Reforma final

José Finado e Lurdes Anunciada se consideravam casal ideal. Os muitos anos que passaram juntos eram vertidos em mais tolerância que paixão, o que um considerava forma perfeita do relacionamento entre pessoas e a outra tinha pela mais aceitável fórmula de convivência que já se tinha encontrado. Por ambos aceitarem que a família é a unidade nuclear da sociedade, há muito se especializaram em discordar em tudo quanto podiam, por assim ser nas saudáveis sociedades em que cada metade se dedica a tornar penosa a vontade da outra, cumeando o antagonismo entre si com uma avassaladora sensação de que não poderiam sobreviver sem o outro, como aliás sucede com as sociedades que sendo saudáveis não se estilhaçam em inúmeros estados menores só porque o divórcio soa mais fácil que a árdua convivência. 

Planejam agora a segunda reforma, que a primeira não se cumprira conforme as ambições, haviam reformado de trabalhos para melhor se dedicarem às vidas, mas o trabalho os havia perseguido, este outro do não pago, pelo que o único ajuste nesse processo fora aquele que entra na conta. Embaçados desta fartura preparam a segunda, na qual pretendem reformar as vidas para se dedicarem a descansos. José Finado sabe que não ocupará lugar junto do menino do senhor, cresceu a ouvir que dissesse com quem anda para lhe dizerem quem é, e sabe que foi às urnas demasiadas vezes para não ser cúmplice de corruptos, é esse o seu único defeito, até porque as encornaduras que foi esculpindo à Lurdes não contam desde que a cada uma se tenha justificação, e ele tem para todas as três. Lurdes Anunciada foi xizar boletins na mesma frequência mas tem mais otimismo que é o mesmo que dizer menos consciência, então acha que vai descansar a bunda numa nuvem qualquer, finalmente desangustiada deste Zé que já não pode aturar, até lhe bota sal a mais na sopa para ver se dele se livra mais depressa. 

José vai pensando e congeminando, e porque o faz de voz larga, a Lurdes vai comentando como locutor desportivo, qualificando com vocabulário basto cada idiotice que ele assopra. Sabia que não era bom tardar, que em pouco haveria nova campanha, e já ele tinha os dedos muito poluídos das outras, mais valia poupar-se a esta mais, e já soavam nos ares novas promessas, enganos brincando ao carnaval, cada um desfolhando em público as listas preparadas para o pai natal, e de todos o primeiro, maior entre os ministro, tanta esperança vendia que mais valia despachar o destino, não fosse ter que o viver. Irritado com as palavras do primeiro ministro, do segundo, do terceiro, dos opositores e dos analistas, o reformista reformula o testamento. Evitando riscos opta por fazer como a fénix, apenas na metade do exercício, porque não consta que aos cinzeiros se faça reanimação. Encomenda à sobrinha, ao advogado e ao presidente da junta, que levem as suas cinzas e as entreguem em mão ao chefe de governo, uma vez que as suas políticas tanto contribuíram para a morte do defunto quanto os cigarros que ele fumava. Que ficasse então com os restos dele, já que tanto tinha trabalhado para aquele resultado, e finado ele, de morte como de nome, já não teria utilidade para aquela urna, pois o doutor que lhe desse serventia. 

Lurdes sonhava com cinzas desde moça, mas não queria repetir sem fim a união que a prendia ao marido, e se ele urnava, então ela ficaria com as larvas, ele que ficasse só, ela preferia estar mal-acompanhada. Guarda de si alguns destes pensamentos, a outros dá-lhes timbre, parecem ser dos que causam amarguras, para quê ser sovina se os pode partilhar com o esposo, cada um faz a violência que pode para aturar uma relação. Os tempos que tem, gasta-os a aprender internetes e coisas dessas, tanta gente se serve delas, também ela o pode fazer, abre algumas contas diferentes, corresponde-se com alguma realeza nigeriana, pinteresta bonitas imagens de pacotes de cadáver, assim chama às gavetas onde os corpos se aprisionam, sabe-se lá se sem essa madeira não subiriam por aí fora quando dá lua cheia, ou fora ela nos primeiros novembros. O José lá bufava com tanta picuinhice, nunca foram gente rica, para quê tantos ares quando a morte respira ao lado, e ela nem ligava, o dinheiro não vai ao céu, o marido também não, mais vale gastar um e outro enquanto se pode. E pensa bem ela, que escolhe com esmerado enjoo a morada permanente, quer que tenha boa madeira, lindeza na arquitetura, gama alta se der.  Já que temos que suportar o aborrecimento da morte com tão pouca mobília, ao menos que seja de qualidade, o design é que não é suficiente para a modernidade, uma pena que não vendam caixões no ikea.

Nosso senhor, amais o buda e o caronte, dos dois se livraram. Que um se havia dissipado da matéria por artes fumegantes, a elas conduzido mais em escárnio que em piedade, e a outra se diluía do espírito procurando feng shuis para a posteridade, mais preocupada com o conforto que com a gramagem que a alma mediria na balança. Três colóquios se fizeram por estes dois, entre os seres que vivem no éter, procurando perceber para que além deveriam ser reconduzidos, mas não se conheciam deuses aplacáveis por urnas ofertadas a políticos ou por caixões de primeira liga. Sete inquéritos se realizaram antes de cada um destes colóquios, chamando à contribuição as espiritualidades que residiam nas religiões viventes, e também nas mitologias esquecidas, mas de nada resolveu. Um e outro eram hóspedes de ninguém, não se conheciam para eles descansos eternos ou ciclos de reencarnação. O místico Joane resolveu então que não havendo deuses para esses dois infernos se teriam que os inventar, ou esperar que a ampulheta continuasse pois poderiam ser deuses por nascer, e sem concordar com isso, aceitaram a ideia os deuses por lhes parecer que faria poupanças no trabalho que isto lhes dava. Então desistiram dessa preocupação por terem afazeres outros, e por ser seu hábito serem servidos por mortais e não o inverso, é sabido que o labor dos deuses se conta pelos dedos de duas mãos, nos casos em que uma não basta, e são esses muito poucos ou um.

Mensagens populares deste blogue

Liberdade

Mimosa

Boa vontade