Isaura

Capítulo um

Adalberto deixou-se dormir.  Foi mau dia para o fazer.  Perdeu assim a aula de esclarecimentos que antecipava o exame.  Meio estremunhado pensou em soluções.  Nenhuma apariu.  Depois pensou em desenrasques. Isaura.

Isaura saía do anfiteatro quando a mensagem do Adalberto lhe estremeceu a mala.  Leu e sorriu, este Adalberto é sempre igual a si.  Combina café, claro que lhe passa os apontamentos.  Segue o dia contente, o peito inflamado pela lembrança do agendamento.  Chega ao café antes dele e espera.  Como das outras vezes, espera.

Adalberto chega e já tem o café pedido por ela.  Boa chavala esta Isaura, sempre em cima do acontecido. Diz olá com o olhar e pergunta pelas notas com os verbos.

Isaura estremece.  Esqueceu as cópias, tudo o que se lembrava era dele. Pede desculpas. Sente vergonhas. Mas ele não recrimina, é um favor que ela lhe faz. Abençoado seja ele, que prazer de homem. Até vai copiar ele mesmo, só necessita caneta e papel, aqui está a caneta, o papel, epa, já não tenho, usa este, e estende-lhe um A5 em cuja face ele rabisca o que quer. Adalberto agradece e vai embora. Foi tão curto, mas valeu a pena.

Isaura chega tarde à reunião, tinha compromissos que não pôde adiar. Mas já aqui está. Cada uma das parceiras lembra a importância do sigilo. Cada qual põe sobre a mesa o papelinho com as instruções. À vez vão apresentar as suas intenções. Isaura não encontra o seu panfleto, merda, levou-o o Adalberto, e agora, que nem posso dizer nada a estas. Diz que se esqueceu em casa, traz da próxima vez.

Capítulo dois

Adalberto está com a Filipa, a companhia sempre se engole melhor quando regada a cerveja.  Ela fala, nem demais que se não suporte. Nem de menos, que se tenha que colaborar na conversa. Fala o suficiente para ele esquecer que também ela é interessante e para ela pensar que ele lhe tem interesse.  O telefone vibra, é Isaura. A rapariga pergunta se está a estudar para o exame. Assim seria se a imagem da Filipa lhe não tivesse produzido esquecimento. A miúda precisa de o ver, raios se não pode esperar por amanhã, é que é uma beca urgente, está bem, aparece em minha casa daqui a meia hora, apareces tu e apareço eu, pensa ele. A outra pergunta se está tudo bem, ele diz que sim. Então sai.

Isaura chega antes, não está habituada a esperar frente a casa dele. Ele costuma estar quando ela vem. Está triplamente aflita, pelo papel, pelo banheiro, por ele. Duas vezes onde lhe aperta o sutiã, duas vezes onde lhe aperta a cueca. Pensar nele aperta sempre em mais lados.  Ele chega, sobem e entram. 

Adalberto vasculha um bolso. Vasculha outro. Procura no terceiro. Vaza o quarto. Jura que tinha o papel ali, tinha dobrado e posto junto com a carteira. Terá caído no bar quando pagava cervejas, umas para ele, outras para a Filipa. Escusava de o dizer em voz alta, a Isaura vivia bem sem essa informação. 

Capítulo três

Nem nas mesas nem no chão. Ele olha por cima, depois por baixo. Ela olha por baixo, depois por cima. O tipo da caixa não reparou em nada que tenha caído, talvez esteja na mesa. Outros a ocupam agora, nada viram ao chegar. Perguntam do que era e não recebem resposta, aqui quem faz as perguntas somos nós, pensam os dois.

Adalberto vai desistir quando o canto do olho se ocupa com a Filipa, ali está ela. Talvez tenha ficado à espera, será que disse que já voltava ou não disse e ela o entendeu, foram pensamentos a acompanhar o passo até estar cerca dela e ver o outro.  De companhia era um tal. Pouco recomendado a gajas. Pré-encomendado a bófias. Já por três vezes sempre por sovas de macho de outro regime. Melhor avisar a Filipa, pode não saber, e pode sentir-lhe heroísmo. Quem sabe, pode ser desta.

Isaura vê o mesmo, sabe quem é o escroque. Bem feita, a essa puta oferecida, que as aprenda a mal. Resta convencer o Adalberto que não vale a pena, ela só vai achar que ele está ciumado, melhor nem ligar, cada um se deita na cama que fez, que tal irem eles deitarem numa também, melhor emprego do seu tempo. Quando saem ela olha atrás. A outra já está lambuzada. Esperemos que não seja desta que aprenda. 

Capítulo quatro

Isaura desculpa-se. Avisa que não fez por mal. Omite que o papel tenha andado em bolso de macho, já basta a histeria como está.  Nunca percam nem deixem que nenhum homem veja isto, seria a nossa perdição, e todas fazem que sim à matrona. De facto seria a perdição se algum desse de caras com aquilo.  Isaura prostra-se, deve ter caído num bar, ai meu deus se é gajo que lhe pega, pode ser que não. Vamos confiar que dê sorte e tenham varrido para o lixo com o resto da nojeira, é um desses bares cheios de idiotas que vão para o engate, e imbecis que se deixam engatar.  E o projeto? Tudo bem, ficou na memória. Dão-lhe novo panfleto e breve ela preenche as notinhas que desenhara no primeiro. Então partilha. Uma salva de palmas, é boa ideia, sim.

Epilogo

Só no fim é que Vasco percebe que falta o papel higiénico. Que fazer? Ouve passos, pergunta se tem no cubículo do lado. Respondem que não. Ele espera até ouvir silêncio. Puxa a calça acima, no disfarce de vestida. Sai à procura, como ladrão. Nada. Espreita fora dos lavabos, nada no balcão. Uma folha no chão. Pega sem deixar cair as calças, volta adentro. Rasga em meio. Uma parte para esfregar, a outra para confirmar. Dá uso ao autoclismo.

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