Vivinaldo
Vivinaldo preparava-se para nova greve. Faltavam ainda três dias, mas já a excitação tomava conta dos seus momentos livres. Imaginava a euforia de tanta gente se reunindo para lutar pelos seus direitos, tanta pessoa forte e resistente, tão motivada pelo seu bem-estar e tão solidária pelo bem-estar dos outros, que dissolvia a renda de mais um dia de trabalho por essa compaixão. Davam essa renda diária, todos eles, como uma oferenda que faziam aos deuses da democracia. A paixão que rodava as ruas estimulava-o. E acima dela a bela arte que dos populares nascia. Conseguia rever as histórias dos avós na bonita camaradagem, as histórias de canções que os camponeses soltavam das gargantas, máximo esforço de libertação enquanto eram oprimidos pelo trabalho, pelo calor, pela pobreza, pelo desrespeito. A arte das palavras de ordem, curtas poesias que falavam ao coração espicaçando as suas palpitações, que falavam aos joelhos sacudindo-os para a frente, que falavam aos punhos, agitando-os no ar...