Um processo

Ainda antes de ser notícia nos jornais, já os tribunais deitavam as mãos sobre as cabeças, tamanha era a confusão que vislumbravam estar-se a desnovelar à sua frente, sendo-lhes óbvio que aquele seria caso para grandiosa publicidade, do tipo a que os jornalistas chamam cobertura, e mostrando-se claro que iria ser o tipo de situações que em nada contribui para avançar a causa da pacificação mas, ao invés, para regar azedumes em prados onde até então as papoulas e as gramas conviviam em grande fraternidade.

A injunção tinha sido posta pela Sociedade Avícola, composta por maioria de columbos urbanos e palomas suburbanas que se arrogavam, como todos os grupos com distinção em manuais de história, o direito de falar em seu nome e no nome de todos quantos imaginam representar, ainda que não possam demonstrar matematicamente essa representação dado não ser esta precedida por trabalho eleitoral, e que exigiam ao estado de direito a reparação de danos morais e materiais, decorrida por tais esvoaçantes como são alguns esquilos e morcegos que, não obstante usufruírem todos os privilégios de ter a pele coberta de pêlo, o que os torna inquestionavelmente dignos de maiores carinhos de fonte humana, indignavam os pteros de classe própria ao se porem por aí a voar. Este sentimentalismo legalista que expressavam ecoa nos esvaziados crânios da parte maior destes bichos, os quais poupam no peso de massa cinzenta, ou na massa do peso cinzento como diria um professor de física, para que os ossos arejados ajudem melhor a flutuar em oxigénio, e muito se associa a uma impressão de forte injustiça, a qual dificilmente se pode negar, por ser evidente a condição larápia dos mamíferos, conhecidos por roubarem o leite de suas mães em vez de lhes exigir o pequeno almoço com berrarias de quem tem a mania que tudo lhe deve e ninguém lhe paga, que é como entre os civilizados se decidiu estipular protocolo de atuação. A estes que se fazem réus, dizem os empenados, não lhes basta surripiar as mães, vão ainda de roubar os voos dos que nasceram para o fazer, e juntam a estes comentários a fúria que faz ver esses ratos alados quando uma avestruz nem a dois palmos acima do chão pode levitar e isto, não tendo algum deles a condição terrena dessas e outras aves de espírito realista, tornando o facto mais grave a eles: sempre se sofre mais a indignação das vidas da lama quando nem se pode viver nessa cagada.

Mal se fizeram ouvir estas primeiras bandeiras de solidariedade e justiça, logo outras se abanaram nos ares, quais asas de morcego, porque a política sempre sai mais barata que o futebol, os bilhetes vão bem caros e nem há jogo todo o dia, mas todo o dia à parlamento, tão bom que assim é, também disso se podem fazer claques. Pelos direitos dos mamíferos volantes saem alguns à rua, fazem ajuntamentos, produzem barulhos, e enunciam opostos, não é avaliar raciocínios, é jogar aos espelhos a sua real vocação. Aos que defendem que as avestruzes não perderam o voo por roubo e questionam que mal fará que esses ratitos se divirtam a planar, responde a Sociedade Avícola tratar-se isto de um caso de apropriação cultural, coisa grave porque não fazendo quaisquer outros danos produz daqueles que são morais, os quais são particularmente gravosos para quem nunca levou um selo na boca, oferta promocional que tem por tradição distribuir selos na boca quando é trazida à praça, e que não mais se agravou apenas por se ter posto o sol e com isto suceder, como sucede no final de cada dia, que o universo pare de existir por umas horas até novo dia nascer.  

Quando se acalmaram os primeiros ânimos, a pombalhada recorreu a advogado, experiência que a assolou pela mirrada atenção e extenso desprezo que lhes foi dado em troca do pagamento, coisa que lhes aconteceu por serem animais pouco habituados a lidar com humanos em escritórios, faltando-lhes saber que com essa espécie o ser solícito não é virtude e sim profissão. Foi depois dessa aprendizagem que foram ter com um desses, o qual os ajudou a preencher os formulários que se demandam em tais situações, o que desesperou alguns destes pobres ao ponto de terem de ir cagar sobre algumas estátuas para aliviar a pressão arterial, que isto da burocracia só aos primatas que vestem de fato parece coisa natural.

Foi a entrega da papelada nos serviços indicados para o efeito que levantou as primeiras orelhas, pois ao procurarem a identificação dos queixosos, os funcionários do tribunal notaram que a falta de cartão identitário se acompanhava de um consternado solicitador, o qual muito se desculpava pela estranheza do ocorrido explicando que, tendo o senhorio à sua espera, não se qualificava entre os especialistas que se permitem recusar trabalho, e uma vez que nenhuma lei assim o impedia, teria o caso que ser devidamente conduzido. Um dos funcionários, por ter mais humor que tino, decidiu fazer da situação espetáculo, o que lhe era fácil pois no bolso trazia um desses pequenos dispositivos que permitem que cada indivíduo se torne produtor e realizador do reality-show de que se torna vítima, e por ser uma jovem escritora de redação uma das espetadoras dessas exibições.

Se a primeira notícia despertou sobretudo gargalhadas, e sétima alimentava já alguma preocupação, e quando na terceira semana de cobertura consecutiva se anunciava uma intervenção do Presidente da República, logo houve quem comentasse, por ser pago para o fazer, estar algo envergonhado por viver numa nação cuja presidência se rebaixava a tomar posição sobre tais casos, e ainda quem achasse em direto que nada disso era diferente pois há muito que esta presidência se dava a estas coisas popularuchas. Já o Presidente argumentava e muito bem que apenas se pronunciava porque se discutiam coisas muito constitucionais sobre quem tem direito a recurso judicial e ele era o reformado indicado para fazer juízos sobre tal coisa, para mais que tal assunto lhe era chegado ao coração pois crescera a fazer caridade aos pombos com o pão duro que já não lhe servia. O caso tomou proporção tal que se arrogou o direito às maiores exéquias legais, que são passar para tribunal constitucional e prescrever ou ser arquivado por inserir_aqui_causa-lismo, vindo tudo a ser esquecido pela população em geral, pelas avestruzes em particular, restando só sete pombos empenhados em manter essa batalha, perdão seis pombos, raios partam aquele labrador, cinco, não se desviou do carro a tempo.

Mensagens populares deste blogue

Liberdade

Mimosa

Boa vontade