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A mostrar mensagens de julho, 2022

Vivinaldo

Vivinaldo preparava-se para nova greve. Faltavam ainda três dias, mas já a excitação tomava conta dos seus momentos livres. Imaginava a euforia de tanta gente se reunindo para lutar pelos seus direitos, tanta pessoa forte e resistente, tão motivada pelo seu bem-estar e tão solidária pelo bem-estar dos outros, que dissolvia a renda de mais um dia de trabalho por essa compaixão. Davam essa renda diária, todos eles, como uma oferenda que faziam aos deuses da democracia. A paixão que rodava as ruas estimulava-o. E acima dela a bela arte que dos populares nascia. Conseguia rever as histórias dos avós na bonita camaradagem, as histórias de canções que os camponeses soltavam das gargantas, máximo esforço de libertação enquanto eram oprimidos pelo trabalho, pelo calor, pela pobreza, pelo desrespeito. A arte das palavras de ordem, curtas poesias que falavam ao coração espicaçando as suas palpitações, que falavam aos joelhos sacudindo-os para a frente, que falavam aos punhos, agitando-os no ar...

Calor

Sem grande coisa a dizer, o calor estimulava todas as partes que melhor se derretiam. E derretiam-se com tremenda facilidade. Quase no imediato. Nenhuma começara gelada. Ao longe, o sol ria dessa miséria, o canalha. Tinha enviado uma fina parte de si para iluminar uma lâmpada inexistente. A subtil ideia que permitiu aos homens inventar o motor de combustão. Viera dele, do canalha. E ficava lá, afastado desse assolo de temperaturas, o cabrão. Confortável no equilíbrio do seu calor interno e o refrescante arrefecer do vácuo. Tão quente que nem precisa de enfiar uma camisolinha para se resguardar. Nem roupa alguma. O fresco revolveu-o na ideal proporção. Uma regra de ouro em centígrados. Soubera disso o Leonardo e teria antes pintado esse canalha. O seu sorriso tem maior perfídia que o da outra. E lá se mantém, nas alturas, convencido da sua estatura pela altura a que imagina estar, como se fosse um parvo a morar na pentause de um arranha-céus. Parvo. É por iliteracia que não compreende p...

A cusca

Chegava todas as manhãs sorridentes com uma presença de tabloide. Assim que as mãos dos pais soltavam as suas, a pequena Maria Amélia corria para as vísceras do infantário, procurando as enlameadas poças onde se divertia a rebolar como se necessitasse tratamentos de pele. O seu maior prazer era coscuvilhar, bichanar coisas do ouvido de um para a boca de outra, comadrar sobre o progresso enovelado das relações que o acaso surgia congeminar no pátio, inventariar as propriedades privadas fossem dos modelos de indumentária ou dos extrudidos plásticos que eclodem em ovos achocolatados, aproveitar para si quando alguém tinha uma pequena vitória e sobretudo alertar toda a gente quando alguém prevaricava. Instintivamente jornalística, toda a gente encarava a miúda com uma fusão de receio e gulodice. Sabendo que atuava ela como ponto nodal de todas as tricas, o obsceno desejo de saber sobre os outros sem lhes perguntar diretamente, misturava-se-lhes com o culpado anseio de denunciar as suas p...

Ruca

Ruca tinha uma daquelas caras que desafiam as espectativas. Roliça, os olhos despertos, uma grande cabeleira. Requeria um esforço considerável para a imaginar um rapaz convalescente. Olhava para a mochila apetrechada que trazia no canto da barcaça e voltava a refilar por se ter esquecido da treta do casacão. Se o tivesse trazido ter-lhe-ia facilitado imenso a vida. Podia ter seguido direita até ao polo sul, e encontrado o fim-do-mundo a pé. Como só se lembrara de trazer roupinha de verão, obrigava-se a navegar de canoa até ao Pacífico equatorial. Era o sítio que melhor acomodava gente com pouca roupa. O casaco, o gorro e as meias de lã não tinham ficado para trás por desleixo. Tinha sido a preocupação pela fome e sede a vencer o debate entre todas as necessidades. Também não trouxera livros, a não ser um pequeno maço de folhas e um lápis para nelas desenhar. Permitiam que tomasse as notas que a estranheza e a novidade ditassem, e em caso de necessidade podiam substituir algum bocado ...

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