O recruta

Gualdim afligia-se com o calendário. Não descobrira ainda a forma de o pausar. Ou então de o fazer contar em inversos. Nesse momento parecia-lhe o companheiro de quarto mais teimoso que tinha, embora a cama e a cómoda também obstinassem nas suas posições. Escasseavam-lhe, pois, os dias em que lhe era negado o voto, o rum e o cárcere. E acima destes, o recrutamento.

Tomado de desesperos revolvia de novo os cadernos todos. Ao longo dos anos havia preenchido várias páginas com carvão, esquemas e argumentos que lhe pousavam no espírito para que pudesse advogar a sua consciente objeção. Porque haveria ele de ser forçado a esse serviço? Por ser obrigatório? Tantas fórmulas experimentara desde menino, e sempre que uma se revelava suficiente, logo corria para a mostrar ao pai. E a mostra devolvia desilusão. Também o pai tivera consciência. E também a sua havia objetado. Mas a recruta viera e ele servira. Quebrara-lhe o corpo mas não o espírito. O pai salientava que também o filho sobreviveria. Mas em tal ele não cria e por isso esgravatava a papelada em busca de uma ideia redentora. Talvez encontrasse algo que nunca antes se mostrara útil. Pelo menos poderia reencher a memória com essas palavras: com sorte apanharia algum recrutador menos preparado. Embora soubesse que o sistema se montara para sobreviver a missionários de coração fraco, e os protocolos não permitiam desvios ou compaixões. Era inútil o debate.

Deixou-se enterrar no cadeirão da sala, e com a fraqueza dos membros exercitou a força da contrariedade. Não era já passado o tempo em que os franchises da democracia faziam tais exigências dos cidadãos? Aproximava-se a maioridade, e ser-lhe-ia exigido um ano de vida. E depois desse, mais um mês a cada cinco anos. E nem sabia onde teria que servir. Qualquer geometria confinada pelas fronteiras servia. Iria para onde era necessário, a sua vida em prol da pátria. E os seus desejos, onde ficavam? Decidira-se a aprender tecnologia, tornar-se empresário daquelas inovações que prometem salvar o mundo enquanto se alimentam dele. Isto que lhe pediam era profunda contrariedade. Não por ser vazio de solidariedade, mas porque pretendia servir a nação através do seu sucesso pessoal. Não fizeram o mesmo, todos os que se aprendem nas aulas de história? Porquê então negar-lhe esse mimo da história, de lhe salvaguardar o nome e o apelido em alguns manuais do futuro?

O dia viera e tudo mudara. Seriam seis meses num serviço, seis meses no outro. Nem iria com o Martim, companheiro desde a infância. Haviam-lhes trocado os turnos, uma boa estratégia para enfraquecer os laços pessoais, e reforçar o amor pelo regime. Começaria então com um mês de treinos, ao qual se seguiriam cinco de trabalhos. Depois recomeçaria no outro serviço. Trinta dias a aprender, trinta vezes cinco a labutar. E depois daria mais trinta dias a cada ano de vida, forçado complemento aos impostos que se descontavam dos salários que se mereciam pelo suor. E a aprendizagem que tanto estimava ficaria suspensa nesse ano em que se esperava dele que aprendesse a ser apenas um grão dessa praia chamada país. Só o dispensaram para ir a casa ao final de dois meses, e nem os pais o reconheciam. A aflição dera lugar à amargura, e embora tivesse bonitas histórias de camaradagem, e sentimentos honrosos do que cumpria em serviço, o laço que lhe prendia o pescoço pesava sobre ele como o sufoco pesa sobre o afogado. Conseguiu nova dispensa ao final de três semanas, um prémio por ter salvo duas vidas. O cansaço enferrujava-lhe os membros, mas a vitória oleara-lhe o ânimo, e os pais souberam saudá-lo. Depois conheceu uma enfermeira por quem se embeiçou. Juntos começaram a imaginar vida, a planear futuro, e iam a terminar a terceira página quando os seis meses tocaram o alarme e um conjunto de palavras digitais lhe chegaram à laia de telegrama. Enquanto ela mentia que a distância nada mudaria ele alimentou algum ódio e fez as malas para viajar. A nova escolarização foi mais simples porque já era dela familiar, pois embora ignorante de hospitais havia passado vários anos em escolas. Teve então a sorte de rifar na terra natal. Os pais muito celebraram o retorno, e fizeram várias sopas para o restabelecer. Tão agradável foram esses meses que por momentos se sentiu tentado em abandonar a sua original missão e fazer carreira com aprendentes. Mas o serviço terminara então, e a vida prosseguira.

Já passara mais de um ano depois da recruta quando ocasionou votar a primeira vez. Votara nos que vocalizavam as suas emoções, sobre desimpedidos empreendimentos e abolidos serviços mandatórios. Foi vencido, mas não se perturbou. Melhores dias viriam.

E assim foi, tinha ele terminado o seu mês de trabalho forçado pelo décimo ano consecutivo, que deu em vencer um governo que iria libertar o povo desse compromisso. De imediato terminaram com os dois serviços obrigatórios. E como dinossauros, foram extintos o serviço de saúde, que demandava que todo o cidadão aos dezoito reforçasse o sistema público, e estivesse preparado para apoiar o estado em caso de calamidade médica, e o serviço de educação, que forçava os que atingiam a maioridade a aliviar a carga dos educadores onde ela se fazia sentir, fazendo reforços para que a aprendizagem fosse missão social. Gualdim de imediato se sentiu mais livre. Tão mais livre que nem notou que nas duas décadas seguintes os progenitores e os professores puderam monopolizar a educação das crianças, como se a ela tivessem mais direito que os outros com quem essas crianças partilhavam o espaço público. Tão mais livre que foi cego ao aumento de mortandade e sobrecarga dos hospitais nos quarenta anos seguintes, fazendo da saúde um bem privado, adquirido apenas por aqueles cujas carteiras sofriam mais peso. Tão livre se sentiu, que quando um miúdo malcriado o empurrou na rua e apanhou uma infeção maltratada no hospital, a única coisa que lhe saltava à vista é que alguém devia andar de olho naquilo que se passava. E que esse alguém poderia bem ser toda a gente.

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