Gelados
– Como assim, nesta loja tem gelado de baunilha?
A afirmação soara mirabolante a Jonathan, que
tinha gasto os cinquenta e oito anos que contava na sua terra natal, nação onde
a única gelataria existente vendia esse mesmo e singular doce. Para ele, tão
certo era que uma gelataria vendesse gelado de baunilha que bastaria indicar o
estabelecimento para que qualquer interlocutor entendesse o resto. Mas a
inicial estranheza alargou com a provocante desculpa do amigo que o acolhia,
que balançando a cabeça baixa e de mãos nos bolsos carpia:
– Também não conseguimos perceber como é que
ainda existem. Mas o facto é que algumas pessoas teimam em apreciar o seu
sabor. Nem vale a pena tentar argumentar com elas. O peso da tradição, e outras
platitudes, é tudo o que recebemos na troca.
Continuaram a percorrer a rua, estugando o
passo apenas o suficiente para que nos olhos pudessem gravar o esboço da loja
quase vazia, um idoso casal aqui, uma velhota acolá, trajando como quem se
descobre num século errado. De resto a paisagem era corriqueira, normal.
Prontos a vestir, cafés, tabacarias, um alfarrabista, e montanhas de gente na
rua, o passo cadenciado como o do voo de pássaros gregários, inúmeros rituais
de cumprimento e encomendas de sorte diária entre si. De cada lado da rua,
lâmpadas entremeadas por abandonados bancos, cristalizados no chão como
monumentos a uma comunhão pública por cumprir, e a cada três dos postes, um
contentor para armazenar as histórias que a vida da cidade descarta, os
excessos e as vergonhas, os consumos inconsequentes, provas de um povo sem
instinto de conservação. Mais à frente, o outro enalteceu-se:
– Nós, claro, preferimos os de chocolate.
Costumamos ir ali em frente.
Apontava com a mão e estendia um sorriso
convidativo com que levou o recém-chegado. Jonathan passou a porta como um
católico que penetra um templo ortodoxo sem nunca ter sabido de tal realidade,
era ofuscado por uma certa exuberância que fazia também as vezes de agressão
aos sentidos impreparados para essa natureza de celebração. Quando os olhos se
habituaram reparou que o amigo o esperava numa mesa para dois. Dirigiu-se a ele
ao mesmo tempo que a mente descodificava esse espaço tão estranhamente
familiar, decidindo que se tratava efetivamente de uma gelataria, embora
nenhuma que alguma vez concebera. O amigo fez sinal a uma empregada que em
poucos minutos depositava na frente de cada um a tacinha com a bola de nata
acastanhada. O amigo atacou a frieza sem escrúpulo, soando deliciado. Do seu
lado, ele permanecia congelado. Era conhecedor de chocolate, claro, e também de
gelado, mas tal combinação sugeria-se-lhe profana. A hesitação incomodou o
companheiro, obviamente ávido de companhia no ritual de ingestão. Jonathan
agradeceu apologeticamente mas absteve-se. Alegava não apreciar gelado. O outro
incitava à prova, sem ela poderia o estrangeiro não saber o que perdia. Uma
miúda colherada, foi quanto ele levou aos lábios, chupando a nata com a careta
que quem engole limão. Não desprezava, dissera, mas o sabor não convencia.
O outro terminara o seu gelado deixando o dele
por consumir, como se aquele gesto único tivesse conspurcado o doce frio. Ao
sair, o nativo emitiu o críptico comentário:
– Terás concerteza inclinação para um dos
outros, embora me tivesse convencido, pelas nossas discussões, que serias um
dos nossos.
Como notando a falta de entendimento do
interlocutor, consagrou alguns minutos a apresentar as diversas opções que
existiam, nesse país de liberdade onde se podiam disfrutar de gelados de
morango, de limão, framboesa, ananás, e tantos sabores quantas vontades
existiam nas pessoas, havendo para cada uma destas opções a loja própria, a
casa que o dispensava, um parlamento de saborosa representatividade. Fora a
solução que encontraram no derrube do antigo regime, explicava, durante o qual
a todos se servia o mesmo gelado de baunilha que se comia na nação do
estrangeiro. E as relações entre pessoas de preferências diversas eram em geral
pacíficas, ainda que se preferisse a companhia dos que tinham predileção pelo
mesmo sabor, e acrescentava a isto um Como é óbvio, que desconcertou o viajante
para quem tudo aquilo convidava a explicações. Apenas se evitavam os que
mantinham o gosto pela baunilha, um gosto que se sabia evidentemente suspeito.
A própria família dele se compunha de gente com gostos diferentes, os pais
preferindo os morangos, o irmão o caramelo, uns tios que passavam a vida em
discussões porque ele era apaixonado do de mentol e ela não passava sem o de
mirtilo. Mesmo no trabalho se encontravam tais diversidades, embora fosse menos
comum, por ser normal que na contratação se preferissem pessoas confiáveis, e
esse tipo de inclinações ser bom preditor de lealdade. Mas apesar de tudo
conseguiam conviver sem grandes desavenças, contando que se evitassem debates sobre
a condição do país ou refeições às horas das notícias.
Nunca lhe tinha ocorrido que o paladar se
confundisse com vocação. Gosto ou não gosto, sempre lhe tinham parecido
matérias de enunciação dos sentidos, não julgamentos de valor. Descobria que naquele
plano de liberdades os dois se consumavam num só. Jonathan pensou nestas coisas
que aprendeu, enumerou as dúvidas que tinha, as curiosidades que tal situação
lhe desencadeava, os pormenores que desejava saber, mas foi apenas capaz de
perguntar:
– Experimentaram alguma vez acabar de todo com
os gelados?