Guitarristas

A mulher da guitarra vermelha já não tinha forças para continuar a correr. Olhava em volta, contemplando as suas opções. O júri observava de cima, e à antiga tutora não passara despercebido que apesar daquele teatro, o sorriso ainda não se apagara da cara da antiga petiza.

Numa massa energética, a mulher da guitarra roxa e o homem da guitarra laranja sentiam a vitória chegar.  Seriam lembrados por lhe ter arrancado a glória e o hybris, por a terem vergado e reeducado, por a terem feito retornar à família.

– Não passas desta – disse a mulher da guitarra roxa.

Por mais uns minutos a mulher da guitarra vermelha pareceu encurralada, enfeitando as faces dos adversários com esperança.  Depois mostrou se toda, guitarra a tiracolo, os ombros descabidos em relaxe, os passos longos como quem passeia em namoro. Como uma gata, movia se segura de si e em desplante dos outros.  Disse apenas

– Amanhã, então. Senão nunca mais chegamos aos solos

A mulher de roxo e o homem de laranja exaltaram-se.  Com eles, a sua turba. Nesta, uma rapariga de guitarra azul fazia ouvir a sua indignação.  Era a última chance que tinha para tais tentativas.  O júri teve de intervir, lembrando que os solos precedem os jogos.  Que cada disputante tem direito a se fazer ouvir. Os outros berram de crime.  Não querem dar a ela esse derradeiro protagonismo. A rapariga da guitarra azul chora, humilhada em frente aos pais.  A mulher da guitarra roxa lembra que a parva ideia dos solos nem era tradição, apenas uma invenção da mulher de vermelho.  Ela concorda, lembra que era a única forma de se poderem ouvir as melodias dos menos adeptos aos jogos. 

A multidão debanda, espalhando se pelos cafés e bares da cidade, onde tocariam a suas músicas como se essa fosse a sua vida.

A mulher da guitarra vermelha anda numa dessas ruas, vai serena, despreocupada.  Até que um movimento azul quase lhe apanha a cabeça. É a rapariga da azul. Nos olhos tem fúria.  A de vermelho tem pena.  Aponta para o bar ao seu lado, convida a menina a ir tocar.  A menina tem ódio, sabe que amanhã perderá, voltará para casa, forçada a abandonar a música.  A mulher volta a apontar o bar, lembra que não deve fazer com que a perda de um sonho a impeça de viver uma vida.  A menina está no chão, a guitarra azul de um plástico qualquer em frente a ela, dizendo se incapaz de o fazer.  A mulher de vermelho ajoelha em frente a ela, oferece a metálica cor de brasa incandescente, diz à menina que vá cantar.  Ainda assim a menina não consegue.

Lembra dos momentos em casa, o silêncio impera sobre tudo.  Apenas a sua voz e o dedilhar cortavam esse silêncio, mas tal apenas lhe era permitido em doses de uma hora diária.  Assim tinha sido quando os avós ainda eram vivos, um tempo em que os pais ainda sabiam apreciar a sua música, um tempo em que se mantinham sempre com ela, felizes com a alegria dela, temerosos com a presença do avô.  Depois o avô fora-se e eles assumiam o seu papel. Para ela ficava o silêncio. Para isso voltaria.

A mulher da guitarra vermelha tem um dó. Oferece-o à menina desprovida do sintético azul, que sem o agradecer esfuma-se de ré. Afasta-se dela sem lhe roubar a dança entre os olhos, mas não se convence a soçobrar na armadilha. A outra encolhe os ombros, senta num degrau e sola. É horrível o som que produz, e pronto a acossam. Os calcanhares avançam na fuga sem esperar o resto dela, a guitarra vermelha pinta uma sombra carmesim nas retinas paradas. A jovem descai, os joelhos secam no asfalto frente ao pedaço de polímero colorado de sangue nobre. Odiava se. Gostou daquela cadência, e por isso odiava se.

A mulher da guitarra vermelha virou a esquina. Atrás soava uma melodia de ódio a ela, subia no ouvido se descia de distância. Na frente da turba vinha aquele da guitarra verde, vociferava argumentos sem harmonia. As pernas já cansavam do correr, mas no beco alguém vivava.

– Gosto muito de a ouvir, disse alguém, e fez sinal para se aproximar ela. Ou para se aproximar outro alguém.

Sentou numa soleira calcária e olhou uma roda em simpático ardor. Fez cantar um pouco para aqueles míseros que se embalavam, satisfeita que alguém tinha fome dela. Atrás paravam os outros, os mais, que arreliavam como adeptos de bola mas evitaram trocas de fruta.

Terminou com meiga salva embrulhada em apupos. Levantou endireitando as roupas amassadas da pressa. Havia realizado a sua submissão. Saiu do beco como anonima, simples gente a transportar um instrumento. O vermelho esbatia, talvez extenuado pela missa, talvez afrontado pela noite nascente. Após virar a esquina viu a mulher da guitarra roxa praticando a sua canção. Também ela tinha os seus caçadores, mas envolviam-na mais guardas. A pequena que tinha confrontado especava frente à solista, as mãos encerradas de animosidade. Confrontava agora a mesma semelhança que vira nela, tão diferente daquela, as duas tão misturadas na miúda, como que para atacar a sua individualidade.

Mais em frente viu passar uma ambulância incapaz de tocar a sua conhecida voz. Alguém comentava que o coro fúnebre cantava em silêncio. Uma vítima, certamente, daquelas tonais paixões. Um grupo seguia atrás, pesado, enxuto de emoções.

– Foi o da guitarra amarela, alguém contou.

A mulher da guitarra vermelha não tinha dó para esse. Gastara o seu com a menina. Os de idade graduada sabiam ao que vinham, que se expunham em tais preparos. Se a arte lhes corria no sangue, bem podia correr no chão.

Num café esplanavam uns surdos, estupefactos com toda aquela comoção. Não se entusiasmavam de nenhuma melodia, nem nenhuma os desesperava. Apenas bebiam o seu chá, trocando dedos de conversa, seguros da sua racionalidade naquele país em festa. Sabiam, cada um deles três, que o desacordo acontecia por uns subjugarem a audição de outros indiferentes às suas preferências. E por os outros gostarem menos o que os encanta, desgostarem mais o encanto de outros.

Sete horas depois o noticiário abria. A invariar, a mulher de vermelho agradara apenas um por duas dúzias e meia.

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