Calor
Sem grande coisa a dizer, o calor estimulava todas as partes que melhor se derretiam. E derretiam-se com tremenda facilidade. Quase no imediato. Nenhuma começara gelada. Ao longe, o sol ria dessa miséria, o canalha. Tinha enviado uma fina parte de si para iluminar uma lâmpada inexistente. A subtil ideia que permitiu aos homens inventar o motor de combustão. Viera dele, do canalha. E ficava lá, afastado desse assolo de temperaturas, o cabrão. Confortável no equilíbrio do seu calor interno e o refrescante arrefecer do vácuo. Tão quente que nem precisa de enfiar uma camisolinha para se resguardar. Nem roupa alguma. O fresco revolveu-o na ideal proporção. Uma regra de ouro em centígrados. Soubera disso o Leonardo e teria antes pintado esse canalha. O seu sorriso tem maior perfídia que o da outra. E lá se mantém, nas alturas, convencido da sua estatura pela altura a que imagina estar, como se fosse um parvo a morar na pentause de um arranha-céus. Parvo. É por iliteracia que não compreende preencher o fundo mais raso do sistema. Os outros que somos boiamos à sua volta com maiores liberdades. Imbecil ressabiado, que odeia a nossa casa e todos que nela habitam por no seu íntimo saber ter ela maior trela que ele. Assim nos castiga, então. Inventou de nos fazer inventar maneiras de guardar mais da sua luzinha dentro do nosso ar. E que invenção foi! Não é tarefa fácil, essa de guardar luz no ar. Ou qualquer outra coisa. De todas as matérias conhecidas, o ar está certamente entre as pobres no que toca a capacidade de fazer recipiente. Daí ser tão pouco usado por aqueles cromos da química que manufaturam taparuéres. Mas lá se arranjou maneira. Com dois peidos de tubo de escape, faz um fuminho com bolsa suficiente para guardar dois ou três fotões. Um arzinho comiloso, que papa a luz, mastiga e digere, fazendo-a calor, como as plantinhas dele fazem lenha, e nós fazemos das plantinhas cocó. Vai nisto e fica a Gaia com afrontamentos, imaginando que lhe chega a menopausa e deixará em breve de poder gerar vida. Paciência, tudo tem o seu fim, pensará ela se pensar. Chato mesmo são estes calores, que lhe percorrem o couro cabeludo, onde ela tem caspa e acnes que nós chamamos vulcões que são mais quentes ainda que estes calores que o ar guarda. Por enquanto, pensa o sol, esse canalha. Espera sentado sem rabo, na verdade voando sem sair do sítio, mas isso apenas em relação a si mesmo que em relação a nós mexe e por isso dizemos que alevanta e abaixa, é a nossa retribuição, fingimos ser nós o centro das coisas, e também o faz o joelho de Oríon que é outro sol que por aí anda e também julga estar bem centrado com tudo em volta a remexer. Porra de calor que nos derruba as forças dos membros e os membros das forças, e nos empasta a cabeça com pensamentos maus. Não malignos. Parvos. Maus por parvos. Essa pasta que dantes pensava e que com esta brasa só logra estupidar, faz os nossos mais acalorados imaginarem soluções cada uma de maior parvedo. Assim se convencem, que é a sua ciência que disto tudo os vai livrar. A mesma ciência que se fizera professora e ensinara o ar, desgraçado que não tem culpa nenhuma exceto ter sido bom aluno, ciência que o ensinara a guardar luzes em si fazendo delas quenturas. Antes destes calores teriam tido juízo e acabavam com isto tudo num instante. Mas assim com os cérebros espaparrados, não admira terem essas imbecis ideias, de que se resolve o mal que se fez com uma coisa vertendo sobre ele um pouco mais dessa mesma coisa. Idiotices que se pensam quando se não tem a proteção do ar condicionado. E de tudo faz jocosidade o sol, que considera ser genial, que isto qualquer estrelinha consegue derreter os seus planetas quando vai a finar e engole tudo à sua volta, mas ele tem qualquer coisa de fenomenal, já a mãe o houvera dito se a tivera, tão bestial é que inventa de queimar os seus planetinhas antecipadamente, precoce, sobredotado de suores. E cá na enrugada superfície de que se desenham mapas, nos vão informando que tudo se resolve, que aquilo lá para fora é só hidrogénio e hélio, pouco mais, que nós somos feitos no carbono e um carbono faz doze vezes o hidrogénio em gordura, pouco pode esse sol com a gente, tão feitinhos que somos de átomos pesados. E com as cabeças derreadas nem reparam dizer tudo isto enquanto vergam ferros e manuseiam ouros e espetam urânios dentro de casinhas betonadas para os arrebentar, e que se um carbono pode tudo isso, certamente poderá um hidrogénio fazer o carbono passar um verão desagradável. E por isso saber, continua ele folgado no castigo que faz, o canalha. Tudo isto porque lhe deu um dia em reparar que boa parte das paixões que lhe mandava, devolvia a boa Gaia ao cosmo por lhe parecerem demais, e não soar prudente fazer cópia dos ares a que se davam a Vénus e o Mercúrio, que se botavam a jeito em demasia o que só lhes provocava distúrbios. Por perceber essa devolução, ficou piurso o estreladinho, que como todas as coisas com tamanho a mais, tem maturidade a menos, sentindo-se deveras ultrajado por preferir ser adorado em cegueira, cegueira aliás que ele se esforça por fazer. Disto teve apenas que esperar alguns milhões de anitos até trezentos e vinte e sete acasos acidentais inesperados fazerem no nascimento da vida coisa improvável mas não impossível, e com só mais cinquenta e quatro mil duzentos e oito fazer da vida coisa concreta, e sobre estes um turbilhão de acidentezinhos que vieram a inventar um macaquedo capaz de se virar contra a própria mãe e fazer do luminoso a sua religião, e após isso só aguardou mais um par de tempos para deixar de fazer religião e passar a fazer ciência, que essa é que ele estava à espera, porque sem ela não se fazem grandes os estragos, os judeus que o digam, que a fé nas pirâmides era pouco sistemática a dar conta deles, os que estudavam em universidades foram bem melhores. Uma pena não ter por estes cabrões qualquer fraternidade o sol, esse canalha. Deixasse o lar deles em paz mais uns anos, e teriam conseguido ir espalhar o seu calor assassino por muitas mais estrelinhas.