como afirmara Aristóteles. Só o advento da radiofonia permitiu elevar tal figura ao cargo de governante, mudando-lhe o nome para outro mais afim a quem elenca leis de uma altura, e volta e meia alguém vem que tenta gravar o seu nomezinho na história concorrendo a esse ofício.

Três são as testemunhas da calamidade, como se desse número se fizessem para facilitar a recontagem. Use-se a fórmula, entram no bar um português, um alemão e um espanhol, e num instante se preenchem as falhas que a magra reconstituição oferece. Diga-se, para dotar o narrador, que são todos três gente sem fronteira. Um pragmático, um idealista e um justiceiro. Uma amostra do espectro dos que fazem sociedades, uma amostra dos espectros de civilidade. Apesar de tudo, são ainda pouco mais que contornos coloridos. Falta-lhes o volume e o peso, ter batimentos cardíacos, odores nos sovacos. Onde encontrar esses ingredientes, senão na mente que usamos? Permite-te um truque, querida leitora, um pequeno logro de ti para ti, e coloca, nos lugares destes arquétipos, os que sejam os teus famosos de eleição. Se nenhum te vier à memória, sugiro uma breve revisão dos cartazes da última corrida à urna. Deixa-te guiar pelos intestinos. Melhor que os olhos, eles saberão que fronha deve enfeitar estas almofadas.

Imensa é a velhice da primeira tragédia. Dela se conhece mais verdade que de tanta tragédia mais jovem. Sabedoria da idade? Talvez não. Tão pouco resta desse esqueleto, que impossível é presumir os seus músculos, a cor da pele, o lustro do seu cabelo. Tão ativos somos na sua construção que se nos torna quase impossível não nos conhecermos autores dela. E por isso se reserva o que de verdade nela se encontra. As outras tragédias, mais novas, menos erodidas pelo tempo, nelas descobrem-se menos verdades. Chegam-nos com a carne ainda por roer dos ossos, com a roupa apenas esfrangalhada. Disfarçam de ser completas. Mascaram o que lhes falha. Poços de ilusão. E o pouco que conservam aponta um caminho que sem critério seguimos, intoxicados pelo aroma da compreensão.

Quando fez a sua primeira vítima humana, o leão não fez caso do mal que produziu. Não se lembrou de ter ataques de consciência no dia seguinte. Ao passar novamente pelo local do crime, foi incapaz de o recordar. Procurava repasto, nada mais. Vive agora num zoológico, preso em fossos e grades, alimentado apenas para que possa continuar a acelerar os corações famintos de emoção dos humanos que vivem longe de perigos. Assim ficará, até ao dia em que puder ser leão. Então, será abatido com o ódio que a sua desconsideração merece.

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