A cusca

Chegava todas as manhãs sorridentes com uma presença de tabloide. Assim que as mãos dos pais soltavam as suas, a pequena Maria Amélia corria para as vísceras do infantário, procurando as enlameadas poças onde se divertia a rebolar como se necessitasse tratamentos de pele. O seu maior prazer era coscuvilhar, bichanar coisas do ouvido de um para a boca de outra, comadrar sobre o progresso enovelado das relações que o acaso surgia congeminar no pátio, inventariar as propriedades privadas fossem dos modelos de indumentária ou dos extrudidos plásticos que eclodem em ovos achocolatados, aproveitar para si quando alguém tinha uma pequena vitória e sobretudo alertar toda a gente quando alguém prevaricava.

Instintivamente jornalística, toda a gente encarava a miúda com uma fusão de receio e gulodice. Sabendo que atuava ela como ponto nodal de todas as tricas, o obsceno desejo de saber sobre os outros sem lhes perguntar diretamente, misturava-se-lhes com o culpado anseio de denunciar as suas próprias falhas e tê-las assim expostas perante todos os outros. Era um equilíbrio difícil. No final, faziam como as traças que se aproximam da luz: preferem ser publicamente humilhados que ser privados da humilhação pública de outros. A cachopa solicitava no pessoal a resposta de uma zebra ou antílope que beberricam água num lago e se apercebem da chegada de cinco leoas. Quando ela emergia num corredor, o primeiro instinto levava a que endireitassem a cabeça muito direita e abrissem os olhos muito abertos, de preferência com a boca semiaberta em estupefação. E após esse assustador início lá se lembravam que estavam num jardim zoológico, não na savana, e tratavam de se comportar como os macacos que saltam agarrando as grades com mãos e pés, ansiosos por receber um amendoim por saberem existir entre o público suficientes criminosos que desrespeitem os sinais que os proíbem de partilhar ração. Ou seja, à medida que ela se aproximava crescia neles a espectativa de um salgadinho em declive mais acentuado que o receio da sua exposição.

Era o que fazia agora a dona Eugénia. Ajudava a menina a tirar a mochila e o casaquinho para se preparar para entrar na sala. Tinha na cara um grande sorriso e na têmpora duas gotas de suor, e enquanto puxava cada manguinha ia fazendo aquela banal converseta do «então como estás esta manhã?» e «estava um pouco mais frio que ontem, não era?», enquanto os outros observavam no corredor o poder que aparentava ter essa menina sobre a matrona, quando na realidade a criança vivia com a cabeça à altura de um pontapé desmazelado. Não se prolongou a interação com a contínua por entretanto lhe chegar a Matilde e o André, que eram o tipo de esbirros a que se chamam amigos quando se faz de conta que não se está no controlo da relação.

Estes dois gostavam da Maria Amélia mais que todos os outros. Ajudava a sua amizade o facto de terem apenas prazer pelas denúncias que ela fazia sem nunca temerem ser eles mesmos denunciados, por sofrerem ambos de uma doença incurável chamada nãoseveraoespelhice. É uma doença horrível e para a qual não tem havido a devida sensibilização, mas sabe-se que dela padece gente mais ou menos desde que os egípcios inventaram os retratos. Entre os sintomas, os mais visíveis são um indomável indicador espetado a apontar para alguém, e um sorriso cruel quando o alguém para que se apontou é linchado em praça pública. Apesar de todos os esforços pelas nossas autoridades médicas, não parecemos ter encontrado um vislumbre de solução para esta maleita, havendo muito pouco que se possa fazer para mitigar os seus efeitos e tornar um pouco menos dolorosa a vida de sofrimento desta gente. Alguns psiquiatras recomendam literatura, que dizem obter resultados moderados em quase três por cada duzentos mil casos, mas a maioria aconselha a familiares e amigos de quem padece de nãoseveraoespelhice a mandá-los dar uma curva, que funciona em quase cinco por cento das situações. Estudos recentes indicam que este valor se pode subir para quase trinta por cento se estes escolherem ir dar uma curva eles mesmos em vez de esperarem que sejam os pacientes a fazê-lo.

Bem, explicava-se que a Matilde e o André, pelas razões trágicas e misteriosas que fazem uns ovos ter salmonela e outros não, apreciavam sobremaneira a companhia da Maria Amélia, de tal forma que quando os três se juntavam soltavam a sorte de gargalhadas que produzia tremeliques nos joelhos de quem estivesse nas imediações. Mas não era isso que fazia deles boa companhia. Aliás, talvez sucedesse o inverso, posto que tal proximidade impedia a bisbilhoteira de se concentrar em coisas bonitas e felizes, como a Inês estar quase a ter uma irmãzinha ou a mãe do António ter finalmente conseguido a nacionalidade, ou até em coisas bonitas e tristes, como a avó da Márcia ter cancro e como se podiam juntar para fazer um postal a desejar-lhe as melhoras, ou a dona Mariazinha se estar a divorciar porque o marido já não gosta dela e por isso ser desejável dar-lhe um abraço todos os dias e dizer que se gosta dela. A companhia puxava pela comadre para ela se concentrar nos assuntos que se podem classificar no grupo dos histericamente desagradáveis, o género de rúbrica que quando televisada se apresenta em fragmentos, notícias partidas, ou ainda mais angustiante, as que se partem no gerúndio como se a sua destruição ocorresse em direto: Partindo notícias! O que queriam era especulações sobre quem terá tirado a borracha que desapareceu à Vera, porque apesar de se saber que ela era distraída era também possível que tivesse sido o João ou o Filipe.

Lá puxavam pela Maria Amélia e ela deixava-se puxar porque também lhe apraziam esses boatos. Depois ficavam os três muito contentes uns com os outros, deixando a chavala espalhar essas novidades com o sentimentalismo de quem se encontra a servir numa importante missão, algo de uma nobreza transcendente. E as pessoas ouviam porque o que quer que fosse o assunto do dia ela sempre o dizia com os olhos bem abertos e a testa alevantada e as pontas interiores das sobrancelhas ligeiramente subidas e quase impercetíveis depressões nos papos dos olhos, enquadrando todas as suas histórias nessa figura ingenuamente suplicante que fazia quem ouvia sentir ter um poder sobrenatural e desejar ajudar a aliviar o sofrimento de tão amável criatura. Conseguiam isso, claro, revelando algo de desagradável sobre si mesmos, mas não fazia mal. Nenhum tinha segredo tão vergonhoso como o do Simão.

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