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A mostrar mensagens de janeiro, 2023

Guitarristas

A mulher da guitarra vermelha já não tinha forças para continuar a correr. Olhava em volta, contemplando as suas opções. O júri observava de cima, e à antiga tutora não passara despercebido que apesar daquele teatro, o sorriso ainda não se apagara da cara da antiga petiza. Numa massa energética, a mulher da guitarra roxa e o homem da guitarra laranja sentiam a vitória chegar.   Seriam lembrados por lhe ter arrancado a glória e o hybris, por a terem vergado e reeducado, por a terem feito retornar à família. – Não passas desta – disse a mulher da guitarra roxa. Por mais uns minutos a mulher da guitarra vermelha pareceu encurralada, enfeitando as faces dos adversários com esperança.   Depois mostrou se toda, guitarra a tiracolo, os ombros descabidos em relaxe, os passos longos como quem passeia em namoro. Como uma gata, movia se segura de si e em desplante dos outros.   Disse apenas – Amanhã, então. Senão nunca mais chegamos aos solos A mulher de roxo e o homem de ...

Gelados

– Como assim, nesta loja tem gelado de baunilha? A afirmação soara mirabolante a Jonathan, que tinha gasto os cinquenta e oito anos que contava na sua terra natal, nação onde a única gelataria existente vendia esse mesmo e singular doce. Para ele, tão certo era que uma gelataria vendesse gelado de baunilha que bastaria indicar o estabelecimento para que qualquer interlocutor entendesse o resto. Mas a inicial estranheza alargou com a provocante desculpa do amigo que o acolhia, que balançando a cabeça baixa e de mãos nos bolsos carpia: – Também não conseguimos perceber como é que ainda existem. Mas o facto é que algumas pessoas teimam em apreciar o seu sabor. Nem vale a pena tentar argumentar com elas. O peso da tradição, e outras platitudes, é tudo o que recebemos na troca. Continuaram a percorrer a rua, estugando o passo apenas o suficiente para que nos olhos pudessem gravar o esboço da loja quase vazia, um idoso casal aqui, uma velhota acolá, trajando como quem se descobre num s...

Como o velho Timão

Se um alienígena calhasse em entrar por aquele gabinete adentro, certamente tomaria o professor Vareta por alguém à beira de uma crise de nervos. Ele não o saberia reconhecer, nem os seus colegas ou amigos. Aquele estado de irritação resultava de uma dúzia de anos de pequenas ansiedades que se depositavam na sua psique em finas camadas, e a firme angústia que o caracterizava foi lentamente tomada por um carácter normal. O facto é que nesse momento exasperava cerca de 273% mais que o normal, o que pouco mais era que a camada superficial do morro de tormentos que vivia dentro dele, embora notasse a excepcionalidade da situação. Uma vez mais era-lhe colocada a impossível tarefa de normalizar um absurdo qualquer que os alunos tinham inventado. Enquanto lia o papel de exigências redigidas em tom autoritário, as mãos tremiam de ódio. Reparando nesse tremor, o diretor escolar, afastado que estava das suas emoções, pensou que talvez estivesse com frio e colocou um casaco sobre os ombros. Sab...

Varanda

– Estás decente? Três paredes reverberaram a pergunta, o ar emprenhado por essa musicalidade. O som fluiu pelo compartimento, esvoaçando como uma mariposa até à cabeça inclinada na varanda. O pescoço esguio contorceu ligeiramente, para que um canto de olho rasgado e sombrio espiasse a entrada. Não dignou a questão com qualquer repto. A indecência, sentia-o, não morava ali. O que não impedia que se reproduzissem os rumores dela, como se de panfletos militantes se tratassem. Em si, a decência não estava, era. Constituía um dos eixos sobre os quais rodavam os seus anseios e desejos, os segredos que tinha, as suas cobiças. Retornou a face para o que contemplava. O sol tardava a sua reforma nesse dia, como se o espírito folião do estio lhe exigisse maiores trabalhos. Mas as suas forças já quebravam, e os telhados e as frondosas copas prestavam testemunho dessa desvitalidade, misturando as suas cores nativas com laranjas e vermelhos. Ao fundo, dois bandos de andorinhas cumpriam os últimos ...

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