Ovos
Estavam as duas na cozinha, uma mais alta, a outra, por respeito, menor. A mais alta envergava um avental limpo, como uma folha de papel onde tudo poderia ser escrito, ficaria eternamente branca pela falta de tinta na caneta. A menor envergava um avental igual, feito à sua escala, um modelo do maior. Tinha-lhe bordado uma pequena andorinha sobre o bolso. Bordara-o mal, censurando o bolso, fazendo-o inútil. Envergavam e vergavam-se sobre o aparato culinário. Como um altifalante numa estação, a mais alta vociferava ordens e cautelas. O que evitar. O que fazer. Dizia-as num nexo que apenas a ela tinha direção. A menor escutava, tremia a cabeça acima e abaixo, como quem usa o medo no lugar do respeito. Mais escrava que subordinada. Obedecia maquinalmente mal, como uma máquina programada para o desastre.
A menor assistia à destilação processada pela
outra. Pingava ovos. Pingava o translúcido deles, a nhanha cor de cuspo e pele
de ranho, numa bacia grande. As gemas, de cor quente e sabor nutritivo,
pingava-as numa taça fora do alcance da menor.
Para ela ficariam as partes inferiores. Como as famílias numa cozinha se
podiam separar e fazer em degraus, também os ovos se separavam, um divórcio por
dentro, insobrevivível. A cozinha não era apenas sala de incubação de receitas,
rituais que congregavam múltiplos numa individualidade. Era também bloco
operatório, lugar onde se ceifa um pedaço do todo, por se imaginar o benefício
que dessa perda ganham as partes.
A mais alta descia do altifalante para
emendar. Usava as mãos como um gato que experimenta o focinho de um cão.
– Bate os ovos Paulina.
A menor afagava a mão vermelha na outra, a
menos inchada. Fazia força com a fronte, espremia os canais para lacrimejar.
Havia frases que se diziam melhor com a emoção projetada.
– Mamã, por favor não. Os pintainhos, mamã.
A mais alta tocava de novo nela. Como um
secretário que ajuda o computador a correr mais rápido aplicando o próprio pé
em safanão sobre a torre.
– Faz o que te digo miúda!
O sol da tarde rompia impotentes cortinados.
Banhava a cozinha e estrelava os redondos metálicos espalhados sobre a prancha
de mármore rosado. Um pulso despido elevava-se acima dos olhos e fazia deslizar
gotas de suor para destinos que a gravidade não escolheria. A mulher limpava as
mãos ao avental branco, e confirmava com o olho que o par de andorinhas se
mantinha cosido no peito. Levou a mão direita ao bolso para de lá roubar um
bloco de notas. Dois passos completados, cinco por vingar. Abriu a embalagem de
cartão anguloso e contou os vinte e quatro ovos. Sorriu. A língua podia já
saborear uma fatia de futuro.
Iria descascar tantas daquelas sementes de ave
quantas precisaria para confecionar o mimo que a tornara infame. Era o seu
presente para a velha. O seu teste perante ela. Conquistara já o profundo
reconhecimento da sua gente, mas o temor da velha subsistia. Quiçá por isso
tantos discípulos teimem em vencer os seus mestres. Nenhum clamor nasce deles,
apenas a terrível derrota garante a paz do aprendiz. A velha assomava ao brilho
solar. Refletia escárnio:
– Bate com mais força Paulina.
A mulher era imune ao desafio. Tomava-o como
instrução, um esperado e confirmador toque de sineta. Uma violência habitual
que se tornara processo.
– Mamã, eu sei o que estou a fazer.
A velha resmungava para saldar a sua posição.
Como um treinador que zela mais pela performance do atleta que pelo seu
bem-estar.
– Fostes mal-habituada com essas modernices
elétricas. Bate com mais força.
O condutor abandonava a carga no repouso
abrigado da carrinha. A porta deixada aberta para permitir a saída do mofo e a
entrada de olhos espiões. O exercício era conhecido e os seus recordes raras
vezes se desviavam da normalidade. Uma palete dentro, descarregada, retorno ao
veículo. Entre três e sete minutos. Apenas dois em que a carrinha não imprimia
nas suas retinas. Dez dúzias em segundos. Uma ninharia para um carregador de
paletes.
No regresso acautelou. Uma comichão sacudia a
carrinha levemente. Tremia como sentindo uma descarga de frio sobre a espinha
inexistente. Como se assaltada por uma sensação sem agrado. O condutor afrouxou
o passo, calçou pés sub-reptícios, como quem brinca experiente às escondidas.
Uma mão afeiçoou a carrinha, o ouvido seguiu adiante, batedor.
– ...úda
O ruído que ouvia, cortado pelo trânsito e
arrulhar do veículo. Achegou mais.
– ...miúda
Era um término. Algo lhe antecedia. A orelha
calculou que precisaria maior proximidade. A garganta engoliu sem água para
preparar a exposição. O corpo descobriu-se para destapar o desconhecido.
– Bate os ovos miúda. Bate os ovos miúda. Bate
os ovos miúda.
Um cântico em repetição, suave como uma reza.
Uma ideia persistente, daquelas que norteiam a conduta humana. A figura era
curvada, em transe, uma batedeira em riste como uma espada, cadáveres desfeitos
e banhados no seu líquido vital, espalhados pelo chão da câmara. Nas costas, bordados
três pinguins a esvoaçar. A loucura vivia ali, naquele gigante devorador de
embrião. Foi isto que assistiu. Tanto diria em depoimento. O mesmo repetiria em
testemunho.
A ré sentava numa ríspida cadeira de madeira,
rebaixada no declive do acerto moral do salão. Acima de todos planavam os
juízes, um mais elevado que os restantes. Em frente uma multidão de injuriados.
A progenitora encaixada entre a parte deles, desplantada pela ação. Todos tão
imóveis quanto a ré, igualmente congelados de ação. Só dois no salão eram
agentes. Um fazia um caso, o outro fazia o dela. Apenas os dois tinham passos.
Dos outros, a ré contava-se entre a pequena parte que, sem pé, mantinha a voz. Ela
exercia-a, enchendo as emoções de palavra. Recantava a sua verdade. Um dos
dois, dos que passavam, interpelou:
– É então essa a defesa que faz?
Invadiu a ré um só rasgo de lucidez:
– Pratico apenas as violências que fui
ensinada a fazer.