Como o velho Timão

Se um alienígena calhasse em entrar por aquele gabinete adentro, certamente tomaria o professor Vareta por alguém à beira de uma crise de nervos. Ele não o saberia reconhecer, nem os seus colegas ou amigos. Aquele estado de irritação resultava de uma dúzia de anos de pequenas ansiedades que se depositavam na sua psique em finas camadas, e a firme angústia que o caracterizava foi lentamente tomada por um carácter normal. O facto é que nesse momento exasperava cerca de 273% mais que o normal, o que pouco mais era que a camada superficial do morro de tormentos que vivia dentro dele, embora notasse a excepcionalidade da situação. Uma vez mais era-lhe colocada a impossível tarefa de normalizar um absurdo qualquer que os alunos tinham inventado.

Enquanto lia o papel de exigências redigidas em tom autoritário, as mãos tremiam de ódio. Reparando nesse tremor, o diretor escolar, afastado que estava das suas emoções, pensou que talvez estivesse com frio e colocou um casaco sobre os ombros. Sabia já que os pirralhos não tinham alguma ideia do custo para satisfazer as suas reclamações. Desta requeriam uma cantina totalmente nova e separada para a comunidade de alunos vegetarianos, indicando que se sentiam inseguros durante as refeições, temerosos que alguma partícula animal se depositasse nos seus pratos. Exigiam ainda que as cozinhas de cada cantina fossem autónomas, e afirmavam que de suma importância seria garantir que o rol de refeições na cantina vegetariana fosse um espelho do menu da outra, com os pratos de peixe, de carne, o de dieta e o vegetariano, cada qual manufaturado com ingredientes próprios da sua dieta. Que fossem os mesmos arranjos gastronómicos com exatidão, e nos casos em que tal conversão não fosse possível, que se retirassem de ambos menus (sugestão que espavorou o diretor que de imediato soube ser isto o obituário do seu feliz frango no churrasco), pois garantir os privilégios de uma ementa mais diversificada aos comedores de carne constituía no seu entendimento uma grave agressão aos direitos dos que se reservavam a ovos e laticínios. O diretor tinha o olhar transfixo na parede e a mão transfixa no papelinho, quando se apercebeu de estar tomado por um sentimento, mas tão desabituado estava de tais coisas que não foi capaz de precisar o que era. Sabia apenas que já algures no tempo o sentira.

Suspirava tão profundamente quanto o seu peito oprimido permitia. À mente assomavam questões que não teriam resposta por não fazerem sentido. Queria saber que raios teria ele feito para merecer tal situação, de onde viriam tão complicadas ideias, ou quando teriam os alunos aprendido a demandar em vez de pedir, quando teriam eles decidido que aqueles que se dedicavam a educá-los eram seus inimigos. Suspirava ainda quando decalcava a silhueta do que fora desde que ali chegara.

Tinha-se por professor dedicado e até bastante sensível à necessidade de acomodar os desejos dos alunos. Enquanto aluno vira o sistema sofrer fortes abalos, e lembrava-se bem de como cada um destes produzia o terror de alguns dos seus professores, e também como, apesar disso, de cada vez a sua vida escolar tinha melhorado. Quando assumiu a direção da escola não quis ser ele o travão dessas importantes mudanças. E quando lhe vieram pedir para repensar os manuais que se usavam ele assentiu. E quando lhe pediram que averiguasse o comportamento de alguns dos seus colegas, ele assim o fez. E ao pedido de tornar a escola um lugar mais confortável para os que vinham de situações desvantajosas, até mesmo se comoveu.

Foi apenas uns anos antes que perdera a capacidade de entender os requerimentos que lhe chegavam. Primeiro tinham sido as fotografias dos antigos diretores, que se deveriam remover do corredor que dava acesso ao seu gabinete, e no qual os alunos e educadores apenas transitavam quando iam ao seu encontro. No geral afirmavam que a presença daquelas homenagens causava incómodo e dor a vários estudantes. No específico, era porque um fora mulherengo, o outro alcoólico, este deserdara uma filha, aquele tivera problemas com as finanças. E quando ele perguntava sobre aquele ali, o seu antecessor, que mal teria ele feito, respondiam que ainda não sabiam, mas que estava na cara que fora cheio de privilégio, via-se na pele, no sexo e até mesmo na orientação sexual, certamente alguma coisa se haveria de descobrir. E ele pedagogizava, que um tinha protegido os colegas de mente progressiva durante o outro regime, que o outro comprava os manuais e materiais escolares aos alunos desfavorecidos com o seu salário, que este se conhecia por ir até casa dos alunos que sofriam violências para educar também os seus pais, e que aquele havia lutado durante anos para terminar a segregação sexual nas escolas. E até mesmo aquele ali, o seu antecessor, tinha gasto uma fortuna pessoal a renovar os pavilhões em que já chovia. Justificava uns escroques, assim tinham dito, e a coisa continuou até a psicóloga vir falar com ele, munida de um terço do pessoal, para explicar que as crianças sofriam com aquelas imagens, que a sua obstinação lhes causava dor, uma espécie de maus-tratos por inação. E então ele resignou, recheado daquela sensação familiar que não sabia nomear.

Depois dessa fora a exigência para que nos desportos se criassem folhas de exercício diferenciadas para cada grupo de alunos, uma vez que o grau de conhecimento justo para uns se tornava injusto para outros, o que consistia numa forma de classismo e portanto de discriminação, significando que era precisamente anticonstitucional, lá vindo bem escrito o artigo da lei que se ofendia com tais questões fazendo que o diretor presumisse haver ali a mão de algum progenitor que revivia a juventude através da manietação dos filhos. Mais adiantava que o sucesso de alguns era tormento dos demais, sendo importante garantir que de futuro tal não se verificaria. Uma vez mais ele apelara a outro senso, um melhor, e nisso também falhara. Arguira que tais exames garantiam aos estudantes um retrato da sua situação, que a sua mudança lhes roubaria esse útil conhecimento a troco de uma média, uma simples satisfação de curto prazo. Era apologista do insucesso escolar, assim diziam, e mais deveria ser racista, provavelmente, quase de certeza, e ele manteve a posição até lhe entrar pela porta a psicóloga com três quintos do pessoal, afirmando que tais decisões privavam as crianças do futuro que mereciam, que lhes amputava a felicidade do corpo, uma espécie de convite ao suicídio. E então em soçobrou, pleno daquele sentimento amigo cujo nome lhe escapava.

E, de cada vez que o fazia, os dedos comichosos iam transformando a rala cabeleira numa farta careca. Um espelho recordou então quando sentira antes aquela sensação. Lembrou de um tempo em que era jovem, passando algumas tardes a brincar na rua onde sempre sentava o velho Timão, que tantas vezes o guardava com amabilidade. Era quando por ali passava um casal de homens de mão dada, ou quando se beijavam, ou se viessem em grupos festejando o arco-íris. O velho Timão rezingava então, acossado por esses ataques aos seus costumes, vitimado pela afronta à ordem que conhecia e amava. O sentimento que tinha brotava dessa reação do velho Timão, o sentimento que se tem quando alguém que se preza manifesta o mal.

– Como o velho Timão – disse sem se ouvir.

– Perdão? – indagou a aluna.

– Também o velho Timão não aprendeu a distanciar a celebração que umas pessoas fazem, do ataque aos que lhes são diferentes – e com isto, expirou.

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