Varanda
– Estás decente?
Três paredes reverberaram a pergunta, o ar
emprenhado por essa musicalidade. O som fluiu pelo compartimento, esvoaçando
como uma mariposa até à cabeça inclinada na varanda. O pescoço esguio contorceu
ligeiramente, para que um canto de olho rasgado e sombrio espiasse a entrada.
Não dignou a questão com qualquer repto. A indecência, sentia-o, não morava
ali. O que não impedia que se reproduzissem os rumores dela, como se de
panfletos militantes se tratassem. Em si, a decência não estava, era.
Constituía um dos eixos sobre os quais rodavam os seus anseios e desejos, os
segredos que tinha, as suas cobiças. Retornou a face para o que contemplava. O
sol tardava a sua reforma nesse dia, como se o espírito folião do estio lhe
exigisse maiores trabalhos. Mas as suas forças já quebravam, e os telhados e as
frondosas copas prestavam testemunho dessa desvitalidade, misturando as suas
cores nativas com laranjas e vermelhos. Ao fundo, dois bandos de andorinhas
cumpriam os últimos treinos acrobáticos do dia, e num ponto e outro, as mais
ousadas repeliam-se da coreografia para testar todo tipo de artes ginásticas.
Uma juvenil girafa vestida de crocodilo
entrava na câmara, tentando não fazer muito barulho com o arrastar dos membros
forrados com a tão encerada pele. A visagem que permitia era de considerável
estranheza, pois que apenas as frutas e legumes são conhecidas por se cobrir de
verde durante a imaturidade. O pequeno quadrúpede, desconhecedor das vergonhas
com que a ciência tapara as intimidades dos filhos de Adão e Eva, exibia o
traje sem complexos. Aliás, dir-se-ia que as duas fiadas de dentes que
ostentava, uma por decima da cabeça, outra pendente no pescoço, lhe ficavam
perfeitas, como se o aparato conferisse uma normalidade que não teria sem o
mesmo. Passaria por um crocodilo de pescoço e pernas extraordinariamente
longos, não fosse a forma desajeitada com que se calçava, problema que não lhe
era singular visto o mesmo acontecer a quaisquer animais de casco quando calçam
luvas com dedos, denunciando a sua original condição pelo contraste do coto
firme com os apêndices moles.
A mulher ignorou a criada, habituada que
estava aos seus extravagantes preparos. Que mal faria permitir-lhe uma pequena
insolência aqui e ali, a essa besta cuja imobilidade social condenava à
vermidão? A criatura exibia tons purpúreos, decerto uma combinação entre o
verde baço do réptil morto e os tons do dia passante. Tornou a nudez do esguio
pescoço para o exterior, deixando-se banhar pelos últimos raios do dia, as
luzes frias que anunciam a escuridão. Num repente sentiu uma brisa acalorada,
acompanhada do rubor de uma incandescência profana.
Sete vezes ele se queixou pelas opressões que sofria, os silêncios a que era imposto, as desonestas descrições que faziam das suas ideias, a mutilação sofrida pelas palavras que se lhe dirigiam. Nove vezes percorreu os corredores imensos de tribunais e cartórios, preencheu inúmeros formulários, lambeu os dedos para virar folhas, assinou e rubricou papéis. Quinze vezes foi mandado passear, foi espectador de bailados de olhos circulantes, se quedou vendo a morte da bezerra enquanto fazia chucha do polegar. No final de tudo isto, sobrava-lhe a mágoa em tanta quantia como aquela de que era depositário no início do árduo processo, e a essa juntava uma pitada de irritância e dois dedos de frustração. Desistira de encontrar justiça dentro de paredes forradas a mármore, essas respondiam a outros interesses, não se preocupando com os males que lhe cabiam apenas porque o seu alvo não cumpria as exigências dos financiadores da atividade socialmente cônscia. Tinha ainda a paragem do autocarro, pensou, onde faria soar a sua dignidade e as forças que contra ela se moviam. Na paragem do autocarro, quem o censuraria? Duas senhoras ocupavam o banquinho, quando ele começou a vociferar. Esperava ansiosamente que as mulheres reverberassem com o seu carpir, já que um olhar superficial sugeria que elas padeceriam de venenos congéneres. Quase o atenderam. Ele mesmo, quase se considerou. Não encontrou forças para o fazer quando chegou à mesma paragem o pedinte, envergando o seu fato militar puído e desmazelado das noites dormidas na rua e a sua falta de pernas, uma lata ao pescoço que as mãos, ocupadas a andar, não podiam estender. Tentou contar segundos primeiro, batidas de coração segundo, ponderou carneiros mas resolveu que também estes lhe provocariam uma louca perdição. Abriu a malinha que levava consigo para todo o lado desde que aceitara que tudo corria mal, e deu uma última olhada em seu redor. Sim, também aqueles se libertariam dos seus vários sofrimentos.
– Fogo de artifício?