Mensagens

A mostrar mensagens de setembro, 2022

Isaura

Capítulo um Adalberto deixou-se dormir.   Foi mau dia para o fazer.   Perdeu assim a aula de esclarecimentos que antecipava o exame.   Meio estremunhado pensou em soluções.   Nenhuma apariu.   Depois pensou em desenrasques. Isaura. Isaura saía do anfiteatro quando a mensagem do Adalberto lhe estremeceu a mala.   Leu e sorriu, este Adalberto é sempre igual a si.   Combina café, claro que lhe passa os apontamentos.   Segue o dia contente, o peito inflamado pela lembrança do agendamento.   Chega ao café antes dele e espera.   Como das outras vezes, espera. Adalberto chega e já tem o café pedido por ela.   Boa chavala esta Isaura, sempre em cima do acontecido. Diz olá com o olhar e pergunta pelas notas com os verbos. Isaura estremece.   Esqueceu as cópias, tudo o que se lembrava era dele. Pede desculpas. Sente vergonhas. Mas ele não recrimina, é um favor que ela lhe faz. Abençoado seja ele, que prazer de homem. Até vai copi...

Reforma final

José Finado e Lurdes Anunciada se consideravam casal ideal. Os muitos anos que passaram juntos eram vertidos em mais tolerância que paixão, o que um considerava forma perfeita do relacionamento entre pessoas e a outra tinha pela mais aceitável fórmula de convivência que já se tinha encontrado. Por ambos aceitarem que a família é a unidade nuclear da sociedade, há muito se especializaram em discordar em tudo quanto podiam, por assim ser nas saudáveis sociedades em que cada metade se dedica a tornar penosa a vontade da outra, cumeando o antagonismo entre si com uma avassaladora sensação de que não poderiam sobreviver sem o outro, como aliás sucede com as sociedades que sendo saudáveis não se estilhaçam em inúmeros estados menores só porque o divórcio soa mais fácil que a árdua convivência.  Planejam agora a segunda reforma, que a primeira não se cumprira conforme as ambições, haviam reformado de trabalhos para melhor se dedicarem às vidas, mas o trabalho os havia perseguido, este o...

Um processo

Ainda antes de ser notícia nos jornais, já os tribunais deitavam as mãos sobre as cabeças, tamanha era a confusão que vislumbravam estar-se a desnovelar à sua frente, sendo-lhes óbvio que aquele seria caso para grandiosa publicidade, do tipo a que os jornalistas chamam cobertura, e mostrando-se claro que iria ser o tipo de situações que em nada contribui para avançar a causa da pacificação mas, ao invés, para regar azedumes em prados onde até então as papoulas e as gramas conviviam em grande fraternidade. A injunção tinha sido posta pela Sociedade Avícola, composta por maioria de columbos urbanos e palomas suburbanas que se arrogavam, como todos os grupos com distinção em manuais de história, o direito de falar em seu nome e no nome de todos quantos imaginam representar, ainda que não possam demonstrar matematicamente essa representação dado não ser esta precedida por trabalho eleitoral, e que exigiam ao estado de direito a reparação de danos morais e materiais, decorrida por tais es...

O recruta

Gualdim afligia-se com o calendário. Não descobrira ainda a forma de o pausar. Ou então de o fazer contar em inversos. Nesse momento parecia-lhe o companheiro de quarto mais teimoso que tinha, embora a cama e a cómoda também obstinassem nas suas posições. Escasseavam-lhe, pois, os dias em que lhe era negado o voto, o rum e o cárcere. E acima destes, o recrutamento. Tomado de desesperos revolvia de novo os cadernos todos. Ao longo dos anos havia preenchido várias páginas com carvão, esquemas e argumentos que lhe pousavam no espírito para que pudesse advogar a sua consciente objeção. Porque haveria ele de ser forçado a esse serviço? Por ser obrigatório? Tantas fórmulas experimentara desde menino, e sempre que uma se revelava suficiente, logo corria para a mostrar ao pai. E a mostra devolvia desilusão. Também o pai tivera consciência. E também a sua havia objetado. Mas a recruta viera e ele servira. Quebrara-lhe o corpo mas não o espírito. O pai salientava que também o filho sobreviveri...

Mensagens populares deste blogue

Liberdade

Mimosa

Boa vontade